<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926</id><updated>2011-10-06T21:38:05.328-04:00</updated><title type='text'>¤MAJOR THOM¤</title><subtitle type='html'>"I don't know why you're mean to me/
When I call on the telephone/
And I don't know what you mean to me/
But I want to turn you on, turn you up, figure you out, I want to take you on/

The fool might be my middle name/
But I'd be foolish not to say/
I'm going to make whatever it takes,
Ring you up, call you down, sign your name, secret love,
Make it rhyme, take you in, and make you mine" (R.E.M.)</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>71</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-112121410559274206</id><published>2005-07-12T20:19:00.000-04:00</published><updated>2005-07-12T20:21:45.600-04:00</updated><title type='text'>R.I.P., Major...</title><content type='html'>* 27 de agosto de 2004&lt;br /&gt;+ 12 de julho de 2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudações do espaço e até nunca mais&lt;br /&gt;Major Thom Miller&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-112121410559274206?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/112121410559274206/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=112121410559274206' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/112121410559274206'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/112121410559274206'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/07/rip-major.html' title='R.I.P., Major...'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111964553153117735</id><published>2005-06-24T16:30:00.000-04:00</published><updated>2005-06-24T16:38:51.546-04:00</updated><title type='text'>-coffee break-</title><content type='html'>Usualmente reduto do narcisismo mais desprezível, o *Major Thom* finalmente abre espaço para um texto de outrem. Talvez seja a reflexão mais lúcida que eu já li sobre esse revival nostálgico dos anos 80, que com o perdão da expressão, já está dando no saco. Concordem ou discordem, mas não deixem de ler. Quer dizer, concordem, porque eu não colocaria um texto de outra pessoa aqui se não fosse pra vocês concordarem com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E é mais curto do que a média dos posts anteriores, então... aproveitem!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudações do espaço,&lt;br /&gt;Major Thom Miller&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"malditos sejam os filmes adolescentes dos anos 80. e maldita seja a televisão-aberta-de-país-subdesenvolvido, em q tudo estréia com atraso de anos-luz e, pior, em que tudo é reprisado cem mil vezes nos anos subseqüentes à estréia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;esses filmes q nos fizeram hoje o q somos, esse bando de anti-sociais recalcados, quase sempre filhos únicos, que passávamos as tardes dentro de casa, sós, diante da porra da televisão, de onde vinha a sempre mais divertida atividade do dia, que não tínhamos muitas, ao menos não muitas realmente divertidas. nós q não tínhamos outra agenda q não aquela estabalecida pelas estréias e reprises oferecidas por essa televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nós, crianças demais para assitirmos aos filmes adolescentes dos anos 80 quando da estréia, não fosse o fato de nascidos num país subdesenvolvido cuja tv aberta lançava filmes com o atraso suficiente para que nascêssemos, assim como os reprisava por anos e anos para que crescêssemos - o suficiente para entendê-los minimamente, o suficiente para que enfim assistíssemos a eles embevecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eles desenvolveram em nós uma admiração por uma idade q não tínhamos, por uma sociedade em que não vivíamos, por uma escola que não freqüentávamos, por situações pelas quais não passávamos... coisas que esperávamos que acontecessem conosco em uns poucos anos, mas q nunca viriam - não da forma como os filmes nos tinham ensinado. sem yearbook nem prom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem as casas grandes de 2 andares com cesta de basquete na porta da garagem e luzinhas no natal, sem as ruas calmas pra andar de bibicleta e skate (os subúrbios daqui tão diferentes), sem armários nos corredores da escola, sem festas na casa do vizinho cujos pais viajaram, sem seus pais viajando e deixando você sozinho podendo dar uma festa, sem babás q trazem namorados, sem carteira de motorista aos 16, sem drive-in, sem bailes e sem aquela flor espetada sobre o seio da garota pelo garoto, nem penhascos onde se vá de carro tantar fazer aquele seu memso amor deixar afinal de ser platonico... enfim, sem porra nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mesmo assim nós devorávamos os filmes, e revíamos todos, quantas vezes eles fossem reprisados pela tv-aberta-de-país-subdesenvolvido, porque através deles nós vivíamos - nós, os tímidos retraídos, excluídos, branquelos ou não, gordos ou não, magros demias ou não, com óculos ou não, nerds ou não (q nas dublagens viravam CDFs), nós q éramos ridicularizados, humilhados, massacrados (verbal e/ou fisicamente)... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nós amamos os filmes adoslescentes dos anos 80 porque, apesar de todas as discrepâncias entre a realidade q eles nos apresentavam e a realidade q se apresentava a nós de verdade todos os dias, eles eram ainda verdadeiros em retratar aquela sufocante proporção entre os estereótipos que formavam o pequeno mundo daqueles personagens, assim como o nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sim, não havia casas nos subúrbios, festas sem pais, armários na escola, nem drive-ins, nem bailes, nem penhascos. mas cedo descobríamos que havia cheerleaders, embora elas aqui não fossem chefes de torcida; havia um bully, vários, embora eles não fossem do time de futebol, ou nem necessariamente jogassem futebol; havia desajustados, havia nerds, havia darks... de uma forma ou de outra, e isso era o mais importante, esses filmes serviam para formarmos um arsenal de experiências q nem eram nossas, mas q podiam muito bem ter sido... e q eram como se fossem nossas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;era só através deles q nós podíamos ver superada a timidez (ou, em alguns casos, ver alcançada a popularidade), ver vingada nossa honra, ver recuperada nossa dignidade, ver conquistada aquela pessoa q não nos amava ou não sabia q existíamos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por causa desses filmes, quisemos até ter penteados anacrônicos, usar tênis gigantes, roupas patéticas e chapéus estranhos, jogar verdade-ou-conseqüência e monopólio (e não banco imobiliário), ouvir músicas q já não tocavam, sair fantasiados para pedir doces, comer peru de ação de graças, ir a festas-do-beijo, e tantas outras coisas. Crescemos crianças frankeinsteins de espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora idolatramos tudo isso num pacote cult de festas, mostras, livros e etc. Especialmetne nós, anti-sociais (quase)recalcados, filhos únicos ou não. Esperamos crescer pra viver aquelas histórias que nem os adolescentes americanos estavam mais vivendo. Agora acabou, mas queremos relembrar como era bom imaginar como ia ser bom crescer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viver através dos filmes era mais divertido e mais fácil. &lt;br /&gt;(Thaís Ravicz)"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111964553153117735?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111964553153117735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111964553153117735' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111964553153117735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111964553153117735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/06/coffee-break.html' title='-coffee break-'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111807271829258625</id><published>2005-06-06T11:43:00.000-04:00</published><updated>2005-06-06T11:45:18.300-04:00</updated><title type='text'>CÂNCER - epílogo</title><content type='html'>EPÍLOGO. Ouve-se um ruído de automóvel estacionando sobre a brita. Bater de portas, passos apressados. Duas janelas localizadas ao fundo do palco, uma de cada lado da porta, começam a emitir uma luz de tons alaranjados, que vai ficando cada vez mais intensa. Sombras atravessam a janela, param diante dela, como se observassem o interior da casa, e depois somem. As luzes da sala se acendem bruscamente. ALICE entra na sala, cambaleando. Vê MARCELO e LETÍCIA deitados no sofá, abraçados, e FERNANDO na poltrona esquerda com a garrafa de whisky na mão. ALICE caminha até FERNANDO, tira a garrafa da mão dele e a coloca sobre a mesa. Ouve-se uma buzina bem próxima. Um toque, dois toques curtos. FERNANDO acorda sobressaltado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE indica, com o dedo indicador diante dos lábios, para FERNANDO se calar, e aponta MARCELO e LETÍCIA dormindo. Ouvem-se mais dois toques da buzina. FERNANDO se levanta da poltrona, tem as pernas trêmulas e o braço dormente, vai ao encontro de ALICE perto da janela. Cobre os olhos com as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que horas são?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Oito e meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Oito e meia da manhã?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Oito e meia da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO olha novamente para MARCELO e LETÍCIA dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você sabe o que aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A gente perdeu a hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Acordo os dois?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Deixa eles. (pausa) Eles dormem o sono dos justos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novamente a buzina, dessa vez um longo toque que dura alguns segundos. FERNANDO coloca a mão no bolso, encontra um molho de chaves, abre a porta da sala. Uma luz alaranjada intensa invade a sala e alcança MARCELO e LETÍCIA no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Os convidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE se aproxima de FERNANDO. Vê-se apenas a silhueta dos dois, de costas. FERNANDO estende a mão direita para ALICE. ALICE se afasta de FERNANDO, que fica sozinho diante da porta, à medida que o ruído de passos e conversas fica cada vez mais próximo, anunciando a chegada dos convidados e o início da cerimônia de casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLACKOUT&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111807271829258625?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111807271829258625/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111807271829258625' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111807271829258625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111807271829258625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/06/cncer-eplogo.html' title='CÂNCER - epílogo'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111713059711627684</id><published>2005-05-26T13:56:00.000-04:00</published><updated>2005-05-26T14:16:36.626-04:00</updated><title type='text'>CÂNCER - segundo ato</title><content type='html'>ATO DOIS: acendem-se as luzes da cozinha. FERNANDO caminha até a geladeira. Abre a geladeira, à procura de alguma coisa que aparentemente não encontra. Vai até a pia, abre a torneira e contorce o corpo até conseguir colocar a cabeça debaixo da pia. Percebe que alguém se aproxima e desliga rapidamente a torneira. Ao se virar, encontra LETÍCIA parada na entrada da cozinha, sem a jaqueta de couro, os ombros à mostra e descalça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não tem água na geladeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu tô morrendo de sede. Acho que bebi demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pode beber direto da torneira. A ratazana que morreu afogada na caixa d’água tinha hábitos de higiene bastante saudáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA se aproxima. Faz uma concha com as mãos e bebe água da pia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Tá sem sono?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sem sono, bêbado e ainda com sede. Você também não conseguiu dormir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;É como se o meu corpo estivesse pedindo cama, mas a minha cabeça estivesse pedindo calma. Eu ainda não consegui me desligar. Tô funcionando na potência máxima, fecho os olhos pra tentar relaxar mas continuo agitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Deve ser efeito colateral da nossa última conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, irônica&lt;br /&gt;Conversa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ok. Quebra-pau. (pausa) O Marcelo comentou alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Fala a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não! Eu perguntei se tava tudo bem, se ele tava a fim de ir embora, ele me garantiu que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu acho que devo desculpas ao Marcelo. Eu peguei pesado com ele ainda há pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo é um péssimo lutador. Ele provoca, provoca, provoca, dá uns soquinhos de nada na barriga do adversário, fica atiçando “Como é? Você não é valente não, anda, me bate, me bate!”, aí você vai, dá uma porrada nele e ele simplesmente não agüenta. Desmonta. Pede arrego. Desiste fácil demais. (pausa) Mas eu admiro a tua capacidade retórica e o teu poder de síntese. Você reduziu a pó os argumentos do Marcelo com uma única frase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu tô arrependido do que disse pra ele. Queria me desculpar. De verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Aproveita que ele também tá acordado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ninguém dorme nessa casa não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Pelo visto, só a tua esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Noiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Quase esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Enfim. É a mesmíssima coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Um quase pode fazer toda a diferença. Fortunas são perdidas por causa de um quase. Um cavalo que quase ganhou, uma bola que quase entrou. Guerras são vencidas por causa de um detalhe estratégico fundamental que garante a vitória de um exército sobre o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente não tá falando de guerra aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Tem certeza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quase. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Pra conquistar a sua noiva, você não usou uma estratégia parecida com a de um exército? Não calculou minimamente os efeitos prováveis de uma palavra equivocada? Não tentou antecipar as reações dela pra a partir daí você poder determinar os seus movimentos? Não utilizou táticas de recuo e avanço para se aproximar e dizer que estava a fim dela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pro seu governo, quem chegou em mim foi ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E você não acredita que ela tenha usado as mesmas armas? Mesmo que de uma forma inconsciente e aparentemente instintiva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pode até ser. Mas eu acho que, nessa área, quanto mais você racionaliza e sistematiza a coisa, maior a chance de você terminar sozinho. Esse sempre foi o erro do Marcelo. ele pensa demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E, no entanto, ele conseguiu me conquistar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Isso escapa à minha compreensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Como o Marcelo me conquistou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A verdade é que você conquistou ele. Foi você que chegou no Marcelo, e não ele que chegou em você. eu não consigo imaginar o Marcelo chegando em você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Porque o Marcelo precisa se sentir no controle da situação, senão ele trava, se sente intimidado e dá pra trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você acha que eu intimido o Marcelo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não vou mentir pra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu te intimido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO abre a geladeira e puxa uma garrafa de vinho. Oferece para LETÍCIA, que pega a garrafa e encara FERNANDO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você se sente desconfortável na minha presença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não é essa a questão. Eu tô falando do Marcelo, e não de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mas eu tô falando de você. eu tô te perguntando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Se você me intimida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você quer me beijar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você nem me deixou responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você quer me beijar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Essa foi a resposta pra qual pergunta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pra todas as quatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mas eu só te fiz três perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você me intimida? Sim. Eu me sinto desconfortável quando você está por perto? Sim. Se eu quero te beijar? Sim, muito. Se eu te acho atraente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, interrompendo FERNANDO de forma brusca&lt;br /&gt;Eu não te fiz essa última pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Fez sim, há duas horas atrás, lá na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não fiz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Mas eu respondo mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO puxa LETÍCIA pela cintura, empurra-a contra a geladeira e a beija. LETÍCIA corresponde, mas subitamente o afasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Espera. Eu preciso saber de uma coisa, antes que a gente continue. Você ama a Alice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que diferença isso faz agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Responde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Olha, eu não sei que tipo de coisa o Marcelo andou enfiando na tua cabeça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo não tem nada a ver com isso. Responde à minha pergunta, você ama ou não ama a Alice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Se eu disser que sim, você sai correndo dessa cozinha e a gente não se beija. Se eu disser que não, você vai questionar o porquê do meu casamento, vai me achar um escroto e sair correndo da mesma forma. Respondendo à tua pergunta, eu só tenho a perder. Então, me diz, por que eu faria isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Gostei do teu raciocínio. Você pensa rápido. (pausa. LETÍCIA se senta) Pode ficar tranqüilo. Eu não vou fugir de você. o teu beijo tá garantido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então por que você quer saber?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Sei lá. Eu quero saber que tipo de diferença eu fui capaz de provocar na tua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então se eu disser que amo a Alice, isso vai fazer você se sentir melhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Provavelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Por outro lado, se eu responder que não, você vai se sentir como se fosse mais uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Pode ser. Mas eu também posso me sentir como a primeira que foi capaz de te tirar da inércia em que você se encontra desde que conheceu a Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Faça um favor a você mesma. Não se sinta tão especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você acabou de responder à minha pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você entendeu isso como um não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Dá pra entender de outra forma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pra mim isso é perfeitamente possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Como você consegue afirmar que ama a Alice e ao mesmo tempo confessar que já traiu ela outras vezes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A questão é que, no final das contas, e apesar de tudo, é pra Alice que eu sempre volto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;É isso o amor pra você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Entre outras coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O sono compartilhado, mais do que o sexo em si?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É você que tá colocando as coisas em termos tão poéticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Isso é escroto da sua parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pruma garota de 24 anos, os teus conceitos de amor e fidelidade até que são bastante sólidos. A única coisa que te falta é um pouco mais de experiência, aí você vai ver, na prática, que nada é tão simples quanto você acredita ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você me vê como uma virgenzinha, ou como a garotinha inocente que povoava, ou povoa, sei lá, as tuas fantasias. Sinto te desapontar, bebê, mas eu já vivi muito mais do que você imagina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Foi o Marcelo que te ensinou a falar desse jeito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo não me ensinou nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Haha, tá bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo não me ensinou nada. Nada, ouviu? Nada. Essa imagem que você faz dele, do cara experiente, maduro, sexualmente bem resolvido, essa imagem não corresponde nem de longe ao que o Marcelo é de verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Isso não me surpreende nem um pouco. O Marcelo sempre foi um cara pouco afeito à prática. O negócio dele é a teoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Já fiquei com caras mais novos, 18, 19 anos, que eram mil vezes mais seguros na cama do que o Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então quer dizer que no departamento da foda, você é que foi a professora do Marcelo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Departamento da foda? Com quem você pensa que tá falando, com os teus parceiros de futebol e cerveja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não se finge de inocente, pelo amor de Deus, eu sei muito bem que tipo de garota você é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Sabe, é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você é uma garota de 24 anos, que freqüenta lugares considerados (FERNANDO desenha as aspas com a mão) alternativos. Provavelmente veio de uma família liberal, classe média Zona Sul. Teus pais te deixaram fazer de tudo quando você tinha 13, 14 anos. Eles sabiam de todas as merdas que você fazia mas nunca se meteram na sua vida e você também nunca contou nada pra eles. Você tinha o hábito de freqüentar boates, mas achava que matinê era coisa de patricinha, então você falsificava a sua identidade pra poder entrar nas festas que só começavam depois da meia-noite. Tua iniciação sexual aconteceu relativamente cedo, com um sujeito que hoje você mal lembra da cara, mas que naquela época você considerava seu namoradinho. Antes de dar pra ele, no entanto, você deixou vários caras enfiarem o dedo em todos os seus buracos, mas só se sentiu (aspas) segura pra trepar com ele. Vocês não usaram camisinha, e foi horrível, porque ele terminou rápido demais e você não sentiu absolutamente nada. Fumava escondida, passou da nicotina pra maconha porque era socialmente mais transgressor, depois voltou pra nicotina porque fumar maconha passou a ser coisa de criança, aí largou a nicotina e voltou pra maconha porque as crianças começaram a usar ecstasy. Leu toda a babaquice filosófica escrita da década de 60 pra cá, Foucault, Deleuze, todos os pós-moderninhos. Usa expressões como simulacro e simulação como quem diz bom dia. “Matrix” é a sua bíblia, você cita diálogos do filme como um crente cita a porra dos evangelhos. Amor? Amizade? Sentimento? Tudo mentira. Não existe verdade. Deus? Que Deus, haha? Deus está morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Só faltou dizer que eu tinha um pôster de “Laranja mecânica” no meu quarto. E que, antes de trepar com o meu namoradinho, a gente já tinha tentado outras modalidades de foda, mas nunca dava certo porque umas ele achava que eram nojentas demais e outras ele achava que seriam muito dolorosas pra mim. Trepar da maneira convencional era nossa última opção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Calma, ainda não acabou. Você desprezava as meninas da tua idade que respondiam àqueles questionários de revista, porque se considerava avançada demais em relação àquelas perguntas inocentes, mas era só alguém chegar com um questionário mais explícito que você se animava em responder justamente pra demonstrar como você era mais experiente do que os outros, ainda que nunca tivesse feito porra nenhuma. Enquanto suas amigas babavam pelo Brad Pitt, você preferia o Johhny Depp. Tinha orgulho de dizer que nunca fez parte de nenhuma tribo. Desconfia do conceito de autenticidade e atitude, mas foi criada vendo clipes na MTV, alguns deles você até gravava numa fita cassete que hoje deve estar coberta de mofo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA salta da cadeira e pula no colo de FERNANDO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O que que eu tenho que fazer pra calar a tua boca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quando você e o Marcelo se conheceram, você tentou assustar ele com esse seu discurso. Você percebeu que ele ficou impressionado, mas disposto a checar a veracidade dos fatos. Na primeira vez em que vocês treparam, você pediu pra ele te beijar (FERNANDO põe a mão entre as pernas de LETÍCIA) aqui embaixo, aí você fingiu que ninguém nunca tinha feito isso com você e o ego dele explodiu. Nesse exato instante você percebeu com que tipo de pessoa estava lidando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Errado. Eu pedi pra ele me meter em outro lugar (LETÍCIA leva a mão de FERNANDO até a base das costas), mas ele ficou com medo de me machucar e a gente acabou trepando como duas pessoas normais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Isso te frustrou imensamente, porque de alguma forma fez você se lembrar do teu primeiro namoradinho. Você olhou pro Marcelo, aquele cara maduro de 37 anos, teu professor, e pensou “Ele não vai se negar!”, mas no final das contas foi como se você estivesse trepando com um sujeito de 14. Toda a tua frustração sexual reside na não-realização dessa fantasia de adolescente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Por que você tem que reduzir tudo a sexo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Porque se o amor e o sentimento são discursos, sexo é tudo o que nos resta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você é freudiano demais pro meu gosto. Quis matar papai e comer mamãe, não conseguiu, então seja um frustrado pelo resto da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;As perversões do Marcelo devem ser extremamente chatas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, saindo do colo de FERNANDO&lt;br /&gt;A questão é: ele não tem nenhuma grande perversão. Os fetiches do Marcelo são tão bobos. Ele acha essa história de fantasia uma grande bobagem. Uma vez eu tentei excitar o Marcelo contando quais eram as minhas fantasias, você tinha que ver a cara de tédio que ele fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você contou pro Marcelo as tuas experiências?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Sexuais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;De preferência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Só as irrelevantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E as relevantes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Essas eu faço questão de guardar pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Porque eu não quero dividir elas com ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você tem medo de que alguém roube elas de você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não, eu tenho medo que elas percam a relevância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Determinada experiência não perde a relevância só de você contar ela pra outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mas a outra pessoa pra quem eu conto pode me fazer enxergar o quão irrelevante ela é. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Te provando por A+B que ela pode ser mais relevante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não, simplesmente achando irrelevante e extraindo prazer disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então a maneira que você encontrou de se defender dessa ameaça é considerar tudo irrelevante. Assim nenhum julgamento externo jamais vai afetar você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;É mais ou menos por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você vive uma mentira, sabia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você também, quando diz que ama a Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A questão é que a gente entende o amor de maneiras diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você e a Alice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você e eu. O amor é uma experiência que você conscientemente eliminou da sua vida. Assim você mantém em segurança o conceito de amor que você elaborou na sua cabeça e evita possíveis decepções. Quer dizer, é mais fácil você dizer que não acredita em Deus do que se confrontar com a possibilidade de Deus não ouvir as tuas preces no dia em que você mais precisar dEle. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Muito profundo. Mas eu ainda acho que você não ama a Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;De acordo com o teu conceito, o meu ou o do Marcelo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo não acredita no amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ele não acredita no teu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu não amo o Marcelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então por que vocês continuam juntos, se você não ama o Marcelo, o Marcelo não te ama e o sexo é uma merda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo me entende. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então duas pessoas que não acreditam no amor podem ficar juntas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Existem basicamente dois tipos de casal. Os que possuem afinidades profundas mas divergem nos pontos essenciais, e os que não compartilham afinidades nem no nível mais elementar mas que concordam no que realmente importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E o que realmente importa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Visões de mundo. Quando eu olho pro mundo, o que eu vejo, o que eu entendo. Eu e o Marcelo, a gente enxerga o mundo da mesma forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Mesmo que essa visão seja profundamente niilista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Isso me parece suicídio mútuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;A gente nunca vai esperar do outro alguma coisa que a gente sabe que o outro não está disposto a oferecer. É isso que acaba com a maior parte dos relacionamentos. Falta de sintonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você tem certeza disso? Que o Marcelo não espera mais nada de você? e que você não espera mais nada dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;A única pessoa aqui nessa cozinha que precisa desesperadamente de certezas é você. De preferência, até amanhã de manhã, o quanto antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu já tenho as minhas certezas. E não acredito que a noite de hoje possa mudar alguma coisa nesse sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você desistiu de me beijar então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não disse isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Então o meu beijo não vai significar nada pra você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Provavelmente não. Mas você parece não se importar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Qual o sentido de se fazer determinada coisa que, pra você, não faz sentido nenhum?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente não pode se privar das experiências. Principalmente das experiências estéticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E você não tem medo de que esse gesto aparentemente sem sentido e puramente estético adquira algum significado mais profundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu nem considero essa possibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você treparia comigo então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Isso é uma proposta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;É uma pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente nem se beijou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍICIA&lt;br /&gt;O beijo não é e nunca foi um pré-requisito pro sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pra mim é. Se eu não gostar do teu beijo, não vou querer trepar contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Beijo e sexo pertencem a departamentos distintos. Você pode detestar o meu beijo e se surpreender com o resto. Eu acho é que você tem medo de transar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Medo de quê? De me apaixonar por você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Entre outros efeitos colaterais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Por exemplo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Colocar a tua relação com a Alice em perspectiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Comparar vocês duas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E descobrir que está enganado em relação ao que você acha que sente por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu nunca vou deixar a Alice por sua casa. Mesmo que você trepe incrivelmente bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu te entendo. A Alice faz mais o seu tipo. Ela se submete a você. ela te deixa estar no controle da situação. A Alice não concordou em participar dessa cerimônia, só porque era importante pra você? Duvido que na cama ela seja diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Justamente. E é por isso que eu não largo dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Garotas como eu só servem pra dar um toque de perversão na tua vida. no final das contas, você acaba optando pela comodidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Isso te incomoda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Me incomoda menos do que se você estivesse jogado aos meus pés, declarando amor eterno e jurando que ia largar a Alice o quanto antes pra fugir comigo. antes não fazer promessas do que fazer promessas e depois não cumprir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E se eu estiver apaixonado por você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Aí é problema seu. Você tem que ser muito idiota pra se apaixonar por mim e ter a ilusão de que não vai sair machucado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não tenho medo de você. e nem do seu discurso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Claro que você tem medo. E é justamente por causa desse medo que você quer trepar comigo. Pra testar os seus sentimentos pela Alice, testar até onde você consegue sustentar o amor que sente por ela. A questão é que eu não me incomodo de estar sendo usada. Mas você parece se incomodar com o fato de não significar nada pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O Marcelo não é a única pessoa aqui nessa casa que tem o direito de ser narcisista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você confunde narcisismo com auto-admiração. Você não é narcisista. Você é fraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO agarra o pescoço de LETÍCIA e a puxa para perto de si. Os dois se beijam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;É assim que você demonstra a sua força?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Cala a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu acho que a gente vai ter que trepar aqui na cozinha mesmo. o Marcelo tá dormindo na sala e a tua esposa no outro quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente ainda tem o quarto de hóspedes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Me leva pra lá então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não quero que o Marcelo saiba do que aconteceu entre a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mas ainda não aconteceu nada entre a gente. Beijo não conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você entendeu o que eu quis dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, rindo&lt;br /&gt;Imagina só, eu contando, “Marcelo, eu trepei com o teu amigo na cozinha do sítio na véspera do casamento dele”. De repente o que aconteceu entre a gente se transforma na primeira fantasia que consegue excitar o Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu tô falando sério. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Sem exigências, bebê. E sem cobranças. Guarda as cobranças pra Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente pára por aqui se você continuar insistindo nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Pra mim tanto faz. É você quem vai sair perdendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Como você se acha especial... Especial e madura... Você não passa de uma putinha com PhD, sabia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Esquece o quarto. Eu quero trepar com você aqui mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E se alguém acordar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA se levanta da cadeira e caminha de costas até a saída da cozinha. Perto da porta há um interruptor. FERNANDO desce da cadeira e se arrasta até o chão. LETÍCIA tateia à procura do interruptor, ainda encarando FERNANDO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E se alguém acordar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Ninguém vai acordar. O Marcelo e a Alice, eles dormem o sono dos justos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As luzes da cozinha se apagam de forma brusca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O palco permanece às escuras por exatos 60 segundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendem-se as luzes da sala. MARCELO está deitado no sofá, em posição fetal, os braços caídos e uma garrafa de vinho virada no tapete. ALICE surge na entrada da sala, sonolenta e vê MARCELO dormindo. ALICE se aproxima pé-ante-pé do sofá, pega a garrafa de vinho e a coloca sobre a mesa de centro. MARCELO abre os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Te acordei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você quer a resposta gentil e hipócrita ou a verdadeira e cruel?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Uma que seja hipócrita e ainda assim um pouquinho verdadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não, porra, você não me acordou, caralho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Falando desse jeito, você parece um personagem de filme brasileiro dos anos 70.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE sorri e se senta na poltrona, cobrindo os olhos com as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Dor de cabeça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você devia beber mais. Só assim você se acostuma a encher a cara e deixa de ter ressaca toda vez que tomar uma tacinha de vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Até porque depois de me tornar uma alcoólatra eu não vou me contentar mais com uma única tacinha de vinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu encararia isso como uma evolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Claro. Você me vê como a Madre Paulina. Eu bebo moderadamente, não fumo, não cheiro, meus hábitos sexuais podem ser considerados socialmente saudáveis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não sou eu quem define o que é ou deixa de ser socialmente saudável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Essa deve ser sua maior frustração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Acertou em cheio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O fato é que você me vê como a Senhora Certinha, que vai arrastar o seu amigo pro abismo da mediocridade e eliminar da personalidade dele qualquer vestígio da sua presença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você tem certeza de que não está bêbada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Nunca estive tão sóbria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ok. Eu não quero discutir contigo, Alice. Aliás, minha cota de discussão hoje já foi devidamente preenchida. Então, pra gente evitar maiores aborrecimentos, me deixa em paz, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Marcelo fugindo de uma discussão... Surpreendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alice provocando uma... Surpreendente. Me deixa em paz, por favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Se você me conhecesse de verdade, ia ver que eu não sou tão certinha quanto você pensa que eu sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Então você tá assumindo que é hipócrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Todo mundo é hipócrita, Marcelo. Pelo amor de Deus, ninguém se mostra aos outros como é de verdade. Todo mundo tem o seu disfarce, a sua máscara. E as pessoas criam disfarces pra se proteger. É uma forma de defesa contra aquilo que não se conhece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Teu discurso revela uma descrença na humanidade mil vezes maior que a minha, justo eu, que tenho a fama de ser niilista, pessimista, narcisista...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A diferença, Marcelo, é que eu não confio nas pessoas que eu não conheço. Você não confia em ninguém. Mas a partir do momento em que conheço elas a fundo, eu passo a confiar nelas. Você não, você tá sempre desconfiado, pra você cada pessoa, seja ela conhecida ou desconhecida, é sempre um inimigo em potencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu me revelo pras pessoas em quem eu confio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ah, é? Quem seriam essas pessoas? Os espelhos da tua casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você definitivamente não me conhece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Claro. Você não deixa. Você não permite que as pessoas se aproximem, você nunca se envolve, tá sempre aí, mantendo esse (tom debochado) distanciamento crítico em relação a tudo e a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O Fernando não pensa dessa maneira. O Fernando me conhece, ele conhece o Marcelo por trás da máscara, se é que o Marcelo tem uma máscara, porque o Marcelo não acha que tenha uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Sim, porque o Marcelo é 100% transparente e sincero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E isso faz com que as pessoas se afastem. Porque elas sabem que eu jamais vou agir de forma hipócrita, e isso incomoda muita gente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Que tipo de gente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Os bajuladores. Os babadores-de-ovo. O pessoal do tapinha nas costas. Os sem-assunto. Os interesseiros, principalmente os interesseiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Sinceridade nunca é um problema, Marcelo. esse é o pensamento típico de quem se acha sincero, mas no fundo é apenas arrogante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você tá sendo sincera agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Como sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Da mesma forma que você tava sendo sincera quando me chamou de punheteiro no meio daquele bar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Exatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Mas se você só é sincera com as pessoas que você (faz as aspas com as mãos) conhece, e você acabou de declarar que não me conhece, porque eu não deixo as pessoas me conhecerem, então o que te autoriza a ser sincera comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE fica encarando MARCELO, que estende uma garrafa de vinho para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Como eu posso saber que você tá sendo sincera quando diz essas coisas? Eu devo acreditar em você quando você diz que não gosta de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu nunca disse que não gostava de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;As tuas atitudes comigo não bastam pra provar o contrário?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Discordar das tuas opiniões não quer dizer que eu te odeie como pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;“Odiar como pessoa” é engraçado. Então você me odeia como o quê? Como uma couve-flor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu só não concordo com a tua visão de mundo. O teu cinismo, o teu sarcasmo, o teu pessimismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você odeia a minha filosofia, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não, Marcelo, eu não odeio nada, mas se te agrada ouvir isso, então é, é mais ou menos por aí, eu odeio a tua filosofia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Mas é essa minha filosofia que faz de mim aquilo que eu sou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não. Você faz de você aquilo que você é a partir da sua filosofia, e não ao contrário. Me admira você, um existencialista confesso, admitindo que a sua filosofia te precede, como se fosse a tua essência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu só acho que as duas coisas estão por demais interligadas pra você odiar uma e gostar da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não odiar não é a mesma coisa que gostar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Então você gosta de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não, Marcelo. eu sou indiferente a você, tá bom assim? existem pessoas que eu odeio, pessoas que eu gosto e pessoas que me são indiferentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Indiferente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;É, eu simplesmente não me importo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu preferia que você me odiasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Claro que preferia. Faz mal ao teu ego mastodôntico ser ignorado dessa forma. Boa parte do teu discurso, aliás, é um reflexo dessa tua vontade de ser reconhecido. A diferença é que a maioria das pessoas tenta ser aceita de forma positiva. “Ei, eu tô aqui, gostem de mim, eu sou legal!”. Você não. Você gosta que as pessoas te vejam como um cara insuportável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Pra quem é indiferente, até que você tem opiniões bem sólidas a meu respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ser indiferente não faz de mim uma pessoa sem opinião. Eu reconheço que você é arrogante, pretensioso, sabe ser desagradável quando quer, mas eu sinceramente não me importo. Você pode ser do jeito que você quiser. Eu não ligo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Pro seu governo, eu não gosto que as pessoas me vejam de nenhuma forma. Eu sou assim, ponto final, gostou ótimo, não gostou foda-se, vai cuidar da tua vida e me deixa em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Então que diferença faz pra você o fato de eu te odiar, gostar de você ou cagar e andar pra sua pessoa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você vai se casar com o meu melhor amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E você precisa saber o tipo de pessoa com quem ele está se casando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não é nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não entendi, então. Se eu te odiasse, de que forma isso influiria na tua relação com o Fernando? Vocês deixariam de ser ver por minha causa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não seria a primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Pára de me pintar como se eu fosse um monstro. O Fernando não sumiu da tua vida por minha causa, eu nunca coloquei nenhuma restrição nesse sentido, as amizades dele não eram problema meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Claro que não. Quem sumiu foi eu. Eu, o anti-social, o arredio, o recluso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O mundo não gira em torno de você, Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu telefonava pro Fernando todo final de semana. “Vamos sair, tomar uma cerveja, ver os cavalos no jóquei, ir ao cinema ou ao teatro, sentar numa porra de uma pracinha pra jogar bocha ou dar milho pros pombos, qualquer coisa, QUALQUER COISA”, e ele nunca podia ir. Nunca podia. Desculpa, Alice, mas eu até consigo te imaginar do outro lado da linha murmurando pra ele “Diz que não dá! Diz que não dá!”. E isso numa época em que eu precisava do Fernando mais do que de todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Porque é só nas horas em que você tá desesperado e deprimido que lembra da existência de outras pessoas no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu tinha os meus motivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você queria era curtir a sua fossa sozinho. E depois jogar na cara dos outros que tinha superado o problema sem a ajuda de ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O Fernando não se fez presente porque você não deixou. Você manipulou ele direitinho, ameaçando largar ele caso ele fosse ao meu socorro. Porque a verdade é que você nunca gostou de mim, e invejava o fato de existir no mundo uma amizade como a minha e a do Fernando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Era o Fernando que não queria ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO pára do meio da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu nunca disse nada, NADA, que pudesse influenciar o Fernando contra você. ele é que não te agüentava mais. O teu charme depressivo, os teus discursos. Você sempre se colocando acima dos outros. A tua desgraça sempre sendo maior do que a do resto do mundo. Você jogando a culpa das escolhas erradas que você fez primeiro em cima dos teus pais que te oprimiram, depois em cima dos teus amigos que te abandonaram, e finalmente em cima da Humanidade que nunca sequer soube da sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em silêncio, MARCELO caminha até o sofá. Faz menção em sentar, mas desiste e vai até o toca-discos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E você era incapaz de perceber, quando a gente se encontrava, que as coisas entre você e o Fernando já não eram mais as mesmas. Que ele tava cansado da sua auto-piedade. Você tava tão convencido de que era eu que te odiava que acabou ficando cego pra todo o resto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO liga o aparelho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Como é que eu posso saber que você tá sendo sincera? Você não me conhece, esqueceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você é livre pra acreditar no que você quiser, Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO ajoelha diante da caixa de LPs. ALICE se levanta da poltrona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Marcelo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A verdade é que as coisas começaram a se foder quando o Fernando largou a agência e foi trabalhar na TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A TV não tem nada a ver com isso. É um clichê o que eu vou dizer, mas o tempo muda as pessoas. O tempo e a distância. As afinidades se perdem. O sentimento acaba. Você, mais do que ninguém, devia saber disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você me pede pra aceitar a mortalidade das coisas mas no fundo acredita em sentimentos que duram pra sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Quando as pessoas cultivam o sentimento, as chances de ele durar mais são maiores. Isso não quer dizer que ele dure pra sempre, mas também não acaba tão rápido. Mas quando as pessoas se afastam, com o tempo é como se elas passassem a falar outra língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO encontra a coleção de discos do Legião Urbana de FERNANDO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você e o Fernando se afastaram na época da morte do teu pai. Depois que o teu pai morreu, você pegou tudo o que tava sentindo, tudo o que achava do mundo, e começou a elaborar uma linguagem própria, que o Fernando não conseguia entender. (pausa) Mas você gostava tanto do Fernando que não enxergou essa distância que cada vez mais separava você dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Mas as memórias... (ergue os discos) A gente não deixou de compartilhar as memórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A questão é que você se apegou demais às memórias. E pro Fernando, elas deixaram de fazer sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO fica com o “Dois” na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O que que eu tô fazendo aqui, porra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO tira o disco da embalagem de forma agressiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Marcelo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO coloca o disco no aparelho. ALICE se aproxima e desliga o toca-discos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu te proíbo de escutar “Tempo perdido”. Se você colocar “Tempo perdido”, eu te mando embora de volta pro Rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Essa era a sua vontade desde o início mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não vou mentir pra você. Quando você chegou eu não pensava em outra coisa. Mas eu me acostumei com a tua presença insuportável nos últimos cinco anos. O que são meras 12 horinhas perto de cinco longos anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO e ALICE se encaram durante algum tempo. MARCELO abaixa os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Desculpa ter jogado no ventilador desse jeito. (pausa) Mas é que você me tirou do sério com os teus joguinhos de palavra, e depois as tuas acusações sem fundamento. Aliás, você é quem devia me pedir desculpas. Se é que esse verbete consta no teu dicionário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alice, eu não tô pedindo pra você gostar de mim. tudo o que eu quero é uma trégua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E se eu quiser gostar de você? Marcelo, você sabe, e eu sei, que isso tudo que você exibe pras pessoas não passa de pose. Deixa as pessoas te alcançarem. Deixa as pessoas conhecerem você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Tarde demais pra tentar fazer a minha cabeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;As pessoas não mordem, Marcelo. (pausa) ok, elas mordem, mas aí você morde elas de volta e fica tudo certo. Qual é a graça de se viver a vida como espectador? Como é que você, justo você, agüenta viver a vida como ator coadjuvante do drama em que teoricamente você é o protagonista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Só assim eu consigo manter o controle sobre as coisas ao meu redor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;É fácil demais manter o controle se você elimina a possibilidade de interferências externas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E porque eu seria idiota de querer dificultar a minha própria vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O que você ganha sendo covarde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O que eu perco sendo precavido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Uma vida divertida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A vida é qualquer coisa, menos divertida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A sua vida é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A vida não faz sentido, Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A vida faz sentido de um jeito estranho. E não existe “a vida”. existe a sua vida, a minha vida. se a sua vida não faz sentido, a culpa é única e exclusivamente sua. Ou você deu pra acreditar em Deus agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Justamente por eu ter consciência de que a culpa de a minha vida não fazer sentido é única e exclusivamente minha, eu me recuso a envolver outras pessoas na história. Eu não quero compartilhar a minha culpa com ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você quer ter o controle total, inclusive sobre a desgraça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Principalmente sobre a desgraça, já que no final das contas, é tudo o que nos resta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você nunca amou ninguém, Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Que que isso tem a ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Amar é compartilhar voluntariamente a desgraça. “eu tô fodida, você tá fodido, mas eu te quero mesmo assim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Pensei que você viria com alguma definição pollyanna, do tipo “o amor é a amizade perfeita” ou “o amor tudo pode”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O amor não é a conseqüência natural da amizade, ou pelo menos não o amor sexual. Amor e amizade pertencem a departamentos separados. Muitos relacionamentos dão errado porque algumas pessoas cismam em confundir os departamentos. E quando eu falo de amor, não tô me referindo só ao amor sexual. Amor que eu digo é de uma forma mais geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Entre dois amigos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ou entre pai e filho. (pausa) Não é à toa que essas coisas todas aconteceram na tua vida depois que você perdeu o teu pai. Com a morte do teu pai, você perdeu a única pessoa que você realmente amou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Quem é você pra dizer isso? Classificar o que eu sentia pelo meu pai? Desculpa te desapontar, senhora das certezas, mas a verdade é que meus sentimentos pelo meu pai nunca foram tão nobres quanto você gostaria que eles tivessem sido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Conversa, você tá dizendo isso pra se proteger. Você não quer admitir que amava o teu pai, principalmente porque você só se deu conta disso depois que ele morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você diz essas coisas porque eu cuidei dele nos últimos meses e fiquei do lado dele no hospital até o fim. Na sua cabeça, e de acordo com os seus conceitos, isso funcionaria como uma prova de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Prova o contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Provar o não-amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;É. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ok. Não tinha mais ninguém que pudesse ficar com ele. Nenhum parente, nenhum irmão. Mamãe distante. Sobrou pra mim. eu não tive escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você sempre tem uma escolha. As noites que você passou na enfermaria, o vômito que você limpou, os remédios que você aplicou, foram escolhas que você fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Culpa, tá certo? Culpa por ter estado ausente durante boa parte da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você sempre esteve junto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Fisicamente presente, mas emocionalmente distante. Foi uma atitude egoísta, ok? Tudo o que eu queria era me livrar da culpa que eu sentia. Não me venha com esse papo de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você conseguiu se livrar da culpa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não, porque a culpa sempre traz mais culpa. Você se livra da culpa de ter estado ausente, mas assume a culpa de estar ali por interesse. Aí você se livra da culpa de estar ali por interesse, mas assume a culpa de não poder fazer nada pra reverter aquela situação. Quando você se livra da culpa de não poder fazer nada pra reverter a situação, vem a culpa por não ter dito, na hora certa, as coisas que você deveria ter dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Que você amava ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Aí sabe o que você faz depois que já se livrou de milhares de culpas e assumiu outras tantas? Você culpa a doença. Você culpa o câncer. “Tá certo, eu podia ter feito isso, dito aquilo outro, ter estado mais presente, mas, quer saber, no final das contas, o câncer venceu. A culpa é do câncer, e não minha”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você acha que seu pai teria vencido o câncer se você dissesse que amava ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Sei lá. Não. (pausa) Talvez. (pausa) O amor também é um câncer. O amor cresce dentro da gente, consome as nossas forças, se alimenta da nossa fraqueza, até que não nos reste outra alternativa que não aceitar a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O amor não é uma força tão destrutiva quanto você acredita ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não é? Quem nunca amou aqui dentro é você. essa é a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não fala sobre o que você não sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você acha que o que sentiu era amor. Mas se você nunca experimentou essa vertigem, esse dilaceramento, então o amor que você sentiu era uma mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Claro. Eu é que me convenci do contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você quis acreditar que o que você estava sentindo era amor. Como em 99% dos casos o amor é uma questão de fé, no final das contas você conseguiu se convencer. Mas nesse caso, era a sua fé que era forte, e não o seu amor que era verdadeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Me admira que um cego como você consiga discernir tão bem as cores. Sua definição de amor é bastante sofisticada para alguém que tem orgulho de dizer que nunca amou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;(enfático) VOCÊ disse que eu nunca amei ninguém. Você disse isso e depois começou a vomitar aquela baboseira psicanalítica sobre a relação que eu tinha com o meu pai. Não coloca palavras na minha boca, eu nunca disse isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Posso encarar esse depoimento como uma confissão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Encara como você quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Então você já amou alguém? (pausa) Quem foi essa pessoa que te machucou tanto, hein? Porque a única explicação pra esse teu discurso contra o amor é uma experiência traumática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Por que você não fez Psicologia ao invés de Relações Públicas? Decifrar os desvios da mente alheia é muito mais emocionante do que livrar criancinhas indefesas do trabalho escravo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Anda, Marcelo, deixa de ser imaturo, a gente confessou várias coisas um pro outro essa noite. só mais esse segredinho, não vai doer. Até porque, experiências traumáticas que fazem parte do passado costumam machucar menos com passar do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Quem te disse que isso faz parte do meu passado? Por que você acha que sabe mais sobre a minha vida do que eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Porque você é terrivelmente previsível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO avança até ALICE, segura-a pela cintura e a beija. Desnorteada, ALICE afasta MARCELO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Aposto como ISSO você não previu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE esfrega as mãos contra o rosto, depois avança na direção de MARCELO com os punhos cerrados. Os dois passam alguns segundos se debatendo no meio da sala, até que ALICE se afasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Anda. Eu quero ouvir você perguntando “Marcelo, que porra é essa? Você enlouqueceu?”, qualquer coisa, qualquer coisa. Só não me deixa com essa sensação horrível de que o meu gesto não fez a menor diferença na sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE caminha até o sofá e se senta. Abre outra garrafa de vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Na noite em que eu perdi o meu pai, eu te juro que tive o impulso de olhar pro céu e rezar prum Deus em que eu não acreditava desde os 16 anos. Isso aconteceu na enfermaria do hospital, no meio da madrugada, os outros pacientes dormindo e os médicos desligando o oxigênio, o eletro... Eu me lembro de ter perguntado pra ele “E agora, o que eu faço com todo esse amor que eu guardei dentro de mim durante tanto tempo?”. Não sei se foi Deus quem me respondeu, ou se algum subordinado querendo tirar uma com a cara dos mortais resolveu assumir o lugar do chefe justo na hora do meu pedido, mas eu lembro de ter ouvido as seguintes palavras ecoando pelas paredes da enfermaria. “Do teu amor, faça-se o câncer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO se ajoelha perto de ALICE e coloca as mãos em seu colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Esse amor que eu sinto por você é o meu câncer, Alice. E esse câncer entra em metástase toda vez que eu te vejo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Que papo é esse, Marcelo? você sempre me detestou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Essa era a minha forma de te amar. Eu sabia que nunca ia te ter junto de mim, então eu tentava te odiar pra ver se o câncer ia embora. E hoje, mais do que nunca, como eu tentei te odiar... Ainda mais agora, que eu sei que vou te perder pra sempre.(pausa) Eu sei, eu sei, você vai dizer que não existe pra sempre, que no fundo todas as coisas e todas as pessoas passam, mas no fundo eu sei que você acredita no futuro do teu relacionamento com o Fernando. (pausa) Tá certo. Não cabe a mim julgar o relacionamento de vocês dois, as reais intenções dele, ou o que ele pensa do relacionamento de vocês, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O que você quer dizer com isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Com isso o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Quais as reais intenções do Fernando? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Nada. Eu tava me referindo ao fato de vocês estarem prestes a se casar. O casamento é um compromisso entre duas pessoas que se amam. Não importa o ritual, importa o sentimento que impele as pessoas a se unirem. E eu acho que quanto mais forte o compromisso, mais recíproco tem que ser o sentimento entre as duas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E daí? Que que tem a ver as reais intenções do Fernando, o que você quis dizer com isso? Que que o Fernando andou te dizendo enquanto vocês estavam naquela cozinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O Fernando não me disse nada. Eu juro. Eu só queria testar a validade do sentimento que existe entre vocês, acusando ele de não te amar na mesma intensidade do teu amor por ele. Só isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Que que ele respondeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ele me provou que eu tava errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Então ele disse que me amava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO senta ao lado de ALICE, em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O Fernando disse que me amava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O que adianta eu te dizer isso agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Adianta porque eu quero saber o que ele respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO continua em silêncio. ALICE vira a cabeça para o outro lado e começa a soluçar, olhando fixamente para a entrada da cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Independente de qualquer coisa, Alice. Eu tô aqui. Não esquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO toca o cabelos de ALICE com a ponta dos dedos, lentamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu preciso de um copo d’água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE se levanta na direção da cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alice! (pausa) Espera. Por favor, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Que foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alice, me perdoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE entra na cozinha escura. MARCELO, aflito, se levanta do sofá e caminha a passos lentos até cozinha. Pára no meio do caminho, retorna para pegar a garrafa de vinho. ALICE retorna, com um copo d’água na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alice, desculpa, eu não imaginava que fosse terminar desse jeito. Que diferença faz na sua vida você saber que eu te amo? É como acender uma vela num salão iluminado. Você tem o amor do Fernando, é claro que tem, a pessoa não precisa dizer “eu te amo” de cinco em cinco minutos para provar que te ama de verdade. Foi uma atitude egoísta da minha parte, ter dito todas aquelas coisas, me perdoa. (pausa) Esquece, esquece tudo o que eu disse. Até onde eu sei, o câncer é uma doença sem cura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE senta no sofá, mantendo o olhar fixo no aparelho de som.&lt;br /&gt;FERNANDO aparece na entrada da sala, ainda abotoando a camisa, o cabelo desalinhado, uma garrafa de vinho na mão. LETÍCIA surge atrás dele, de calcinha e cobrindo os seios com a blusa. LETÍCIA agarra FERNANDO pela cintura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Se cobre. Você vai pegar uma pneumonia. Ter ficado tanto tempo deitada, as costas quentes em contato com o piso frio da cozinha, isso não vai te fazer bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO enche o copo de vinho e encosta na parede. LETÍCIA começa a se vestir no meio da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ela trepa bem? Você gostou? Variar um pouco deve ser bom mesmo. oxigena a relação, não é assim que dizem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ah, sim. Ela trepa maravilhosamente bem. Me implora pra eu fazer todas as coisas que eu quero fazer com você e você se recusa. E o melhor de tudo, sem se sentir culpada depois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você não se sente culpado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Por que eu deveria? Eu não te amo mesmo. não é isso que o Marcelo tava te confessando? Que eu não te amo, que eu nunca te amei e que eu só tô me casando com você por comodidade, e por exigência dos meus pais? Então. Por que eu deveria me sentir culpado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Nunca mais enfie essa coisa em mim. eu não quero que você enfie em mim uma coisa que já esteve dentro de uma puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não seria a primeira vez que isso acontece. Certo, Marcelo? Essa coisa aqui já esteve dentro de muitas putas antes de estar dentro de você. mas eu reconheço uma certa dignidade nas putas. Eu nunca esperei o amor de nenhuma delas, e elas muito menos de mim. as putas, pelo menos, são sinceras. As putas não sentem dúvidas. Uma puta que eventualmente se apaixone por um cliente, e o cliente por ela, jamais vai questionar a natureza desse amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu me coloco abaixo das putas, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você questionou o amor que eu sinto você. ou melhor, ele questionou o amor que eu sinto por você, e você levou em conta as coisas que ele disse. E sabe por quê? Porque ele disse que te amava, e você achou que ele estava sendo sincero. Agora,  você realmente acredita na sinceridade dos sentimentos do Marcelo? olha pra ele, Alice. O Marcelo não acredita no amor. O Marcelo não sabe o que é o amor, por isso não acredita nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Mais sincero é você, que não diz que me ama e trepa com a namorada do Marcelo na véspera do nosso casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não confunde uma descarga de sêmen com amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ah, claro. A maior prova de amor que eu posso te dar é deixar você trepar com quantas pessoas você quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A maior prova de amor que você pode me dar é não questionar o amor que eu sinto por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Tô vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA se aproxima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Alice...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Cala a boca, sua puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Alice, a gente não trepou. Eu e o Fernando, a gente não trepou. Eu queria, mas a gente não trepou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Essa foi a maneira que o Marcelo encontrou pra declarar o amor que ele sente por você, Alice. Destruindo a confiança que a gente tinha um no outro, questionando o amor que eu sinto por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Desculpa, Alice. Desculpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não se faz de inocente. Eu quase sou capaz de apostar que o Marcelo calculou minimamente o que ia acontecer aqui hoje à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu não sou um brinquedinho na mão do Marcelo, ao contrário do que vocês pensam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não deposita nos outros uma culpa que é só sua, e de mais ninguém, Fernando. Isso faz de você um sujeito patético e covarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Malditas sejam as declarações de amor. Elas turvam a visão até do mais esclarecido dos seres humanos. Você tá cega, Alice, cega. Isso tudo foi um teste. A Letícia tava o tempo todo era fazendo o jogo do Marcelo. acordando de madrugada, ficando a sós na cozinha comigo, sentando em cima da mesa com as pernas abertas na minha frente. Essa foi a maneira que o Marcelo encontrou pra dizer que te ama, Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não, o jogo era meu, e só meu. Eu vim pra cá como um pretexto. E eu não queria ser um pretexto. Eu queria ser mais do que isso. (pausa) Eu quis trepar com o Fernando, porque achei ele atraente, porque tava a fim, eu tava pouco me fodendo pro fato de vocês se casarem amanhã. Na hora isso nem passou pela minha cabeça. Eu não ia me reprimir por causa de um ritual que não faz o menor sentido pra ninguém aqui nessa sala, muito menos pra vocês dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você também quis trepar com ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quis, quis pra caralho, e isso não me traz nenhum remorso. A menos que você também se sinta culpada por ter beijado o Marcelo, e acreditado nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu não beijei o Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Mas fez pior. Você acreditou nele. Se o Marcelo chegar pra você agora e disser “Alice, eu te amo e o Fernando trepou com a Letícia”, você vai acreditar nas palavras dele, mesmo que você saiba que não aconteceu nada naquela cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Como é que eu posso ter certeza disso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Porque na hora em que o Fernando me tocou, o desejo que eu tava sentindo por ele foi embora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Isso não me garante nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você vai ter que acreditar em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO repousa o copo de vinho em cima do aparelho de som.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Porque ali, naquela hora, eu descobri que existia alguma coisa entre o meu desejo de trepar com um desconhecido por quem eu me sentia atraída e simplesmente flertar com ele. Flertar com o Fernando era uma forma de estar no controle da situação. Eu podia obrigar o Fernando a fazer o que eu quisesse. Porque eu tava no controle. Mas se eu trepasse com ele, por mais que eu estivesse a fim, isso podia me colocar numa posição vulnerável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você tinha medo de se apaixonar pelo Fernando, é isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não. Isso nunca passou pela minha cabeça. Eu tinha medo de trepar com o Fernando e depois descobrir que, no fundo no fundo, era o Marcelo que eu amava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, apertando o braço de LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu quero que você diga essas coisas na cara dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Pára com essa merda, Fernando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Solta o meu braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu tô adorando a sua confissão, mas eu quero que você diga essas coisas na cara do Marcelo. por que você não quis trepar comigo? Anda. Responde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO arrasta LETÍCIA até MARCELO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Fernando, pára.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu só não trepei com o Fernando por medo. medo de descobrir que é você que eu amo. E eu não quero te amar, Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Porque você não me ama. Eu sei que não. E ninguém gosta de sentir essas coisas sem ser correspondido. Eu tô velha demais pra me apaixonar platonicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sinto te informar, mas isso já aconteceu. Você não trepou comigo não foi por medo de descobrir que amava o Marcelo, mas sim porque tinha certeza absoluta disso. (pausa) Você passou no seu teste. Mas foi reprovada pela banca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO pega novamente a taça de vinho e passa por LETÍCIA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Desculpa. Mas eu não te amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Claro. Porque você ama a Alice, certo? (pausa) Mas a Alice não te ama. Ama?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu te amo, Fernando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que pena. Porque eu não te amo. Você tanto se esforçou pra ouvir isso da minha boca essa noite, que no final das contas... (pausa) No placar geral, nós temos: Letícia que ama Marcelo que ama Alice que ama Fernando que não ama ninguém. Me corrijam se eu estiver errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO se senta no sofá e coloca duas garrafas de cerveja, uma de vinho e um copo em cima da mesa de centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;(erguendo as duas garrafas de cerveja) Fernando e Alice. Oi, Fernando! Oi, Alice! (pausa. Pega a garrafa de vinho) Marcelo! O vinho é a bebida dos intelectuais e dos poetas. Quer dizer, no teu caso, dos pseudo-intelectuais e dos poetas frustrados. (pega o copo) Letícia. Desculpa, Letícia, mas a sua representação precisa fazer jus ao seu tamanho e à sua idade. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;FERNANDO aproxima as duas garrafas de cerveja num canto da mesa, e no outro canto, a garrafa de vinho e o copo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Letícia ama Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO empurra o copo para fora da mesa. O copo se parte ao cair no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Marcelo... (arrasta a garrafa de vinho até a garrafa de cerveja) ... ama Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO empurra a garrafa de vinho, que cai no chão e se estilhaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E, finalmente, Alice... (aproxima uma garrafa de cerveja da outra)... ama Fernando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO arremessa a garrafa de cerveja contra a parede. ergue a garrafa que sobrou e verifica se ela está vazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sabe de uma coisa, Marcelo? pela primeira vez eu sou obrigado a concordar com a tua teoria. O amor é um câncer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA caminha até a poltrona direita e desaba sobre ela. ALICE vai até o aparelho de som e, novamente, arrasta a caixa de discos até o quarto, produzindo um ruído insuportável. MARCELO pega uma garrafa de whisky em cima da estante e se aproxima de FERNANDO, que permanece de pé diante da mesa de centro. MARCELO pega a garrafa de vinho que FERNANDO depositara sobre a mesa e a ergue, fazendo o mesmo com a garrafa de whisky.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Fernando... (ergue a garrafa de vinho) ama Júlia (ergue a garrafa de whisky). Whisky, bebida forte, para pessoas de espírito forte. Fernando... (ergue a garrafa de vinho) não admite que ama Júlia (ergue a garrafa de whisky) porque perdeu Júlia (ergue a garrafa de whisky)... porque não soube amar Júlia. E porque depois de terminar com Fernando, Júlia foi buscar um pouco de consolo nos braços daqueles cacos de vidro ali no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO ergue a garrafa de vinho e a solta sobre a mesa. A garrafa se estilhaça. MARCELO abre a garrafa de whisky, toma um longo gole e se senta na poltrona esquerda. FERNANDO se arrasta até o sofá, deixa o corpo pender lentamente para trás e, por fim, se deita, encarando o teto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendem-se luzes de pino sobre MARCELO, LETÍCIA e FERNANDO. As demais luzes da sala se apagam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acende-se uma luz de pino sobre ALICE no quarto. Ela tira os sapatos, coloca a caixa com o vestido de noiva no chão e se deita na cama. Estende o braço, sonolenta, até alcançar o presente da mãe de Fernando, esquecido perto do travesseiro. ALICE retira a embalagem lentamente. É um vidro de perfume. ALICE aproxima o nariz do vidro e faz uma cara de nojo. ALICE, então, derrama algumas gotas sobre os lençóis, joga o vidro no chão e enterra a cabeça entre as cobertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLACKOUT.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111713059711627684?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111713059711627684/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111713059711627684' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111713059711627684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111713059711627684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/05/cncer-segundo-ato.html' title='CÂNCER - segundo ato'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111601372325622886</id><published>2005-05-13T15:46:00.000-04:00</published><updated>2005-05-13T16:24:47.923-04:00</updated><title type='text'>CÂNCER - primeiro ato</title><content type='html'>Peça em dois atos e um epílogo de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiago Monteiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Personagens: MARCELO, FERNANDO, ALICE E LETÍCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cenário: sítio dos pais de Fernando, na serra de Teresópolis, RJ (sala, cozinha, quarto principal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ATO UM: palco escuro. Ouve-se, ao longe, o barulho de um carro se aproximando. O motor pára de trabalhar, passos que avançam por sobre um caminho de pedras, um molho de chaves. Uma porta, ao fundo do palco, se abre. Uma luz de pino se acende sobre um velho toca-discos localizado na área inferior-esquerda do palco. FERNANDO, aproximadamente 35 anos, usando camisa pólo e calça jeans, o cabelo curto cuidadosamente desalinhado, carregando um terno pendurado num cabide e duas malas, larga a bagagem perto da entrada, o terno sobre o sofá e caminha até o toca-discos. FERNANDO se ajoelha diante do aparelho e começa a revirar uma velha caixa de papelão repleta de LPs. As demais luzes se acendem, revelando uma sala espaçosa, com um sofá entre duas poltronas e uma mesa de centro, uma estante à direita e o toca-discos à esquerda. Vemos ALICE, da mesma idade de FERNANDO, cabelo channel cortado na altura do ombro, calça jeans e camiseta regata vermelha, sandálias de couro e carregando apenas uma caixa dourada, entrar na sala, repousar a caixa cuidadosamente sobre o sofá e arrastar, com dificuldade, as duas malas de FERNANDO até o centro do palco. FERNANDO, indiferente à movimentação de ALICE, continua revirando a caixa, até encontrar o “Wish you were here” do Pink Floyd. Exaltado, FERNANDO retira o disco da capa, limpa o vinil com a barra da camisa e o coloca no aparelho. ALICE continua parada no meio da sala, visivelmente impaciente. FERNANDO começa a dançar ao som de “Shine on you crazy diamond”, sozinho, como se estivesse em transe, rodopiando até o centro da sala e agarrando ALICE pela cintura. ALICE resiste, tentando se livrar de FERNANDO e arrastar as malas até o quarto, mas acaba cedendo. ALICE beija FERNANDO e os dois ficam dançando no meio da sala, a testa de ALICE encostada no peito de FERNANDO. Logo após os versos “Remember when you were young/ You shine like the sun”, o disco começa a pular. Desfeita a mágica, FERNANDO abandona ALICE no meio da sala e corre até o toca-discos, desligando o aparelho e guardando o LP de volta no plástico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Estranho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Que foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Esse disco... Da última vez em que eu escutei, não deu defeito, não pulava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E isso foi há...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sei lá. Dez, doze anos. Eu tinha quinze.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E era fã de Pink Floyd.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pink Floyd e Legião Urbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Envelhecer tem suas vantagens. Teu gosto musical melhorou bastante com o passar dos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Queria que você tivesse me conhecido na minha fase anarco-punk.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Na sua fase anarco-punk, eu devia estar babando pelo Paulo Ricardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A verdade é que você sempre foi uma vendida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Me ajuda a desfazer as malas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, se jogando no sofá&lt;br /&gt;Dá um tempo. Deixa eu descansar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Me ajuda a levar as malas até o quarto, pelo menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente chegou mais cedo justamente pra não ter que fazer as coisas correndo. Então fica calma, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ok. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Vou aproveitar e ligar pros meus pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Pra quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pra avisar que a gente já chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Porque esse foi o combinado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Me ajuda a levar as malas pro quarto, depois a gente arruma tudo, aí você liga pros seus pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O combinado foi ligar assim que a gente chegasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Então. Inventa uma história qualquer, que a gente pegou neblina na serra, engarrafamento perto do pedágio, qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, já discando no celular&lt;br /&gt;Meu pai conhece o trajeto Rio-Teresópolis como ninguém. Ele sabe que, saindo de Ipanema a hora em que a gente saiu, e não tendo nenhum contratempo na estrada, a gente não levaria mais de noventa minutos pra chegar aqui em cima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A menos que a gente tivesse algum contratempo na estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Meu pai sabe que se a gente tivesse algum contratempo na estrada, a primeira coisa que eu faria seria ligar pra ele e avisar que a gente ia se atrasar pra chegar aqui em cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;É tão difícil pra você inventar uma história? Me admira que os caras da televisão te paguem pra você fazer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É diferente. Meu pai não é, nem nunca foi, o espectador ideal das minhas histórias. (pausa) Peraí. Tá chamando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE senta no sofá ao lado de FERNANDO. Coloca a caixa dourada no colo, abre a tampa e retira um vestido branco de seu interior. ALICE fica examinando o vestido com os dedos enquanto FERNANDO fala ao telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Alô? Pai? Oi, pai, sou eu. Já, a gente já chegou. (pausa) A serra? Continua a mesma de sempre. (pausa) Não, só um pouquinho de neblina antes de chegar em Teresópolis. Não, não tá frio não, mas parece que vai chover de madrugada. Não, pai, não esquenta, se chover amanhã na hora do casamento a gente estende o toldo em cima do bufê e fica tudo certo. Aliás, bom você ter me lembrado do bufê, eu tenho que falar com o caseiro e ver se o pessoal já trouxe as coisas... Não, não, tá tudo bem. Sério, ué. Por que você tá perguntando isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Tem uma linhazinha solta no vestido. Aposto que foi na hora de colocar na caixa. Aquela vaca da loja ficava passando as unhas no vestido, tenho certeza que foi ela quem desfiou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Oi? Não, pai, é a Alice falando aqui do meu lado. Não, nada importante, uma bobagem sobre o vestido. A-hã. Tá, espera aí. (para ALICE) Minha mãe quer falar com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Depois, Fernando, depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO entrega o celular na mão de ALICE, que atende a contragosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Oi! Tudo, tudo ótimo. O vestido? Não, nada de mais, é só uma bobagem. (pausa) Presente? Não, não sei de presente nenhum. Na mala? Junto com os sapatos? (ALICE afasta o celular. Para FERNANDO.) Seu filho da puta, tinha um presente pra mim naquela mala e você nem me avisou. (de volta para a mãe de FERNANDO) É pra eu usar amanhã durante o casamento? Ah, não precisava, a senhora sabe que não precisava. É claro que eu vou gostar. A-ham. Tá, obrigada, muito obrigada mesmo. Quer falar com o Fernando? Ok. Até amanhã, então. (ALICE desliga o telefone.) Sua mãe não quer falar contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Era uma surpresa pra você. Não vai abrir o presente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE, guardando o vestido&lt;br /&gt;Pra quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pra você poder mentir com conhecimento de causa amanhã, quando a minha mãe te perguntar se você gostou do presente e você disser que adorou. (pausa. Assume um tom debochado.) “É claro que eu vou gostar!”. Haha. Tá bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Queria que eu dissesse o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Se pedir pra você ser sincera é um pouco demais, então o melhor seria você ter ficado calada. Ou que você abrisse o presente primeiro e desse a sua opinião depois. Esse excesso de gentileza não combina contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ok. Da próxima vez eu prometo que vou dizer a verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A verdade é que eu aprendi a relativizar o sentido das tuas palavras. Sei quando o teu não quer dizer sim e o teu sim quer dizer não, principalmente quando o assunto tem a ver com os meus pais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu, se fosse você, me dava por satisfeito, já que eu minto pros seus pais e não pra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Meus pais não te conhecem. Eles não sabem quando você tá mentindo. Eu sei. Então não se surpreenda se amanhã, na hora do “promete amá-la, respeitá-la, etc etc até que a morte os separe”, quando você responder o “sim”, eu te olhar de um jeito esquisito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Se eu responder o “sim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É, tem essa possibilidade. Mas eu sei que você não vai fazer isso. Você tem consciência do quanto a gente gastou pra organizar essa festa, alugar os ônibus que vão trazer o pessoal do Rio, mais o bufê... Você não vai jogar tanto dinheiro fora por causa de um capricho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Então dizer “não” pra você seria um capricho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E uma tolice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO beija ALICE, de forma apaixonada. ALICE se atira nos braços de FERNANDO e o enlaça com as pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você não tinha que desfazer as malas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Sexo pré-marital virou pecado agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É que eu tenho que ir falar com o caseiro, e você tem que desfazer as malas. A gente vai ter a madrugada inteira pra ofender o Pai, o Filho e o Espírito Santo quantas vezes você quiser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu vou querer dormir de noite. não esquece que amanhã a gente tem que acordar cedo. Eu tenho que tomar banho, fazer unha, cabelo. Acho bom você me deixar descansar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Bom, você é quem sabe. eu, no seu lugar, aproveitaria a chance. Depois do casamento, essas coisas costumam ficar cada vez mais escassas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu confio na sua disposição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu vou falar com o caseiro e trazer as bebidas da geladeira dele pra nossa, antes que o safado encha a cara às nossas custas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você falou feito o burguesão do seu pai agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não quer vir comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu não. Prefiro ficar aqui desfazendo as malas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Claro. O teu orgulho te impede de respirar o mesmo ar que os subalternos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;“Subalternos”!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você entendeu o que eu quis dizer.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO sai da sala. ALICE caminha até o aparelho de som e começa a vasculhar a caixa de LPs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Lixo, lixo, lixo. Isso aqui vai tudo pro lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE arrasta a caixa de LPs até o meio da sala. Empilha as duas malas de FERNANDO, coloca a caixa de LPs em cima e empurra as duas até o quarto. Ouve-se uma buzina ao longe, tocando ininterruptamente. FERNANDO entra correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Tem alguém buzinando na entrada do sítio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu percebi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO sai outra vez. ALICE continua a empurrar as malas. Chegando no quarto, ALICE coloca a caixa de discos embaixo da cama e abre a primeira mala. Retira os sapatos de forma displicente e encontra um embrulho de papel glacê. ALICE olha o pacote com desprezo. Vozes estranhamente familiares são ouvidas do lado de fora da casa. ALICE começa a desembrulhar o pacote, mas FERNANDO entra na sala e ALICE corre ao encontro dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Quem era?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quem é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Quem é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Marcelo? (ênfase) O Marcelo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É. Ele e a namorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O que é que o Marcelo tá fazendo aqui a essa hora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sei lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você não perguntou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E você disse pra ele entrar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ele tá estacionando o carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O que você queria que eu dissesse? “Olha, você chegou cedo demais, agora volta pro Rio e só aparece de novo amanhã de manhã?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Mas no convite tava escrito dez da manhã? São dez da noite!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu te garanto que o Marcelo sabe ler. Eu vou fechar o portão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Fernando, a gente tem um monte de coisa pra fazer. Eu tenho um monte de coisa pra fazer. Não dá pra ficar fazendo sala pro Marcelo e a namorada dele com o mundo desabando em cima de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Deixa de ser trágica. Você não precisa fazer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eles vão dormir aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É, tem a opção de dormir no jardim também, ou dentro do carro, mas acho que os dias de hippie do Marcelo já passaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Onde eles vão dormir, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A casa não tem dois quartos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Fernando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não posso mandar ele embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Mas também não precisa trazer ele aqui pra dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O que você quer que eu faça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Sei lá. Hotéis. Têm alguns hotéis bem agradáveis nas redondezas, baratos, com suítes de casal incríveis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não vou despachar o Marcelo prum hotel. Você não faria isso com um amigo seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, um amigo meu jamais chegaria com 12 horas de antecedência na minha festa. Em segundo lugar, me dê pelo menos três bons motivos pra você considerar o Marcelo como sendo teu amigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ah, não, não me pede pra colocar o que eu sinto pelas pessoas num escaninho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O Marcelo é teu amigo? Mas vocês não se vêem com regularidade há dois anos. O Marcelo é teu colega? Bom, tecnicamente eu só considero meu colega aquela pessoa que trabalha comigo, e que eu vejo todo dia por razões estritamente profissionais. Então não te resta outra alternativa que não considerar o Marcelo como sendo um conhecido seu. Alguém que fez parte da sua vida durante um determinado momento, e que agora não faz mais. Te garanto que você é mais gentil com conhecidos do que a maioria das pessoas é com seus amigos e colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente não vai discutir isso agora, Alice. Eu não vou perder meu tempo tentando investigar as razões pelas quais o meu círculo de amizades se reduziu tanto nos últimos anos, até porque você sabe muito bem a resposta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvem-se três batidas na porta. FERNANDO se afasta de ALICE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Tudo o que eu te peço é pra você esquecer, pelo menos por algumas horas, que você não gosta do Marcelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ah, claro. Como se a antipatia não fosse mútua. Mas parece que eu não tenho direito de ter as minhas razões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Uma noite, Alice. Uma noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO abre a porta. MARCELO, que tem a mesma idade de FERNANDO mas aparenta ser sete anos mais velho, faz menção em entrar, mas percebe a reação de ALICE e se detém por alguns instantes. MARCELO usa uma camiseta branca, calça jeans, tênis, tem a barba por fazer e carrega apenas uma sacola de viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O terno tá aí dentro. Achei que ia amarrotar se eu trouxesse ele vestido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO puxa MARCELO pra dentro e o abraça, batendo nas costas dele com os punhos cerrados. MARCELO retribui o abraço de forma menos efusiva. ALICE se aproxima para cumprimentá-la, mas MARCELO dá meia-volta e conduz LETÍCIA para dentro. LETÍCIA tem 22 anos, usa uma jaqueta de couro, uma saia comprida, toda de preto. LETÍCIA tem a pele muito clara, e usa um delineador em volta dos olhos que reforçam suas olheiras. Os cabelos curtos reforçam a aparência andrógina e destacam seus olhos claros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;(para LETÍCIA) Fernando, Alice... Letícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA se aproxima para cumprimentar os dois, beijando FERNANDO e ALICE, que se surpreende com a atitude da moça. LETÍCIA se afasta, a cabeça baixa, denotando uma certa timidez, como se estivesse arrependida do beijo que deu nos anfitriões. MARCELO aperta a mão de ALICE, sem encará-la nos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Tá, eu acho que eu te devo algumas explicações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, fechando a porta e puxando MARCELO para dentro&lt;br /&gt;Não, você não me deve nada. Eu, se fosse vocês, me sentava e ficava à vontade. Eu vou buscar as bebidas que estão com o caseiro e já volto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Fernando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu já volto. (já do lado de fora da casa) Na nossa geladeira não tem nem água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO sai. ALICE senta em uma das poltronas, enquanto MARCELO e LETÍCIA se sentam no sofá. MARCELO segura a caixa com o vestido de ALICE no colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O vestido. Eu tenho que guardar o vestido no armário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alice... Eu sei que eu te devo uma satisfação. Não importa o que o Fernando diga, mas eu sei que te devo uma satisfação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE se levanta da poltrona e retira a caixa do colo de MARCELO. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Pode deixar aqui comigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não, eu tenho que levar ele pro quarto e pendurar num cabide antes que amasse. E tem uma linhazinha solta aqui, ó, eu preciso dar um jeito nisso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você vai achar a minha justificativa tão besta. Quer dizer, eu podia dizer que me confundi com o horário no convite, ou que resolvi vir mais cedo porque tenho um compromisso urgente amanhã de manhã e não vou poder ficar até o final da cerimônia. Mas isso não seria a verdade. (pausa)A verdade é que eu tava com uma puta saudade do Fernando, e sei que esse momento significa muito pra ele, e queria estar perto dele nessa hora, de certa forma pra compensar o tempo que eu fiquei longe nos últimos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você não precisava ter me dito nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;De qualquer forma, está dito. qualquer ajuda que vocês precisem, é só dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Fica tranqüilo. (ALICE sai para o quarto.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu sinto muita falta do Fernando. Do tempo em que a gente fazia faculdade junto e saía junto quase todo dia pra beber cerveja e jogar sinuca depois da aula. Antes de ele ser devorado pelas engrenagens do sistema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Todo mundo acaba sendo devorado um dia. Você não foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu acho que consegui me preservar, de certa forma. Mas o Fernando desceu até o fundo do poço. Ele foi trabalhar com publicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;É tão estereotipada essa idéia, de que os porcos capitalistas acabam sendo sugados pelo mercado publicitário... E os intelectuais de esquerda, os engajados que fazem Comunicação Social, fazem o quê da vida? Morrem de fome?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ou se fodem numa redação de jornal ou vão fazer arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Arte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você faz arte então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu não disse que era engajado. Nem que era um intelectual de esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO retorna, sorridente, trazendo três caixas de cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E ainda tem mais. (sai de cena)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Como andam as coisas lá na ONG?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Como sempre. Nunca acontece nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você recebe pelo trabalho que faz lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Claro. E muito bem, por sinal. Queria o quê, que eu trabalhasse de graça? Já passei da idade de aceitar trabalho não-remunerado só pra ganhar experiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;É que eu acho no mínimo curioso que uma ONG de esquerda te pague um salário tão de direita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Isso torna a minha opção menos coerente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não, mas enfraquece o teu discurso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Que discurso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O de que todo mundo acaba sendo devorado um dia. Se você estivesse tão certa da coerência das tuas escolhas, não usaria a palavra “devorado”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu preciso ir ao banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO encara ALICE, enquanto LETÍCIA se levanta do sofá e fica à espera de ALICE, fitando o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu te mostro o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE conduz LETÍCIA até o banheiro. FERNANDO volta, trazendo mais caixas de cerveja e algumas de vinho e whisky num carrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Cadê elas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Típico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Fernando, olha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pára com essa porra. Eu não quero que você fique justificando a sua presença. Até porque eu nem contava com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você pensou que eu não viesse? Que eu iria faltar ao seu casamento? Justo ao seu casamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu mal lembro da última vez em que a gente se viu. Só sei que a gente se esbarrou meio que por acaso naquela exposição no CCBB, eu tava com a Alice e você tava sozinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E eu te chamei pra tomar um chope depois da exposição e você praticamente saiu correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A Alice tinha um compromisso depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO se senta no sofá. Silêncio. FERNANDO se aproxima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ok, eu sei o que você tá pensando. A Alice tinha um compromisso. Eu não. Eu podia ter ido tomar o tal chope contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Mas não é assim que funciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É. Não é assim que funciona. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu não vim aqui pra jogar essas coisas na tua cara. Até porque, se a gente resolver contabilizar as vezes em que um sumiu da vida do outro, te garanto que a balança vai ficar assim mais ou menos equilibrada, com uma leve desvantagem pra você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ah, obrigado. Mas não esquece que durante os quatro anos do teu doutorado eu mal conseguia falar contigo pelo telefone. Era um tal de “agora não dá, me liga mais tarde” que puta que o pariu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Em compensação, nos últimos seis meses...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Vem cá, tem certeza que você não veio aqui pra jogar essas coisas na minha cara não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO puxa FERNANDO e o abraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sobre o quê você e a Alice tavam conversando enquanto eu fui buscar as cervejas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Sobre escolhas de vida. possibilidades de se transgredir as regras do sistema e não se sentir cooptado pela máquina. Ela tava tentando me convencer que você não é um porco capitalista por ter trabalhado com publicidade, que ela não é uma vendida por trabalhar numa ONG contra o trabalho infantil e receber um puta salário, e que eu sou um intelectual frustrado por ficar criticando as escolhas dos outros e não fazer porra nenhuma pra mudar o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não liga. A Alice sempre considerou a carreira acadêmica como a opção dos medíocres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Isso não me surpreende nem um pouco. A Alice se formou em jornalismo numa faculdade particular de merda. Não conseguiu emprego na área em que ela teoricamente tava capacitada a trabalhar, e acabou como relações públicas numa ONG que ninguém nunca ouviu falar. Uma pessoa com esse currículo óbvio que vai ter raiva do universo acadêmico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE e LETÍCIA retornam. LETÍCIA corre pra se sentar ao lado de MARCELO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE, abraçando FERNANDO&lt;br /&gt;É isso aí. A frustrada aqui sou eu. Mas eu, pelo menos, tive os meus sonhos de juventude. Antes ter sonhos frustrados do que nunca ter tido perspectiva nenhuma, e viver única e exclusivamente pra satisfação própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;É assim que você enxerga o meu trabalho na universidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, para LETÍCIA&lt;br /&gt;Olha, eu não sei o que o Marcelo te contou sobre a Alice, mas eu te garanto que quando os dois se encontram, é sempre a mesma merda. Eles discutem, discutem, mas no final das contas acabam se entendendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Ele não me contou nada sobre a Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sério? E sobre mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Sobre você ele mencionou algumas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Coisas boas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não foram coisas ruins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu não quero generalizar e dizer que todo professor universitário é movido pelos mesmos princípios, mas eu sei que você, especificamente, usa a sala de aula como se fosse o teu divã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Divã? Que bom. Porque da última vez você usou uma comparação muito menos elegante pra ilustrar a sua compreensão do meu trabalho na universidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você quer que eu repita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não precisa. Deixa que eu mesmo conto. (para LETÏCIA) A Alice me chamou de punheteiro uma vez. Disse que eu dou aula como se estivesse tocando punheta no banheiro, a diferença é que eu compartilho o meu prazer solitário com os meus alunos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA começa a rir, primeiro um sorriso sarcástico depois uma gargalhada entusiasmada, até que desaba no sofá, se contorcendo de tanto rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Isso foi numa das únicas vezes em que eu saí com o Fernando e a Alice pra beber, depois que eles começaram a namorar. A Alice já tava meio alta, tinha tomado uns cinco drinks, e começou a gritar no meio do bar: “Punheteiro! Teu prazer é esporrar em cima dos teus alunos e ver a cara de satisfação deles!”. Foi constrangedor. Não me admira que depois daquele dia você tenha começado a fugir de mim e a recusar sistematicamente todos os meus convites etílicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Quando o Fernando me contou que você agora tava dando um curso sobre Narcisismo, Literatura e Cinema, eu quase cheguei a te admirar, Marcelo. porque pela primeira vez você tava assumindo abertamente as tuas intenções ao entrar pra universidade. Eu pensei: “Porra, o Marcelo sempre deu aula falando dele mesmo, mas dessa vez ele resolveu abrir o jogo!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA continua a gargalhar. O rosto dele começa a ficar vermelho. FERNANDO se aproxima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Melhor trazer um copo d’água pra ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O que tem de tão engraçado nessa história?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A Letícia é a pessoa mais travada pra rir, mas de vez em quando ela tem esses rompantes histéricos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Vou buscar um copo d’água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Relaxa. Acho que ela prefere uma cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA faz que “sim” com a cabeça, sem parar de rir. FERNANDO vai até a cozinha e volta com uma garrafa de cerveja. MARCELO e FERNANDO colocam LETÍCIA sentada no sofá e fazem-na beber um gole da cerveja. Aos poucos, LETÍCIA pára de gargalhar. Toma a garrafa da mão de MARCELO e puxa-o para junto dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE, apontando o relógio&lt;br /&gt;Fernando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quer uma cerveja você também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO acena com a cabeça. ALICE se senta no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você ri desse jeito porque nunca assistiu a uma aula do Marcelo. É a coisa mais pretensiosa que eu já vi em toda a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, voltando&lt;br /&gt;Uma vez eu convenci ela a assistir. Foi um dia histórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA e MARCELO se entreolham. LETÍCIA cai na gargalhada outra vez, enquanto MARCELO apenas sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Qual é a graça dessa vez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O pior é que eu sei exatamente como é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;A aula dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Ele também te convenceu a assistir à aula dele alguma vez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO, sarcástico&lt;br /&gt;Algumas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA beija o rosto de MARCELO e volta a rir de forma descontrolada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A Letícia é minha aluna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. LETÍCIA volta ao normal aos poucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O que, pra você, deve ser ainda pior, porque ela assiste à minha aula de livre e espontânea vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO abre uma cerveja, entrega para MARCELO, abre outra garrafa e se senta ao lado de ALICE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;(enfático) ISSO vocês deviam estar achando engraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, esboçando um sorriso&lt;br /&gt;Desculpa. A nossa moral pequeno-burguesa nos impede de achar graça disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Aconteceu na segunda semana de aula do último semestre. Eu não te contei, né, mas mudei o tema do meu curso. Cansei daquele papo sobre narcisismo. Agora eu tô discutindo o conceito de autobiografia. Eu tinha acabado de dar uma aula sobre o ambiente virtual, os blogs, e como tudo isso mudou a maneira de se encarar um texto autobiográfico, quando ela chega pra mim e diz, na lata: “Eu não concordo contigo. Não existe nada na linguagem do texto de internet que faça o leitor acreditar que se trata de uma autobiografia.” E me deu o endereço do blog dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, olhando para LETÍCIA&lt;br /&gt;Se eu te conheço bem, aposto que você passou a madrugada inteira lendo o blog dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu tinha um blog meio pornográfico naquela época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não. Só fui ler o blog dela uns dois, três dias depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mentira sua. Você passou a noite inteira lendo que eu sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Porra nenhuma. Nossas aulas são às terças e sextas. Na quinta de madrugada eu resolvi entrar na net e ler o blog pra estar minimamente preparado caso ela viesse encher o meu saco no dia seguinte, (imitando LETÍCIA) “Você leu? Você leu? O que você achou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Ele ficou tão perturbado que no dia seguinte ele chegou pra mim depois da aula, quer dizer, foi depois, não antes, e ele podia ter me procurado antes da aula, pra compartilhar a discussão com a turma, mas não foi o que ele fez, ele chegou pra mim depois da aula e me perguntou “O que você quis dizer com aquilo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Imagina o seguinte. Você tá dando um curso sobre autobiografia, e durante uma aula defende a hipótese de que existe algo na linguagem do texto do blog que leva o leitor a entender aquilo como sendo autobiográfico, mesmo que seja um texto de ficção. Aí te passam o endereço de um site cheio de sacanagem, uns textos enormes, com umas descrições de fazer o “Trópico de capricórnio” parecer “O pequeno príncipe”, o que é que você vai pensar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que a pessoa pode ter feito isso pra contestar a sua hipótese. Tanto que ela disse que não concordava contigo, lembra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;A verdade é que o Marcelo leu aqueles textos e ficou excitado, torcendo pros meus relatos serem autobiográficos. Só assim ele poderia confirmar a hipótese dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Quer dizer, tanto a aproximação dela quanto a minha reação foram movidas por impulsos estritamente científicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Fernando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A hora. (para MARCELO e LETÍCIA) Vocês dão licença só um segundinho de nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE se levanta e encara FERNANDO, que a segue até a cozinha, olhando desapontado para MARCELO e LETÍCIA. LETÍCIA corre para o sofá e fica encarando MARCELO de lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha, ALICE está sentada sobre a pia enquanto FERNANDO arruma as cervejas na geladeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Tem noção de que horas são?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não posso simplesmente chegar lá, dizer “pessoal, tá na hora de ir pra caminha” e apagar as luzes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Sabe qual foi a justificativa do Marcelo pra ter chegado mais cedo? Disse que tava sentindo a tua falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É provável. Você não acreditou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Claro que não. “Precisando de qualquer coisa, é só me pedir”. Assim, do nada, se colocando à disposição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Alice, pensa bem, que outro motivo o Marcelo teria pra fazer isso? Que razão sórdida você acha que ele tem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;A cena que se desenrolou ainda há pouco não te basta não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Aquilo? Você ficou chateada com aquilo? Alice, o Marcelo adora te contestar, e você também adora contestar ele. Não é a primeira vez que vocês fazem isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Aposto que você se diverte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Queria que eu fizesse o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Tomasse partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O teu partido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Qualquer partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sala, deitada no sofá, esfregando os pés na perna de MARCELO...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu quero outra cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO estende a garrafa para LETÍCIA, sem encará-la nos olhos&lt;br /&gt;Bebe o resto da minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Tá quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO se levanta, a garrafa vazia na mão, e vai até a cozinha. LETÍCIA fica brincando com a barra da saia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Oi, dá licença. Posso pegar mais uma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pega quantas você quiser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO abre a geladeira e retira quatro garrafas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE pega duas garrafas da mão de MARCELO e volta pra sala. Na cozinha, FERNANDO revira às gavetas à procura de um saca-rolhas.&lt;br /&gt;ALICE se senta na poltrona e entrega uma garrafa pra LETÍCIA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Vamos brindar a quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu nunca brindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Falta de hábito. Geralmente eu não tenho uma razão pra brindar, aí acabo perdendo tempo pensando numa razão qualquer pra no final das contas fazer um brinde idiota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na COZINHA, MARCELO e FERNANDO abrem uma garrafa de vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Chega de cerveja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não dá pra ficar na cerveja a noite toda, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Há que se dar um passo além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA e ALICE, na sala, batem as garrafas em silêncio. Na cozinha, FERNANDO e MARCELO enchem as taças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mas hoje você tem uma razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O quê? O casamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu brindaria a isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Mas eu não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu tô com o Fernando há cinco anos, já me considero casada com ele há muito tempo. Então acabo não vendo muito sentido no ritual. Pra quê oficializar uma coisa que na minha cabeça e na dele já tá oficializada há tempos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO e MARCELO brindam em silêncio, enquanto, na sala, ALICE e LETÍCIA compartilham alguns segundos constrangedores de falta de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Marcelo, como é que você tem a cara de pau de comer sua própria aluna na frente de todo mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu não como ela na frente de todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você me entendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A gente é bastante discreto. Na faculdade a gente mal se olha, mal se fala. Quando ela me faz alguma pergunta, eu trato ela de forma grosseira, de propósito, porque eu sei que isso deixa ela excitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Cuidado pra não te meterem um processo por assédio ou qualquer coisa do tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;É só ninguém ficar sabendo. E eu passar ela com 9,5 no final do semestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO esvazia a taça num gole só. FERNANDO enche a taça novamente. Na sala, LETICIA ser reclina para frente no sofá, a garrafa de cerveja na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Então você não acredita no ritual?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Trocar alianças? Ouvir as palavras do padre, logo ele, o padre, me falando de amor e fidelidade eterna? Cumprimentar pessoas que não significam absolutamente nada pra mim? você vê sentido nessas coisas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu entendo que as pessoas vejam sentido, mas isso não quer dizer que faça sentido pra mim. no fundo, eu sei que as pessoas precisam de rituais. o ritual é que nem a rotina, serve pra dar um sentido de estabilidade, de coerência, pelo menos é assim que funciona pra maioria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Mas não pra você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mas não pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO coloca mais vinho em sua taça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Vocês já treparam na faculdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Vem cá, o fato da nossa relação professor-aluna extrapolar os limites da sala de aula não significa que a gente fique trepando pelos quatro cantos da faculdade, ou que eu realize minhas fantasias sexuais mais perversas no gabinete da reitoria. A gente trepa como duas pessoas normais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Ela não tem cara de trepar como uma pessoa normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Depende do seu parâmetro de como as pessoas supostamente normais devem trepar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO caminha até a entrada da cozinha e fica espreitando LETÍCIA e ALICE na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Normal que você pense dessa forma. Afina, você é jovem e despreza as instituições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Nada a ver. É que o casamento dos meus pais durou 30 anos. Quando o meu pai morreu, menos de dois meses depois, a minha mãe se casou de novo, com um cara que ela conheceu na época em que meu pai tava internado no hospital, pouco antes de falecer. Eu perguntei pra ela porque ela tinha feito isso, e ela disse que já não sentia mais nada pelo meu pai há pelo menos duas décadas. Quando eu perguntei “e por que vocês não se divorciaram, então?” ela respondeu “porque o seu pai ia sofrer muito. Ele realmente acreditava naquela história de ‘até que a morte nos separe’”. Dá pra acreditar na instituição casamento com um histórico familiar desses?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO volta para a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Acho que as duas estão se entendendo. (pausa) Caralho, Marcelo. ela é linda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu não te contei antes que era pra não estragar a surpresa, mas a Letícia é meu presente de casamento pra você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, dando um tapa nas costas de MARCELO&lt;br /&gt;Seu babaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE repousa a garrafa sobre a mesa de centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Conheço várias pessoas da sua idade que alimentam o sonho de casar, ter filhos, constituir família... Quando eu ouço um negócio desses, desconfio seriamente se os anos 60 foram mesmo tudo isso que dizem por aí ou se tudo não passou de uma jogada de marketing da esquerda pra promover escritores medíocres e lançar novas bandas de rock.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Essas pessoas são idiotas. Eu sei que não quero isso pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Tem certeza que o Marcelo também não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA novamente se recosta no sofá, e fica pensativa, a garrafa na mão.&lt;br /&gt;FERNANDO puxa uma cadeira e senta ao lado de MARCELO. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que história é essa, de que você veio mais cedo só porque tava com saudades de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não posso sentir a tua falta? Isso faz de mim o quê, um homossexual enrustido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É que eu não te entendo. Você sempre foi distante, mesmo quando a gente se encontrava todo dia na faculdade. Depois que a gente se formou, quer dizer, que você se formou, porque eu fiquei mais um ano naquela merda até completar todos os créditos, eu notei que você ficava cada vez mais próximo, por mais que a gente se visse cada vez menos. E agora vem você dizer que está com saudades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;É que a gente passou a se encontrar tão pouco que nas vezes em que a gente tava junto eu sentia necessidade de compensar a minha ausência nos outros momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E você de certa forma se sentia um pouco culpado sim, por se isolar voluntariamente durante certos períodos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO enche a sua taça e a de FERNANDO.&lt;br /&gt;LETÍCIA interrompe o silêncio de forma brusca. ALICE se surpreende, como se não esperasse mais uma resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Que tem o Marcelo a ver com isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Vocês não estão juntos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, rindo&lt;br /&gt;Quantos anos você tem? Quinze? Você acha que o meu relacionamento com o Marcelo é desses “pra sempre”? não se deixe enganar pela minha cara de menina. Eu sei muito bem o que eu quero dele, assim como também sei o que ele quer de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Vocês parecem se dar muito bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E a gente se dá muito bem mesmo, de verdade. Mas isso não faz do Marcelo o homem da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO se levanta e vai até a pia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O meu exílio aconteceu na época da morte do meu pai. A morte do meu pai coincidiu com o final do meu doutorado e o começo do teu namoro com a Alice. Entende, naquela época eu precisava ficar sozinho. Eu tava numa paranóia autodestrutiva tão braba que tinha medo de arrastar alguém comigo pro buraco, então preferi me afastar de todo mundo por uns tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E eu, babaca, pensando que tava tudo bem contigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu optei pelo silêncio. Achei que seria mais seguro pra todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Menos pra você, que ficou sofrendo sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Alguém tinha que se dar mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO se levanta e vai até as caixas de vinho. Procura uma faca sobre a pia, abre duas caixas e coloca as garrafas sobre a mesa.&lt;br /&gt;ALICE toma um gole da cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não te incomoda a diferença de idade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;A diferença de idade ou o fato de eu ser aluna dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você sabe do que eu tô falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;É mais fácil uma menina de 23 com um cara de 35 do que um cara de 23 com uma mulher de 35. Pelo menos eu acho que a sociedade aceita com mais facilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Não importa a sociedade aceitar ou não, importa as duas pessoas conseguirem se entender. Uma vez eu namorei um cara da sua idade, e eu devia ter o quê, 28, 29, quase 30, era um tantinho mais velha. Era um inferno. Tinha vezes em que eu me sentia como se fosse a mãe dele, não só por causa da diferença de idade, mas porque eu tinha que ensinar um monte de coisas pra ele, e ficar explicando tudo, porque que eu não gostava disso ou daquilo outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Mas você não sentia um certo desconforto quando, sei lá, saía com ele e as pessoas ficavam olhando de um jeito estranho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu nem me importava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO encosta na pia ao lado de MARCELO.&lt;br /&gt;ALICE pega a garrafa vazia de LETÍCIA e vai até a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você mudou bastante depois da morte do teu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não tinha como ser diferente. Família pequena, uma porrada de filho único sem filho, sabe como é? As pessoas vão envelhecendo, morrem sem deixar descendentes, aos poucos a família deixa de existir. Quando meu pai morreu e eu dei por mim, eu era o único membro da família ainda em condições de dar prosseguimento à coisa toda. Imagina a carga que foi depositada em cima de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE entra na cozinha, abre a geladeira e pega mais duas garrafas de cerveja, voltando em seguida para a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A carga que você depositou em cima de você mesmo. esqueceu que não tinha mais nenhum parente por perto pra depositar nada em cima de ninguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O fato é que eu acabei sendo o último dos moicanos. E nessa condição permanecerei até o fim dos meus dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE entra na sala com as duas garrafas na mão. FERNANDO vai até a entrada da cozinha e fica observando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, pegando a cerveja&lt;br /&gt;Eu e o Marcelo a gente não sai muito, porque sempre tem o risco de a gente encontrar alguém da faculdade, e aí pode ficar um clima chato. Imagina, se a notícia se espalha? Mas eu te confesso que quando a gente sai, e as pessoas ficam olhando, eu me sinto superior a todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Por ele ser mais velho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Por ser mais velho, e ter essa pinta de ator inglês decadente, que eu acho o máximo. E você até pode achar o Marcelo um chato, pedante e pretensioso, mas experimenta sentar com ele numa mesa de bar, de preferência na companhia das suas amigas de 21, 22 que namoram skatistas. É como se você tivesse roubado um objeto valioso do museu e andasse ostentando ele pra cima e pra baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Bom, pelo menos você não é hipócrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E o Marcelo sabe disso. Ele sabe que o que existe entre a gente é mais uma questão de imagem do que de sentimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE demonstra surpresa.&lt;br /&gt;FERNANDO se dirige à MARCELO, como que saindo de um transe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você não está de todo errado, quer saber? Antes não botar filho no mundo do que botar e fazer cagada. Gerar um psicopata ou, pior, um playboy marombado. Certas pessoas deviam nascer estéreis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ou nem nascer. (pausa) Meu pai dizia um negócio parecido, às vezes. Ele nunca gostou da mãe dele, mas foi obrigado a cuidar dela até o final. Ela lá, toda fodida, com uns tubos enfiados na garganta, e ele “a senhora quer que eu ligue a TV? Corte suas unhas do pé?”. Teve um dia no hospital, logo depois de uma das últimas sessões de quimioterapia, que ele soltou essa pérola, “algumas pessoas deviam se orgulhar de serem órfãs”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu perguntei “Tá me incluindo nessa?” E ele: “Mais umas duas semanas e você descobre a resposta.” Uns cinco, seis dias depois, puf. Morreu. Irreconhecível, totalmente careca, o braço todo arrebentado por causa do soro, magro feito um somáli, só que branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO faz menção em colocar o braço sobre o ombro de MARCELO, mas reprime o gesto. Prefere encher-lhe a taça mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Pra ele também deve ser revigorante, ser visto na companhia de uma garota que nem você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Que nem eu como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;O seu jeito. O seu jeito é muito atraente. Eu tô tentando pensar feito um cara como o Marcelo, e eu sei que caras como o Marcelo curtem mulheres como você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA começa a rir, sozinha, mas logo segura o riso e encara ALICE com o olhar enviesado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quer um cigarro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Voltou a fumar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;De vez em quando. E longe da Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu não fumo há uns cinco meses. A Letícia me proibiu de ingerir nicotina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que menina controladora! Ela não fuma não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Só baseado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO vai até o armário, abre as gavetas e retira de uma delas uma lata de biscoitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu não tenho ilusões quanto ao relacionamento da gente. Eu sei que vai chegar um dia em que eu vou me encher dele, e aí sou eu quem vai acabar tudo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Você não acha que ele pode sofrer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Ele sabe disso. Quando a gente completou dois meses juntos, eu disse isso pra ele, “um dia eu vou me cansar de você. vou achar um cara da minha idade que seja bem imaturo, aí eu assumo o teu papel, você não vai ter mais utilidade pra mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;E ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Nem ligou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE esvazia a garrafa de cerveja num longo gole sem interrupções.&lt;br /&gt;FERNANDO abre a lata em cima da mesa e retira um maço de cigarros todo amarrotado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, passando o maço&lt;br /&gt;Você tem milhões de neurônios e apenas dois pulmões, não esquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO acende o cigarro, dá um trago, segura a fumaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO, rindo e erguendo o cigarro acima da cabeça&lt;br /&gt;Essa é pra você, papai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Porra, pára com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO acende o cigarro de FERNANDO e os dois ficam fumando e rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Talvez ele não tenha levado a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você acha mesmo? por que é tão difícil pra você acreditar que alguém pode ser perfeitamente capaz de ignorar esse discurso amoroso padrão e buscar uma nova forma de se relacionar com o outro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Porque eu já testemunhei casais que buscaram formas alternativas de relacionamento e no final terminaram os dois sozinhos, morrendo de raiva um do outro mas sem condições de  recomeçar, tamanha era a mágoa que tinha ficado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Então, no fundo, você acredita no casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE fica brincando com a garrafa vazia no braço da poltrona, enquanto é observada pelo olhar inquisidor de LETÍCIA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Sério, cara, não foi o cigarro que matou o meu pai. Até porque ele parou de fumar quando percebeu que tava doente. Aí ele ficou o quê, cinco anos sem fumar, sendo que tinha passado as últimas três décadas fumando dois maços por dia, e nesses cinco anos sem nicotina o tumor cresceu mais do que nos trinta anos anteriores. Não tenta me convencer que a culpa é do cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;É que nem bebida. Já tomei porres que tecnicamente me deixariam bêbado e fiquei numa boa, porque tava me sentindo bem, felizinho, e tal. Em compensação, teve dias em que eu tava de fossa, aí bastava tomar uma porra de uma latinha de cerveja pra me sentir tonto, ter vontade de vomitar, o caralho. Vai muito do emocional da pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;É o que eu acho que matou o meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O emocional?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO dá uma longa tragada no cigarro, e fica observando a ponta se queimando lentamente.&lt;br /&gt;ALICE coloca a garrafa no carpete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu não acredito no ritual. Mas acredito no que dá sustento ao ritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;É, pode ser. Você não acredita no amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO passa o cigarro para FERNANDO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A vida do meu pai foi um fracasso do princípio ao fim. Chegou num ponto em que ele começou a ter consciência disso. Aí fodeu. Ele viu os pais dele morrerem, e sacou que por causa deles tinha deixado de viver. Viu minha mãe ir embora, do nada resolvendo descontar os anos de renúncia e submissão se mandando pra casa dos pais depois de 30 anos de casada. E eu, que com 25 anos na cara ainda dependia do dinheiro deles pra ir ao cinema ou sair com os meus amigos, era a promessa de felicidade não concretizada. Aquilo começou a crescer dentro dele, a consumir as últimas forças que ele ainda tinha pra lutar. Quase dá pra dizer que o meu pai se matou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO enche a própria taça. MARCELO bate a taça na mesa, rindo, e FERNANDO abastece a taça de MARCELO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Olha, eu penso assim. O amor é um discurso. Como todo discurso, pode ser desconstruído e reconstruído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Nada de sentimento pra você, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O que você chama de sentimento, eu chamo de discurso. Você pode até ter medo de um sentimento, mas jamais vai ter medo de um discurso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE se levanta da poltrona e dá um volta na sala, parando atrás de LETÍCIA, no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E tua mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Depois ela quis voltar. Mas eu não tiro a razão dela em ter ido embora não. Meu pai sempre foi um sujeito muito controlador. Parece que da mesma forma que os pais dele não tinham deixado ele viver, ele não queria que a minha mãe vivesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Nem ela e nem você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Pois é. Mas eu dei um jeito de escapar dessa herança. Ainda que só tenha me dado conta disso com um certo atraso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO puxa a garrafa na sua direção e bebe direto do gargalo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Isso te põe numa posição de controle?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Lógico. De certa forma, é o que todo mundo busca num relacionamento. Controle. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO empurra a garrafa para MARCELO, que faz o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não é isso que você quer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Eu quero é dormir. (pausa) Foi bastante construtivo o nosso papo, sabia? A gente continua ele numa outra ocasião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Falou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE&lt;br /&gt;Vê se descansa um pouco também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALICE sai da sala, deixando as garrafas sobre a mesa. LETÍCIA tira os sapatos e põe os pés em cima do sofá. FADE OUT nas luzes da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não leva a mal o que eu vou dizer não, mas... Porra, haha, deixa pra lá. Você vai me achar cruel demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não, eu vou achar que você bebeu demais. Fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu acho o câncer uma doença bastante interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu também, desde que eu não morra por causa dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não, pensa bem. O câncer se presta a interpretações que vão além daquilo que medicina diz. Quando você falou que foi o lado emocional que matou o teu pai, mais do que a nicotina, você tá usando o câncer num nível simbólico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A doença como metáfora. Não quero te desanimar, não, camarada, mas a Susan Sontag já escreveu um texto com esse nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Sério? Porra, pensei que tava elaborando uma teoria genial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Tecnicamente, qualquer coisa que cresce dentro de você e se alimenta das suas próprias forças pode ser considerado um câncer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quer outro cigarro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E por falar em câncer... Passa pra cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Melhor a gente voltar pra sala, senão quando a gente resolver voltar, a sua namorada já vai ter se matado com o papo da Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ou matado a Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Isso até que seria interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO se levanta, mas MARCELO o agarra pelo braço e puxa FERNANDO de volta pra mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Por que você vai se casar com a Alice, Fernando? Todo mundo sabe, a Alice inclusive, que você não ama ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Que que você tá dizendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você não ama a Alice. Eu nunca te vi empolgado com a Alice da mesma forma que eu te vi empolgado com 90% das mulheres que já passaram pela tua vida, inclusive as paixonites platônicas da época da faculdade. Então porque amarrar a tua vida à vida dela? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O casamento não tem que ser necessariamente uma coisa pra sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Isso é o que você pensa. Já considerou a possibilidade de a Alice pensar diferente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A Alice tá cagando pro casamento, pro ritual, pra cerimônia, ela sabe que eu tô fazendo isso pra atender a uma expectativa dos meus pais, e de mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Foda-se a cerimônia e o ritual. Eu tô falando do que ela sente por você. ela te ama, Fernando, existe um descompasso entre o que você sente por ela e o que ela sente por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quem te disse que eu não amo a Alice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu posso ter estado ausente, mas isso não faz de mim um idiota. Você não me engana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A empolgação que eu demonstrava sentir por outras mulheres não serve de referência pra determinar o que eu sinto pela Alice, simplesmente porque hoje eu não sou o mesmo Fernando que naquela época ficava rastejando por qualquer menina de olhos verdes e cabelo curto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E pelo visto, olhos verdes e cabelo curto ainda mexem contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E se eu não amar a Alice, de acordo com esse conceito maluco que você criou aí na sua cabeça? E se mesmo assim eu me casar com ela? Isso faz de mim um escroto? De uma hora pra outra você deu pra se importar com os sentimentos dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu sempre me importei com os seus sentimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Mas agora você tá se importando com os sentimentos da Alice. E cagando pros meus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Sentimentos? O único sentimento em jogo aqui parece ser a tua vontade de agradar os teus pais e organizar esse circo na serra só pra cumprir o protocolo padrão que eles esperam de você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E se for? E se for? Depois de amanhã vai voltar tudo a ser como antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Isso na sua cabeça! Não na cabeça da Alice! Independente do ritual, ela vai continuar acreditando que te terá pra sempre do lado dela, quando eu sei, e você sabe, que isso não vai acontecer, simplesmente porque você nunca conseguiu passar muito tempo ao lado de uma mesma pessoa sem ter vontade de checar se a grama do vizinho é mesmo mais verde que a sua. (pausa) Foi isso que fodeu o teu relacionamento com a Júlia, e a Júlia, sim, é que devia estar naquela sala agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Júlia? Que que deu em você, pra você ressuscitar a Júlia numa hora dessas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu não sabia que a Júlia tinha morrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pois é. Mas morreu. Morreu no dia em que a gente terminou, e cada um seguiu a sua vida, e nunca mais se falou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Porque ela quis assim. se dependesse da sua vontade, eu sei que vocês continuariam se vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Claro. Isso te deixaria bastante feliz, né? Eu acho que você sempre teve uma queda pela Júlia. A Júlia sempre concordava contigo, a Júlia enxergava o mundo da mesma forma que você, a Júlia tinha um gosto musical parecido com o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A Júlia te amava. E você também amava ela. A Júlia foi a única pessoa que você amou de verdade. Se você não tivesse estragado tudo, ela podia estar aqui agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Mas não está. E nem vai estar. Pra ser sincero, eu não faço idéia de onde a Júlia está nesse momento, e também não faço a menor questão de saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Claro, claro. É passado, né? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Exato. Passado. O tempo passa, o mundo gira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E os erros se repetem. Só toma cuidado pra não cometer a mesma cagada outra vez, ouviu? E, dessa vez, você vai estar sacaneando uma pessoa que te ama muito mais do que você ama ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pára com essa porra. Vamos pra sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Fernando. Espera. (pausa) Esquece o que eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu já esqueci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FADE OUT nas luzes da cozinha, FADE IN simultâneo nas da sala. FERNANDO e MARCELO voltam pra sala, trazendo mais garrafas de vinho e cerveja, e encontram LETÍCIA sozinha, no sofá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Tá dormindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Hum. Não. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Cadê a Alice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Foi dormir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E você não tá com sono também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Tô acostumada a virar noite. eu sou uma garotinha, esqueceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ela fala isso, mas quando a gente sai junto ela é sempre a primeira a dizer “tô de saco cheio, vamos embora”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Claro. Quando só fica a gente no bar, e mais dois caras jogando xadrez, é sinal de que tá na hora de ir embora. mas quando a gente resolve fazer um programa um pouquinho mais agitado, o Marcelo é o primeiro a tombar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Deu pra freqüentar boate agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;De vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O Marcelo não ia em boate nem na época da faculdade. “Muito barulho, muita gente, eu vou me sentir mal”, parecia um velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;É que você nunca soube me convencer direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E ela sabe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ela sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu sei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Claro. Longe de mim querer comparar o meu apelo ao apelo dela. (pausa) Aí, gente, foi mal pela Alice. Ela meteu na cabeça que precisa descansar pra amanhã acordar cedo e se preparar pro casamento, mas no fundo ela vai acordar na mesma hora de sempre e fazer as coisas com a lerdeza padrão dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Sem problema. Se você quiser ir dormir também, não se incomoda com a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente tem um quartinho de hóspedes nos fundos da casa, caso vocês estejam a fim de descansar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu não tô com o menor sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Nem eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA se levanta do sofá, num pulo, e caminha até o toca-discos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você tem um quatro-em-um?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A gente comprou esse aparelho no início dos anos 90, quando o Cd já tinha aparecido mas você ainda encontrava vinil à venda nas lojas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Você tem vinis aí?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Tem, numa caixa embaixo do aparelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você não devia ter dado corda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Agora ela vai cismar de ouvir música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Não tô achando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO se levanta e vai ao encontro de LETÍCIA. MARCELO abre outra cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Tavam aqui quando a gente chegou. Eu escutei um disco e tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Deixa isso pra lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A Alice deve ter levado pra outro lugar. Ela vive implicando com os meus discos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Esquece isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Deixa pra lá. Que tal se gente jogasse um jogo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O que você sugere?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não tenha medo de dizer “não” pra Letícia. Ela não vai te morder. No máximo, vai fazer muxoxo e se comportar feito criança, mas depois a birra passa e ela volta ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pior é que não tem nada aqui. Todos os meus brinquedos de criança a gente doou pra creche. O War, o Imagem &amp; Ação, acho que não sobrou nem um pega-varetas pra contar história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Arranja um baralho, qualquer coisa, pelo amor de Deus, só pra Letícia sossegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Também não tenho baralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu jogo qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Qualquer coisa menos verdade ou conseqüência. Eu tenho trauma de um certo aniversário meu em que o tédio insustentável da festa obrigou as pessoas a jogar verdade ou conseqüência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;As pessoas estavam muito verdadeiras naquele dia. Esse foi o problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Eu não quero repetir a dose. E a gente já bebeu demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu vou pegar os discos. A Alice deve ter levado a caixa pro quarto. Pelo menos a gente ouve um pouco de música enquanto bate papo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não se incomoda com isso, Fernando. O mal da Letícia é que todo mundo faz as vontades dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA se senta no sofá, distante de MARCELO. os dois ficam se encarando. LETÍCIA pega a garrafa de vinho e toma um gole lentamente, sem deixar de encarar MARCELO. as luzes da sala se apagam, enquanto se acendem as luzes do quarto. FERNANDO entra sem fazer barulho, engatinha até a cama e encontra a caixa de discos. ALICE dorme, toda encolhida e abraçada no travesseiro. FERNANDO puxa a caixa de discos e consegue carregá-la até a sala. Apagam-se as luzes do quarto. Quando as luzes da sala se acendem, vemos apenas LETÍCIA deitada no sofá, com as pernas repousadas sobre a mesa de centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O Marcelo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ficou empolgado com a idéia de ouvir música e foi no carro pegar uns CDs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Achei os discos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA salta do sofá e se joga no chão, perto da caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então você curte música velha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, erguendo um LP dos Smiths&lt;br /&gt;Eu não chamaria isso de música velha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Bom, é velha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Pruma pessoa da minha idade. Não é isso que você ia dizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não. A verdade é que a única coisa velha aqui dentro sou eu. Acho que o movimento grunge foi a última revolução musical que eu testemunhei, e mesmo assim, à distância. Eu tinha a sua idade na época. Mas já não fazia muito sentido pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;E o que veio depois do grunge?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu ignorei. Música eletrônica, por exemplo, se você me pedir pra dar um exemplo de música eletrônica, é bem capaz de eu dizer New Order ou Depeche Mode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Eu gosto dessas coisas que a maioria das pessoas considera ultrapassada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu desconfiei quando te vi, pelo teu visual. Essa corrente aí que você usa, eu te imagino com uma camiseta do Bauhaus. Você faria o maior sucesso no Crepúsculo de Cubatão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Só porque eu ando de preto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Não, é mais do que vestir preto. É o teu jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Que que tem o meu jeito? A tua noiva também falou do meu jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E o que que ela disse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Que me achava atraente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO se abaixa até a caixa de discos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, erguendo um disco do Echo and the Bunnymen&lt;br /&gt;Você tem cara de quem gosta disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA permanece de pé, olhando fixamente para FERNANDO, como que esperando uma resposta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Só não me pergunta se eu também te acho atraente, ok?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Isso nem passou pela minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Põe esse pra tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA vai até o aparelho e põe o disco. Começa a tocar “Lips like sugar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você é tão previsível. Eu sabia que você ia escolher essa música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Essa música é a primeira faixa do lado B. fica mais fácil começar por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Mas você podia ter escolhido o lado A. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA começa a dançar perto do aparelho, sozinha, balançando a cabeça de um lado para o outro, os ombros fazendo movimentos ondulares. FERNANDO caminha lentamente até a poltrona direita e fica observando LETÍCIA à distância. LETÍCIA abre os olhos, e observa FERNANDO de soslaio, mas continua sua dança autista. MARCELO abre a porta da sala, trazendo um estojo de CDs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Pelo jeito vocês não precisam dos meus discos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA interrompe a dança e corre até MARCELO, arrancando o estojo de CDs da mão dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;As coisas modernas estão todas aqui. Aí só tem velharia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Nós gostamos de velharia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você caiu nesse papo retrô-chic da Letícia? Tá pensando que ela gosta dessas velharias que você escuta por aquilo que elas representam? Você acha que ela enxerga alguma transcendência na música dos anos 80? No fundo é tudo pose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo acha que eu curto essas coisas só porque elas estão na moda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Se um dia o foxtrote voltar à moda, pode contar que a Letícia vai aderir com certeza. Ela fica só nas aparências, no estilo, o real significado dessas músicas ela é incapaz de compreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Também não precisa ser tão cruel. A menina gosta, deixa ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA, raivosa&lt;br /&gt;Não me chama de menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ela tá falando sério. Você não devia chamar ela de menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO olha desconfiado para os dois. Esboça um sorriso, mas percebe o desconforto de LETÍCIA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO, constrangido&lt;br /&gt;Puxa, me desculpa. Foi sem intenção, não pensei que você fosse ficar magoada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA e MARCELO se entreolham e começam a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você leva tudo muito a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Seu babaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A verdade é que a Letícia é a típica representante do que a gente convencionou chamar de garota indie pós-moderna. Pra ela, tudo é motivo de festa, desde que esteja na moda e seja cool, in, hype. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Vai ficar calada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Melhor ser indie pós-moderna cool in hype do que não ter nada a que se apegar, nem mesmo as aparências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Essa é a hora em que ela contesta o meu niilismo utópico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Niilismo utópico? Isso é uma contradição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Depende do que você entende por utopia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Uma coisa em que acreditar. O que, definitivamente, não combina com niilismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E se a sua utopia for o caos? A destruição de toda e qualquer ordem? O apocalipse da espécie humana? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Utopia estranha, essa sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Mas é nossa única esperança de sobrevivência. O recomeço. Um novo renascimento. Mas pra renascer, você precisa morrer primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Esse sempre foi seu ponto de conflito com a Alice. (para LETÍCIA) A Alice ainda acredita na revolução, no socialismo, essas bobagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Mas ela não percebe que o erro do socialismo, e do comunismo de forma geral, foi ter pretendido construir uma nova sociedade sem destruir a anterior. E quando eu falo em destruir, eu quero dizer destruir mesmo, não deixar vestígios do que tinha antes. Se você constrói uma coisa nova sem eliminar os vícios da coisa anterior, você não constrói nada novo, só reproduz os vícios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A verdade, Marcelo, é que as pessoas são egoístas demais pra levar isso adiante. Ninguém quer fazer a revolução e esperar que a geração seguinte colha os frutos. A tua teoria é falha nesse ponto. Ela desconsidera o fato de as pessoas quererem resultados imediatos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Mas esse é o verdadeiro revolucionário. Aquele que não tem medo do sacrifício e não espera recompensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Essa é a lógica do homem-bomba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Não, porque o homem-bomba é igualmente egoísta. Ele faz aquilo porque acredita na recompensa que ele vai receber no céu, quando morrer. O que a gente precisa é de pessoas que se disponham a morrer, e a destruir o que está ao redor, mas pensando na felicidade das gerações que vierem depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Quer dizer, homens das cavernas. Ou bactérias, na pior das hipóteses, porque depois dessa hecatombe que o Marcelo visualiza, isso é tudo o que vai restar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Exato. Bactérias. Esse seria um verdadeiro recomeço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Pra milênios depois a coisa voltar a ser uma merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Ou não. Você não tem como dizer o que vai acontecer. Mas é uma possibilidade. E daí? Algumas gerações viverão felizes e em paz consigo mesmas. Ainda que depois tudo se foda novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Quando eu te conheci, você defendia a idéia do bunker, lembra? De que seria preciso preservar da hecatombe uma pequena fração da espécie humana, pra dar continuidade à coisa depois que a nuvem radioativa se dissipasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;É, mas eu percebi que isso também é furado. Porque essa pequena fração da espécie humana, por mais lúcida que seja, não vai deixar de ser humana. E ser humano é sinônimo de corrupção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então por que você não leva isso adiante, se está tão certo da  validade da sua teoria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Utopia não é sinônimo de estupidez, pelo menos não pra mim. eu não vou meter uma bala na cabeça ou apertar o botão vermelho e ver que as pessoas ao meu redor, ao invés de fazerem o mesmo, estão rindo de mim, me chamando de idiota ou, pior, me transformando em mártir e usando o meu gesto para alimentar a estupidez delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Percebe que o Marcelo só fala “deles” de forma pejorativa? Que quando é pra falar do “eu”, a coisa muda de figura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Então o que te impede de levar adiante o teu projeto são os outros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Isso teria que partir de muita gente, não só de uma meia dúzia de dois ou três. Mas sempre vai existir uma maioria satisfeita com o estado das coisas que vai sabotar a verdadeira mudança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você, claro, estaria fora dessa maioria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Bom, eu pelo menos tenho consciência das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;E eu não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você tem, mas acha que não vale a pena pensar nisso. Desde que você tenha como se manter, comprar as coisas que você precisa pra sustentar o seu estilo de vida, manter esse sítio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O sítio em que você está hospedado, as cervejas que você está bebendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Concessões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você devia ser contra as concessões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Isso seria estúpido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;Porque dessa forma ele seria o único lúcido em meio aos bárbaros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu ainda acho que essa sua teoria é a maneira que você arranjou de justificar pra si mesmo a sua própria inércia diante do mundo. Já que é impossível mudar, porque as pessoas vão continuar sendo idiotas mesmo, então você não faz nada, e se sente bem com isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E você, faz o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;A minha parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E o que é a sua parte? Contribuir com o Natal sem Fome? Doar sangue nas vésperas de feriado? Votar no candidato da esquerda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Viver a minha vida tomando cuidado pra não pisar em cima dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Isso é pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Claro que é, porque provavelmente no teu manual revolucionário não tem lugar para a moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Qual moral? A moral burguesa? A moral cristã? Eu dispenso essa moral. Foi justamente essa moral que formatou as nossas cabeças durante os últimos séculos. A escrotidão que impera lá fora é o resultado dessa moral que você defende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Lá fora? Aqui dentro é lá fora. Ou você acha que aqui dentro a gente tá protegido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;A única chance de não ser tragado pelo esgoto é tentar se preservar dele. Manter a distância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Eu não vivo no esgoto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Você passou a viver no esgoto quando se formou e foi contratado por aquela agência de publicidade onde você não era mais do que um boy de luxo. E depois quando saiu da agência e foi trabalhar na TV, como terceiro redator adjunto daquele programa de merda. toda a sua vida a partir daí se transformou um tour pelo esgoto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Você tá dizendo essas coisas porque ficou magoado. Porque eu me afastei de você. e porque eu era o único que te escutava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;E agora você está prestes a perpetuar sua estadia no esgoto se casando amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;O que é que o casamento tem a ver com isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;O que dá sustento à sociedade escrota em que a gente vive são os rituais. Os símbolos. Destrói os rituais, desconstrói os símbolos, e você vai ver que não resta nada. O edifício todo começa a se desfazer. Mas não, lá vai você amanhã reafirmar sua fé, “eu acredito na humanidade, por isso estou me casando, prometo constituir família, ter muitos filhos, e assim transmitir às gerações futuras o legado da nossa miséria”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA&lt;br /&gt;O Marcelo devia pagar direitos autorais por todas as frases que você rouba dos outros. Posso pegar mais cerveja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO acena que “sim” com a cabeça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCELO&lt;br /&gt;Reproduzir o sistema. estar dentro da máquina e mantê-la em funcionamento. Como um câncer. A sociedade é o câncer, nós somos as células doentes, e a sociedade só se reproduz porque se alimenta das nossas fraquezas e porque a gente, voluntariamente, se submete às regras dela. Regras que a gente mesmo criou. Encontrar alguém, se casar, ter filhos. Regras arbitrárias. Nada além disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Aí você se retira do mundo. Se isola num buraco qualquer, com as suas teorias, as suas certezas, sozinho, sem ninguém. Assim você diminui as chances de que o teu filho, daqui a alguns anos, jogue na tua cara que preferia ter nascido órfão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LETÍCIA volta com as cervejas e encontra MARCELO e FERNANDO em silêncio. LETÍCIA entrega uma cerveja pra FERNANDO, outra para MARCELO, caminha até a caixa dos discos, procura lentamente por alguma coisa, até que encontra o “Wish you were here” do Pink Floyd. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERNANDO&lt;br /&gt;Esse não. Esse tá com defeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indiferente ao comentário de FERNANDO, LETÍCIA vai até o toca-discos e coloca faixa-título para tocar. FERNANDO se levanta da poltrona e se arrasta na direção do quarto. Tira os sapatos, e se deita ao lado de ALICE, colocando o braço dela em torno de seu corpo. &lt;br /&gt;Na sala, dançando, LETÍCIA caminha até MARCELO, senta ao lado dele no sofá, deita a cabeça em seu ombro e o abraça. Apagam-se as luzes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fim do ATO UM.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111601372325622886?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111601372325622886/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111601372325622886' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111601372325622886'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111601372325622886'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/05/cncer-primeiro-ato.html' title='CÂNCER - primeiro ato'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111574533990862612</id><published>2005-05-10T13:12:00.000-04:00</published><updated>2005-05-10T13:18:30.996-04:00</updated><title type='text'>BREVE...</title><content type='html'>"Everything&lt;br /&gt;Everything gives you cancer&lt;br /&gt;Everything&lt;br /&gt;Everything gives you cancer&lt;br /&gt;There's no cure, there's no answer&lt;br /&gt;Everything gives you cancer &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Don't touch that dial&lt;br /&gt;Don't try to smile&lt;br /&gt;Just take this pill&lt;br /&gt;It's in your file&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Don't work hard&lt;br /&gt;Don't play hard&lt;br /&gt;Don't plan for the graveyard&lt;br /&gt;Remember -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Everything&lt;br /&gt;Everything gives you cancer&lt;br /&gt;Everything&lt;br /&gt;Everything gives you cancer&lt;br /&gt;There's no cure, there's no answer&lt;br /&gt;Everything gives you cancer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Don't work by night&lt;br /&gt;Don't play by day&lt;br /&gt;You'll feel all right&lt;br /&gt;But you will pay&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caffeine&lt;br /&gt;No protein&lt;br /&gt;No booze or&lt;br /&gt;Nicotine&lt;br /&gt;Remember -"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Major Thom apresenta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CÂNCER&lt;br /&gt;peça em 2 atos e um epílogo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de sexta-feira, 13 de maio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111574533990862612?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111574533990862612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111574533990862612' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111574533990862612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111574533990862612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/05/breve.html' title='BREVE...'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111116973299909573</id><published>2005-03-18T14:14:00.000-04:00</published><updated>2005-03-18T14:17:58.406-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #18</title><content type='html'>“If my words did glow with the gold of sunshine/ And my tunes were played on the harp unstrung,/ Would you hear my voice come thru the music,/ Would you hold it near as it were your own?/ There is a road, no simple highway,/ Between the dawn and the dark of night,/ And if you go no one may follow,/ That path is for your steps alone./ You who would lead, must follow / But if you fall you fall alone,/ If you should stand then who's to guide you?/ If I knew the way I would take you home.” (Grateful Dead)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava mais ou menos na metade do Ato 2 do meu set list quando senti uma vibração estranha invadindo a boate, vibração esta que inicialmente julguei ser uma vontade incontrolável de ir ao banheiro, mas que tão logo se revelou uma interpretação equivocada quando a pista de dança se abriu como o Mar Vermelho naquele filme do Moisés e eu a vi, a ex-noiva, ex-namorada, ex-amiga do nosso anfitrião, invadir a festa visivelmente decidida a reconquistar o que havia perdido. Vocês devem estar se perguntando como é que eu, a quatro metros de altura do chão, numa cabine protegida por um vidro fumê de cinco centímetros de espessura, pude ter acesso às intenções dela ao vê-la invadir a festa daquela forma, a minha resposta para vocês é, a gente simplesmente sente, pelo jeito de andar, pela maneira como a condição atmosférica do ambiente se modifica, que boa coisa não vai sair dali, no que, para variar, eu estava rigorosamente certo, porque de uma hora pra outra, a configuração espacial da pista de dança se alterou substancialmente, casais que aproveitavam os cantos mais escuros da boate para se agarrar subitamente convergiram para o centro da pista, foi aí que os dois, o meu amigo e a ex dele, desapareceram em meio à multidão que os rodeava, e eu aproveitei que ninguém estava prestando atenção em mim mesmo para substituir “I’m the man” do Joe Jackson, a próxima canção de acordo com os meus planos, por “Allison” do Elvis Costello, que originalmente não constava do meu set list mas tinha tudo a ver com a cena que se desenrolava diante, diante não, abaixo, bem abaixo, dos meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música mal tinha terminado quando a agitação na pista se desfez, e só então pude perceber que o meu amigo não estava mais lá, nem ele e nem a ex, das duas uma, ou eles haviam sido tragados pelo chão da boate ou tinham aproveitado a confusão para dar o fora e acertar as desavenças em outro lugar. O fato é que ele não apareceu mais, e a festa, que desde o princípio parecia marcada pelo signo da inadequação, foi ficando cada vez mais desprovida de significado, chegava a ser engraçado ver como os convidados iam deixando a boate, feito formigas fugindo do inseticida, e a pista vazia vazia, até que meu relógio apitou duas da manhã e quando dei por mim estava tocando pra ninguém, o que não me surpreendeu de maneira alguma, porque a sensação de estar tocando pra ninguém havia sido uma constante ao longo de toda aquela noite. Nem tive tempo de concluir o set list, mas toquei “When the music is over” assim mesmo, porque achava que um fracasso como aquele certamente merecia um encerramento à altura. Juntei os CDs, arrumei a bagunça da cabine, terminei de beber a minha cerveja e finalmente desci, sob os olhares desconfiados do pessoal da limpeza, que me viu tocar um punhado de músicas estranhas de meia-noite e meia até as duas para uma pista totalmente vazia. Um dos caras até me perguntou que música tinha sido aquela que eu havia tocado pouco antes de desligar o som, mas eu estava tão bêbado que fui incapaz de retribuir o único gesto de atenção que havia recebido em toda a noite, então entreguei a garrafa vazia na mão dele e cuspi um displicente até mais que jamais se converteria num evento concreto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava a poucos passos da saída da boate quando vi uma mulher sentada no balcão do bar. Era a ex-futura esposa do meu amigo, não a ex-futura esposa original, porque esta, pelo andar da carruagem e tendo em vista o sumiço repentino e definitivo dos dois, já havia deixado de ser ex há muito tempo, mas a ex-futura noiva atual, a mais nova inquilina do Hotel dos Corações Partidos, sentada ali em estado de total abandono, protegida por uma fortaleza cujas grades eram garrafas de Heineken, e balançando a cabeça como se a música ainda estivesse tocando. Gostei daquilo, a desolação dela compunha uma bela cena, pensei, então resolvi me aproximar e compartilhar com ela a última cerveja da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você conhece Edward Hooper?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas que a gente não diz sob o efeito de álcool... Sóbrio, jamais teria coragem de abordar uma mulher desconhecida num bar, quanto mais a ex-namorada de um amigo, e ainda por cima fazendo uma pergunta estúpida sobre arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“É um pintor americano, famoso por retratar paisagens desertas e cenas de solidão.”&lt;br /&gt;“Então quando você me viu aqui, sentada nesse bar, sozinha, você se lembrou dos quadros desse tal Edward Hooper, acertei? Deixa eu te dizer, é a cantada pseudo-intelectual mais previsível que eu já ouvi em toda a minha vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estivesse eu sóbrio, e uma resposta que tivesse 10% do poder de fogo da resposta dela já seria suficiente para me expulsar dali com o rabo entre as pernas. E no entanto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom, na verdade, eu ia me sentar aqui primeiro, pedir uma cerveja, e aí sim dizer que estava me sentindo num quadro de Edward Hooper. É porque ele tem um quadro chamado ‘Noctívagos’, um homem e uma mulher sentados no balcão de um bar, o garçom ao longe...”&lt;br /&gt;“Tá tá, já sei, eu conheço esse quadro, só não sabia que o pintor se chamava Edward Hooper.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta dela demandava uma breve pausa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei quem você é?”&lt;br /&gt;“Que bom, porque eu não.”&lt;br /&gt;“Quem eu sou? Eu era o DJ da festa.”&lt;br /&gt;“Eu sei quem você é.”&lt;br /&gt;“Então...?”&lt;br /&gt;“Esquece. Eu tava falando de mim.”&lt;br /&gt;“Eu pensei que você estivesse falando de mim.”&lt;br /&gt;“Não, não tava.”&lt;br /&gt;“Típico...”&lt;br /&gt;“O quê?”&lt;br /&gt;“Esquece.”&lt;br /&gt;“Onde você mora?”&lt;br /&gt;“Longe.”&lt;br /&gt;“Como é que você vai pra casa?”&lt;br /&gt;“De táxi.”&lt;br /&gt;“Vai te custar uma fortuna.”&lt;br /&gt;“Eu sei.”&lt;br /&gt;“Eu tô de carro. Posso te dar uma carona até o Centro e de lá você segue o seu caminho.”&lt;br /&gt;“É uma...”&lt;br /&gt;“Então vamos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos até o carro dela, que estava estacionado em frente à boate. Rua deserta, até os mendigos tinham ido pra casa. Havia uma foto do meu amigo presa no espelho retrovisor, que ela prontamente retirou antes que eu fizesse qualquer comentário, no fundo ela sabia que eu tinha visto a foto, o gesto brusco dela, e entendido o significado de tudo, mas de alguma forma o silêncio que lhe dirigi fez com ela entendesse a minha disponibilidade em enterrar definitivamente aquele assunto. Inconscientemente, naquele instante fizemos nosso primeiro pacto, e é assim que os pactos devem ser feitos, em silêncio, sem exigências e sem cobranças posteriores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Escuta. Eu não tô com a menor vontade de ir pra casa. Você tá a fim de ir pra casa?”&lt;br /&gt;“Você tem alguma idéia melhor?”&lt;br /&gt;“Que tal dar umas voltas por aí? A gente espera amanhecer, com certeza vai ficar mais fácil pra você voltar pra casa depois.”&lt;br /&gt;“Eu topo.”&lt;br /&gt;“Beleza. Tô morrendo de fome. Vamos catar um posto de gasolina que esteja aberto e comer cachorro-quente...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simples assim, ela começou a tomar uma série de decisões, e quando dei por mim estávamos perambulando pelas ruas de Botafogo tentando chegar até Copacabana. Quando finalmente entramos na Avenida Atlântica, faltavam quinze minutos pras três da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Conheço uma loja de conveniência bacana que fica ali no Arpoador. Vamos pra lá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá estávamos nós a quase 90 por hora na Prudente de Morais, podíamos ter pego o primeiro retorno ainda na Praça General Osório mas ela parecia fazer questão de percorrer Ipanema de ponta a ponta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Gosto de voltar pela praia”, ela disse, e só fizemos o retorno quase no Jardim de Alah. Não sei se em virtude do rumo que as coisas estavam tomando, eu achei aquela noite incrivelmente bela, como há muito tempo não percebia. Fazia calor mas ao mesmo tempo soprava uma brisa, a lua estava encoberta pelas nuvens mas ao mesmo tempo uma ou outra estrela dava as caras no céu, então comecei a remexer na minha mochila à procura de uma trilha sonora condizente com o momento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se incomoda se eu...”&lt;br /&gt;“Não, pode botar, é o quê?”&lt;br /&gt;“Iggy Pop.”&lt;br /&gt;“Pega leve, haha.”&lt;br /&gt;“Não se preocupe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rádio do carro começou a tocar “The passenger”. Nunca em toda a minha vida os versos “He looks through his windows/ What does he see?/ He sees the stars come out tonight/ And everything was made for you and me/ So let’s take a ride and see what’s mine”  fizeram tanto sentido. Botei o braço esquerdo para fora do carro, tamborilava com os dedos na lataria enquanto o vento frio vindo do mar congelava a minha mão, e nós cantamos “Lalalalalalarara”, e nossa vontade de cantar era tão grande que precisamos cruzar a Viera Souto de ponta a ponta duas vezes para dar tempo de ouvir a música do princípio ao fim. Quando chegamos no tal posto, compramos dois cachorros-quentes e seis cervejas e fomos andar na praia. Sim, na praia. De novo. De certa forma, aquilo começou a me incomodar, e já que o meu estado de embriaguez me autorizava a ser absurdamente sincero, resolvi jogar limpo com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na praia não. A praia me traz lembranças ruins.”&lt;br /&gt;“Ok. Vamos beber na pedra então.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esvaziamos duas garrafas de cerveja em questão de minutos, pra acompanhar o cachorro-quente. Eu estava quieto, na minha, de certa forma a presença dela em silêncio ao meu lado bastava para que eu não me sentisse completamente sozinho naquela noite estranha. Foi ela que fez questão de iniciar a conversa, e esclareço isso de antemão para que nenhum de vocês venha jogar na minha cara, depois, que a culpa de tudo o que aconteceu em seguida foi minha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe como eu tô me sentindo? Como se eu fosse aquele personagem da ‘Garota de rosa shocking’, o carinha que gosta da Molly Ringwald, que passa o filme inteiro fazendo de tudo pra ficar com ela, no final consegue levar ela ao baile, e aí do nada aparece o bonitão de quem ela verdadeiramente gosta e o carinha se ferra, termina sozinho, por que será que nesses filmes o personagem mais bacana sempre termina sozinho?”&lt;br /&gt;“Nem sempre. Acho que é em ‘Alguém muito especial’, se não me engano, o protagonista baba pela garota mais bonita e popular da escola e não percebe que a melhor amiga dele, que tem um jeito mais largado, usa o cabelo curtinho, curte rock, e tal, tá a fim dele. No final, ele rejeita a menina popular pra ficar com a amiga.”&lt;br /&gt;“Tá, então esse filme é uma exceção, porque na maioria dessas comédias adolescentes dos anos 80, no final o personagem mais bacana termina sozinho, ou então tem que se ajustar pra ser aceito pelo resto da turma. Lembra do final de ‘Clube dos cinco’? A personagem da Ally Sheedy, a garota autista que passa o filme todo com o cabelo despenteado? Por que no final ela tem que se maquiar e ficar toda bonitinha pra conquistar o atleta, por quê?”&lt;br /&gt;“Porque no final das contas, por mais maduras e inteligentes que sejam as comédias teen do John Hughes, elas ainda estão presas ao estereótipo de beleza e popularidade do universo high school americano. Sei lá, eu acho que é isso. Mas eu concordo contigo. O Duckie é o melhor personagem de ‘A garota de rosa shocking’.”&lt;br /&gt;“Quando você via esses filmes, você não ficava revoltado com isso? Porque eu sempre torcia pelos rejeitados. Eu era apaixonada por aquele garotinho do ‘Clube dos cinco’, o suicida.”&lt;br /&gt;“Sério?”&lt;br /&gt;“A-ham. E pelo amigo do Ferris em ‘Curtindo a vida adoidado’, e pelo Duckie...”&lt;br /&gt;“Eu era apaixonado pela Winona Ryder naquele filme em que ela faz uma menina meio andrógina, com o cabelo curtinho, parece um garotinho... Ela também gosta do protagonista do filme, mas adivinha só, ele só tem olhos pra líder de torcida e namorada do capitão do time de futebol.”&lt;br /&gt;“Sei qual é desse filme. Sou viciada nessas comédias anos 80.”&lt;br /&gt;“Eu também.”&lt;br /&gt;“Um brinde aos rejeitados, então. Ao Duckie, ao amigo do Ferris...”&lt;br /&gt;“Ao Cameron.”&lt;br /&gt;“Isso, Cameron, tinha esquecido o nome dele. Ao Duckie, ao Cameron, ao Edward Mãos-de-Tesoura, um brinde.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela tomou um gole da cerveja, e de repente mudou de expressão, ficou séria, compenetrada, olhando os próprios pés. Pensei que ela fosse desmaiar ou vomitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esquece. Não quero mais falar sobre isso.”&lt;br /&gt;“Ok.”&lt;br /&gt;“Qual é o teu nome?”&lt;br /&gt;“Me chama de Mauro. O seu?”&lt;br /&gt;“Alice.”&lt;br /&gt;“Gostei de conversar com você, Alice.”&lt;br /&gt;“Vem cá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me deu um beijo à queima-roupa, que durou bastante, em se tratando de um gesto tão espontâneo e impulsivo, e gestos desse quilate geralmente chegam ao fim tão logo a gente começou a se acostumar, e a gostar deles, o que, decididamente, não foi o caso daquele beijo, e cabe a vocês tentar decifrar o que eu quis dizer com a última frase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Escuta, são três e meia da manhã, falta muito pro sol nascer, ainda. Quero passar o resto dessa noite contigo. Mas vou logo te avisando de antemão, eu tô carente e me sentindo rejeitada, então, de certa forma, eu vou estar te usando. Você é livre pra ir embora, se quiser. Desculpa a franqueza, desculpa se eu te magoei, mas eu prefiro ir pra cama sozinha do que criar alguma espécie de mal-entendido entre a gente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu dissesse pra ela que, em aceitando o convite que ela havia me feito, também estaria eu, de certa forma, me aproveitando dela, já que se sentir carente e rejeitado era uma especialidade minha, ainda mais ao longo dos últimos meses? Será que ela ainda insistiria em passar o resto da noite comigo se soubesse que a minha suposta disponibilidade em ir pra cama com ela decorria de uma profunda falta de sintonia em relação ao resto do mundo, mais ou menos como quando você está ouvindo rádio e passeando pelo dial à procura de algo que preste, então basta você esbarrar na primeira emissora tocando uma música bacana pra que você se disponha a ouvi-la por alguns minutos, pelo menos até o final da tal música, ainda que o que venha depois seja um pagode desprezível ou um jogo de futebol da Segunda Divisão Carioca? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso não quer dizer que amanhã de manhã eu vá te expulsar do meu apartamento, ou fingir que não te conheço quando a gente se esbarrar na rua, mas, ah, sei lá, não quero pensar nisso, pelo menos não por enquanto, não agora. ‘Everything will be alright tonight’, não é isso que dizia naquela música do CD que a gente veio escutando? Então. Relaxa, não tem motivo pra você se preocupar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que ela disse a frase que me fez reconsiderar tudo o que havia pensado até então. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu ideal de relacionamento é aquele em que toda noite vivida pelo casal se assemelha a uma noite de sexo casual, sem compromisso. Só que, quando você se dá conta, e o relacionamento é tanto melhor quanto menos o casal pára pra pensar nessas coisas, existe um compromisso entre essas duas pessoas, ainda que esse comprometimento mútuo tenha surgido a partir da convivência entre eles, e não como um dado a priori que uma das metades impõe à outra antes mesmo de eles trocarem o primeiro beijo. Quer dizer, mal comparando, você não é o sentido da minha vida, mas você pode se tornar o sentido da minha vida, e o ideal é que eu só perceba isso quando a minha vida terminar, nunca antes disso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus, aquilo tinha sido lindo, e eu acho que ela percebeu a minha empolgação, o meu sorriso acabou denunciando o quanto eu estava ficando envolvido por ela, e ela, instantaneamente, fez questão de corrigir a suposta mancada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas, pelo amor de Deus, com isso eu não estou querendo dizer que você é, ou pode vir a ser o...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calei a boca de Alice com um beijo. Resolvemos aproveitar a brisa que soprava na direção da praia para ir embora daquele lugar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você é escritor e já esteve prestes a pôr um ponto final num texto alguma vez na vida, deve saber que o final nunca é tão divertido quanto o começo: a concepção das últimas palavras de um texto é capaz de provocar uma desgaste emocional muito maior do que a gênese das frases iniciais. Por mais egocêntrico e narcisista que seja este escritor hipotético, no final das contas ele escreve pensando num público também hipotético, e o público tende a preservar na memória, com mais facilidade, a última frase de um livro ou a última cena de um filme do que a frase ou cena inicial da respectiva obra. Pense aí nos filmes memoráveis a que você já assistiu. Dá pra contar nos dedos aqueles cuja cena inicial, ou cujo diálogo inicial, você é capaz de reproduzir literalmente. Eu mesmo, só consigo me lembrar de “Apocalypse now”, que começa ao som de “The end”, do Doors, com o personagem do Martin Sheen dizendo “Saigon. Merda, ainda em Saigon.”, e termina no mais profundo silêncio com o personagem do Marlon Brando sussurrando “O horror. O horror.”. Enfim, acho que é mais ou menos desse jeito que as coisas funcionam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto descia as escadas da Pedra do Arpoador e observava Alice calçar as sandálias, entretanto, vislumbrei um final possível para o texto que aqui se apresenta, quando ela se abaixou para apertar as tiras do calçado e, por acidente, parou bem debaixo de uma luminária de rua. Enxerguei Alice na contraluz, um halo cristalino encapsulando seus contornos, dourando-lhe os cabelos castanhos, e como ela se recusava a levantar enquanto eu não explicasse o motivo da minha fascinação súbita, disse a ela que eu a via como se ela estivesse num palco, e fosse uma atriz. Ela riu, e disse “Se eu estou num palco e sou uma atriz, então você também está no palco e é um ator”. Fui obrigado a concordar com ela, somos dois atores então, eu respondi, e continuamos a caminhar até o carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reduzi o passo com a intenção de me distanciar e, assim, poder observá-la melhor. Lá vamos nós de novo, pensei, e foi então que me ocorreram os versos de uma antiga canção da The Band, que pareciam ilustrar à perfeição o quarto ato do meu set list, aquele cuja existência eu não tinha previsto e que, em virtude da própria imprevisibilidade, significava mais do que todo o resto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Your brow is sweatin' and your mouth gets dry,/ Fancy people go driftin' by./ The moment of truth is right at hand,/ Just one more nightmare you can stand./ See the man with the stage fright/ Just standin' up there to give it all his might./ And he got caught in the spotlight,/ But when we get to the end/ He wants to start all over again”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos em silêncio até o carro, cada um na sua, sem mãos dadas, sem braço-no-ombro, sem nenhuma demonstração explícita de carinho e afeto a não ser aquela que nos consumia por dentro, e que bastaria para nos alimentar até o nascer do dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X X X&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111116973299909573?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111116973299909573/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111116973299909573' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111116973299909573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111116973299909573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/03/this-is-not-love-song-18.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #18'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111080864762426107</id><published>2005-03-14T09:55:00.000-04:00</published><updated>2005-03-14T09:57:27.640-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #17</title><content type='html'>“Picture a scene in your mind/ Looks at all the people and take note of the setting behind/ Listen, watch, and wait/ A plot begins to take shape/ Have you considered the way/ People might react to all the things that your characters say?/ And are their actions hand in hand with what you wantto portay?/ Are you the one to be blamed?/ If you're a storyteller you might think you're without responsibility/ And you can lead your characters anywhere you want/ You have immunity/ How can you finish the tale?/ Lives which have played a part/ Are summarised from the very start/ And episodes left out to make it all go our way/ "It's a might big world/ Some of it I've seen/ But mostly I've only heard/ And stories are all fiction from their moment of birth" (Belle &amp; Sebastian)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele amigo meu cujo noivado havia sido desfeito bem diante dos meus olhos tinha arranjado uma nova namorada, a mulher da vida dele, era o que ele bradava aos quatro ventos. Tá bom, pensei, não dura nem duas semanas, mas o fato é que o tempo foi passando, passando, o relacionamento dos dois foi durando, durando, até que, tendo transcorrido pouco mais de um mês do início do namoro, eles decidiram se casar, agora vejam vocês, ele, que precisou namorar a mesma pessoa por mais de cinco anos para, de uma hora para a outra, ter certeza de que NÃO desejava se casar com ela, subitamete decidiu juntar as coleções de CD com uma sujeita que ele mal conhecia, mas quem sou eu para questionar a decisão dos outros, por mais despropositada que ela pareça ser, então preferi manter minha boca grande devidamente fechada e fingir que dava o maior apoio à escolha suicida dos dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para comemorar a ocasião, o casal decidiu dar uma festa. Quando o meu amigo me convidou, confesso que não estava com a menor vontade de ir, então perdi um bom tempo da minha vida extremamente produtiva pensando numa desculpa convincente que justificasse minha ausência. Já não me importava que me achassem antipático ou anti-social, só não queria ser obrigado a respirar o mesmo ar que aquelas pessoas. Esse amigo meu era gente boa, sem sombra de dúvida, mas ele havia conseguido acumular uma quantidade respeitável de amigos desprezíveis ao longo de sua breve existência, e eles estariam todos lá, se embebedando, dançando ao som de qualquer porcaria que fizesse barulho e dando em cima de garotas igualmente estúpidas, o que me deixava terrivelmente constrangido, porque se tem uma coisa capaz de fazer de mim um sujeito ainda mais insuportável e arrogante do que eu já sou, essa coisa é a mediocridade alheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então quando ele me ligou na manhã do evento, querendo que eu confirmasse a minha presença na tal festa, fui obrigado a inventar uma história sem pé nem cabeça, oh, cara, não vai dar, sabe o que é, amanhã é domingo e, bem, e eu tenho um compromisso inadiável domingo de manhã, cedo, muito cedo, o que é, hmmmm, éééééé, bem, ahn, você sabe, um compromisso, inadiável, domingo, bem cedo, talvez não dê para eu ir na tua festa, e foi aí que ele percebeu minhas reais intenções e decidiu apelar para um golpe baixo-baixíssimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você podia ser o DJ da festa, que tal?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei tão surpreso e lisonjeado com o convite que até esqueci em que parte da minha mentira eu estava, ou o que deveria dizer em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O negócio é o seguinte, cara, a gente vai fechar uma boate por uma noite, os donos da boate meio que obrigaram a gente a cobrar dez paus de ingresso do pessoal, senão nada feito. Se a gente requisitar os serviços do DJ contratado da casa, o ingresso sobe para quinze reais, mas se a gente providenciar o nosso próprio DJ, os dez paus seriam mantidos e você ainda levaria uma comissão de 15%, quer dizer, mais ou menos, um real e cinqüenta por convidado. É ou não é uma boa oferta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, sem sombra de dúvida, camarada, é uma ótima oferta, mas a verdade é que fiquei cá pensando com os meus botões se você é tão popular e querido assim pelas pessoas, para cobrar dez reais de cada convidado e ainda assim ter a ilusão de que a boate vai estar lotada. E que história é essa de me usar como redutor de ingresso? Decerto eu valho muito mais do que isso. Somando esses dois fatores, não sei porque mas tinha a impressão de que sairia daquela espelunca com menos de cinco reais no bolso, o que mal daria para pagar os três ônibus que levariam de volta pra casa após a tal festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então pesei os contras e os prós, sendo estes a possibilidade de realizar meu sonho de ser DJ por uma noite, me masturbar em cima dos outros e ainda faturar uns trocados, dez reais que sejam, com essa atividade, e acabei aceitando o convite dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas, hmmm, vê se pega leve nas músicas. Tenta ser o mais eclético que você puder.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas pessoas entendem ecletismo como sinônimo de esquizofrenia musical. Eclético é o DJ que toca de Rolling Stones à música baiana, passando por techno e pagode, sem esquecer, é claro, do funk e do pagode. Na minha concepção, entretanto, se é que a minha concepção vale alguma coisa, o ecletismo vem de mãos dadas com a coerência, e a coerência, por sua vez, vem de mãos dadas com a minha maneira de enxergar o mundo, então nada mais natural que meu set list ser uma espécie de autobiografia musical, o filme da minha vida com músicas no lugar dos fotogramas, e eu estava pouco me lixando para o que os convidados ou o dono da festa iam pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não esquece, cara, é uma festa. A idéia é que você toque coisas que façam as pessoas ter vontade de dançar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Odeio gente me dizendo como eu devo fazer o meu trabalho. A vida, entretanto, me ensinou que não vale a pena discutir com esse tipo de pessoa, então acabei concordando com ele, mas era tudo da boca pra fora, o que eu não faço para pôr fim a uma conversa entediante, pensei, enquanto desligava o telefone e, de bate-pronto, começava a elaborar meu set list, que só foi concluído a poucas horas do início da festa, e consistia nas seguintes canções, devidamente selecionadas do meu vastíssimo repertório e obedecendo, tal e qual uma peça de teatro, a uma estrutura em três atos, sendo cada ato autônomo em relação aos demais, ainda que, em perspectiva, os três atos reunidos formem um todo coerente com a minha trajetória de vida, que é o drama em torno do qual o set list se desenvolve. Para facilitar o meu trabalho, única e exclusivamente com esse objetivo, estabeleci alguns critérios de seleção que, longe de serem concessões às exigências idiotas feitas pelo meu amigo, provavelmente garantiriam a minha permanência na cabine do DJ por, pelo menos, meia hora, o que certamente seria bastante tempo, se levarmos em consideração as músicas escolhidas e a idade mental dos convidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Não tocar mais de uma música do mesmo artista ou banda em cada ato: isso impediria que meu set list se estendesse até o final dos tempos, tamanha era a quantidade de coisas que desejava incluir, e que acabava sendo obrigado a deixar de fora, com o coração apertadíssimo, logicamente.&lt;br /&gt;2. Já que a intenção secundária do meu set list era fazer os macacos mexerem o rabo, estando evidente, a esta altura do campeonato, qual era a intenção primária do mesmo, decidi privilegiar as músicas que se prestassem a tal objetivo, o que não me impediria de tocar músicas com letras depressivas, de cortar os pulsos mesmo, desde que o ritmo fosse minimamente dançável, então poderia exercitar minha pretensa superioridade em relação às demais pessoas da festa quando, por exemplo, eu tocasse “Paranoid android” e os convidados começassem a dançar alegremente, como se estivessem na rabeira de um trio elétrico ou qualquer coisa do gênero, ignorando o significado da poesia de dor dilacerada que lhes invadia os ouvidos sem pedir permissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como nem tudo é tão simples quanto parece ser, à primeira vista, e o único crime que um DJ não pode cometer é o de ser previsível, pensei em organizar a divisão dos atos de forma a passar uma rasteira no público a cada intervalo entre-atos, mudando radicalmente a orientação do set list e deixando todo mundo desnorteado com as reviravoltas súbitas. Dentro dessa lógica, o primeiro ato, que tem por objetivo apresentar personagens e delinear os conflitos que serão desenvolvidos em profundidade ao longo da peça, possuiria uma estrutura mais convencional, já que desde a época de Sófocles as coisas se dão dessa forma, então não serei eu o primeiro a desafiar essa convenção. A verdade é que o primeiro ato do meu set list seria um tremendo engana-trouxas, a isca que atrairia os convidados da festa para a armadilha que seria o Ato 2. Tudo, das músicas escolhidas à ordem de apresentação das mesmas, daria a impressão de que o que estaria por vir seria um set list convencional, não fosse por um singelo e fundamental detalhe: o sujeito responsável pelas carrapetas seria um psicopata perigosíssimo, que acredita na Hecatombe Nuclear como melhor, posto que única, saída para a Humanidade, e acha que o mundo seria um lugar muito melhor para se viver se todas as pessoas, sem exceção, compartilhassem de sua visão de mundo e aceitassem a verdade incontestável de suas palavras. O Ato 2 seria, portanto, a transcrição fiel da alma atormentada desse indivíduo, uma antologia de canções que, em algum momento da vida desse sujeito, fizeram, deram ou simplesmente foram o sentido de sua existência infeliz. Não dava a mínima para a recepção do público ao Ato 2, principalmente porque tinha certeza absoluta do potencial dançável do Ato 1, e nessas horas, vale aquela velha máxima, conquiste a pista primeiro, toque o que quiser depois, poderia enfileirar as bobagens mais irrelevantes, do ponto de vista dramatúrgico, durante a primeira hora, que não me importava: se tivesse cativado os convidados da festa durante o primeiro ato, eles seriam capazes de dançar ininterruptamente pelo resto da noite, mesmo que eu tocasse coisas como Tom Waits ou Bob Dylan, nada menos condizente com o clima de uma festa, portanto, sem parar e até o nascer do sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, o Ato 3, no qual depositaria todas as minhas últimas esperanças de redenção. Sim, porque apesar de condenar 99% das religiões institucionalizadas como responsáveis por 99% das guerras e genocídios e, vez por outra, questionar a existência de Deus, ou de um deus, ou de qualquer instância superior responsável por dar um pouco de coesão e coerência à bagunça que aí está, sinto possuir algum vestígio de religiosidade, ainda que esta seja uma religiosidade levemente doentia, semelhante à de uma música do Leonard Cohen ou de um filme do Martin Scorsese estrelado pelo Robert deNiro, não me admira que o Scorsese tenha tido uma formação católica tão parecida com a minha, porque nesse ponto somos bastante próximos, apenas o talento, incontestável no que diz respeito ao Scorsese, improvável no que diz respeito a este humilde escriba, nos afasta um do outro. Acredito que um indivíduo só pode alcançar a própria redenção se for capaz de descer às profundezas de seu inferno particular, o que, claro está, varia de pessoa para pessoa, ninguém estando autorizado, portanto, a questionar as fronteiras do inferno particular de cada um, já dizia o ditado que cada indivíduo sabe onde mais lhe aperta o calo, o que me faz lembrar de outra máxima popular, muito apropriadamente registrada nas paredes do banheiro de um bar, que dizia ser o fundo do poço o melhor lugar do dito cujo para se tomar impulso, enfim, apenas ditados, provérbios, nada além disso. O fato é que, depois da convencionalidade simulada do Ato 1, e da descida aos infernos que representava o Ato 2, nada mais natural que eu buscasse, no Ato 3, derradeira etapa do set list, uma forma de retornar em segurança até a superfície, e daí para os céus, um misto de redenção e ascensão sem escalas, mas chega de metáforas religiosas por hoje, o que eu precisava era de músicas que me transmitissem esse sentido de recomeço e que fugissem do óbvio, como sempre, porque é fácil selecionar canções de recomeço que façam sentido às outras pessoas, difícil é organizar um set list de canções de recomeço que façam sentido para você, mas cujo significado mais profundo permaneça obscuro para os demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que me lembrei do fora mais memorável que levei em toda a minha vida, e o que não falta na minha folha corrida são foras memoráveis, portanto o fato de este fora se destacar dos demais basta para lhes transmitir toda a dimensão catastrófica do mesmo. O supracitado evento se deu no dia do meu aniversário de 16 anos, vejam vocês. Eu gostava de uma menina que, na época, era minha melhor amiga, e eu fui ficando cada vez mais apaixonado por ela, efeito colateral da proximidade quase constante, até que, passados cerca de seis meses do início da paixão, percebi que a situação estava ficando insustentável pro meu lado e decidi jogar as cartas na mesa, ser franco a respeito do estado dos meus sentimentos, blahblahblah. Foi horrível, porque naquele dia tínhamos combinado de ir ao cinema, e eu havia planejado me declarar enquanto esperávamos pelo início do filme, seria minha primeira sessão de cinema na companhia efetiva da pessoa de quem gostava, só que uma outra garota, que era nossa colega de turma, resolveu se auto-convidar para o programa, a minha amiga ficou sem jeito de recusar, e no final das contas quem se fodeu fui eu, que tive de esperar um momento mais propício, em que estivéssemos sozinhos, eu e ela, para poder me declarar. Fosse eu um sujeito menos ansioso e teria sido capaz de esperar até o dia seguinte, mas não, na minha cabeça perturbada a declaração deveria ser feita o quanto antes, imaginem só se, na noite daquele mesmo dia, um outro melhor amigo dela também resolve se declarar, e aí eu acabaria perdendo a minha amada pela diferença de uma cabeça no photochart, não seria a primeira vez que tamanha desventura se sucederia comigo, então não valia a pena dar novas chances ao azar, certo? Em virtude disso tudo, acabei me declarando para ela num ônibus hiperlotado da linha Copacabana-Rodoviária, via Aterro do Flamengo, em plena hora do rush, soterrado por um calor dos diabos, duas donas gordas se jogando em cima de mim, e preso num maldito engarrafamento nos arredores da Praça Quinze, quer dizer, foi esse cenário nada romântico que embalou o primeiro eu te amo textual de toda a minha vida. Enfim. Ela disse que precisava pensar, todas dizem isso, no fundo o eu gosto de você mas preciso de um tempo para pensar nada mais é do que uma forma de ganhar tempo às custas do sentimento alheio, te testar pra ver se você desiste da idéia ou te vencer pelo cansaço, porque os dias foram passando, ela continuou pensando, até que na manhã do meu aniversário, logo depois da aula, estamos esperando pelo ônibus no ponto quando ela se vira pra mim, pergunta se eu estou feliz, as minhas pupilas se dilatam eu começo a transpirar, digo que sim, afinal de contas é meu aniversário, hoje é dia de festa, ao que ela me responde que bom, porque a minha resposta é não, eu não quero nada contigo, você é como um irmão pra mim, e daquele ano em diante meus aniversários nunca mais foram dias de festa, ou foram os dias de festa que assumiram, para mim, um significado triste, tanto faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, essa menina de quem eu gostava era a maior fã de MPB que eu já conheci. Ela era capaz de declarar abertamente, sem o menor constrangimento, que tinha preconceito com música estrangeira, o que a transformava numa espécie de Ariano Suassuna de saias, ou na versão feminina do Paulo Emílio Salles Gomes, aquele cara que disse o pior filme brasileiro é superior ao melhor filme americano e muita gente levou a sério. Nunca ouvi tanta MPB como na época em que estava apaixonado por ela, e era sincero o que eu sentia, tanto por ela quanto pela MPB, mas infelizmente, depois do que aconteceu no dia do meu aniversário, eu não conseguia sequer colocar o dedo num CD do Chico Buarque sem ser invadido por lembranças dela, tanto dos bons momentos que passamos juntos quanto do inferno em que se transformou a minha vida depois daquele fatídico aniversário, e olha que eu estou falando de Chi-co Bu-ar-que, e não de um roqueirozinho qualquer metido a transgressor do sistema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa mesma época que, a exemplo daquela música do Velvet Underground, a minha vida foi salva pelo rock’n’roll, graças ao meu amigo metaleiro, que muito oportunamente me emprestou uma fita cassete do Pink Floyd, contendo o “Dark side of the moon” no lado A e sem nada gravado no lado B, fita esta que, a princípio, eu recusei escutar, julgando que se tratava de mais uma banda de metal, daquelas bem barulhentas e, quase sempre, vindas dos locais mais estranhos do planeta, da Finlândia ou algo assim, grupos desconhecidos da maioria dos mortais, mas que ele adorava de forma incondicional, e de todas as vertentes e subgêneros do rock, o único que jamais me despertou sequer a mínima comoção foi o metal, graças, portanto, à tal fita, e ao meu amigo, eu pude ter acesso ao disco que mudou a minha vida, isso aos dezesseis anos, época em que a maioria das pessoas que eu conheço já havia sido minimamente alfabetizada na escola do rock, via MTV, no que diz respeito à mídia, ou via grunge, no que diz respeito ao subgênero, tanto faz um como o outro, o resultado é invariavelmente o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parêntese acadêmico. Desafio qualquer um de vocês a elaborar um questionário intitulado “O que você ouvia quando começou a gostar de rock?”, que deve ser distribuído a todas as pessoas do seu círculo de amizade que escutem rock ainda hoje, dando preferência a entrevistados na faixa dos 20-28 anos. Aposto minha coleção de vinis do David Bowie que as respostas obtidas após a pesquisa fornecerão, aproximadamente, os seguintes resultados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;65% - 80%: Grunge Rock em geral (Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden, preferencialmente)&lt;br /&gt;25% - 10%: Heavy Metal&lt;br /&gt;9% - 7%: Punk Californiano, o que é radicalmente diferente do Punk Seminal Novaiorquino de Iggy Pop &amp; cia., bem como do bom e velho Punk Inglês, deus salve a rainha.&lt;br /&gt;1% - 3%: outros subgêneros ou bandas de culto específico, tais como Classic Rock, Rock Progressivo, Beatles, em suma, coisas que você muito provavelmente começou a escutar por influência dos seus pais,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que não é nem um pouco surpreendente, se levarmos em consideração que a) a maioria dos jovens que começa a ouvir rock o faz com a intenção de marcar uma diferença geracional em relação aos pais, e isso se dá mediante o consumo de subgênros e vertentes considerados novos, ainda que todo subgênero ou vertente considerada nova nada mais seja do que um subgênero ou vertente do passado devidamente reciclada e rebatizada com fins puramente mercadológicos, e b) tanto o grunge quanto o heavy metal e o punk californiano são gêneros surgidos a partir do final dos anos 70, mais sujeitos, portanto, à exposição midiática maciça do que o Rock Progressivo, os Beatles ou Chuck Berry, estes dois últimos provenientes de uma época em que mal havia televisão, quanto mais um canal dedicado à música 24 horas por dia. Fim do parêntese acadêmico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta pesquisa mambembe que acabei de esboçar não teve outro objetivo que não evidenciar, de forma nada científica, devo admitir, sentimentos que estavam implícitos desde a primeira linha deste texto: a minha afinidade pela opção minoritária, pelo “outros” do questionário, bem como o caráter tardio de boa parte das minhas experiências de iniciação. É impressionante como, pelo menos nesse aspecto da minha vida, as coisas fazem sentido e se encaixam perfeitamente: comecei a ouvir rock aos dezesseis anos, quando a maioria das pessoas o faz aos doze, treze, e a primeira banda da qual fui fã declarado havia lançado seu primeiro disco em 1967, antes da promulgação do AI-5, do Festival de Woodstock e do tricampeonato mundial de futebol. Agora vejam vocês, a título de comparação: minha primeira experiência concreta, não-platônica, na área sentimental, se deu quando eu tinha dezoito anos, e a maioria das pessoas que eu conheço deu seus primeiros passos nesse território entre os doze e os quinze, impressionante como essas coisas começam a ser feitas cada vez mais cedo; e, por mais estranho que possa parecer à primeira vista, ainda que posteriormente as peças do quebra-cabeça se acomodem umas às outras e dêem forma a um belo desenho, esta primeira pessoa que, tecnicamente, pude chamar de minha namorada, tinha nascido justamente no ano do tri-campeonato mundial de futebol, no ano seguinte ao Festival de Woodstock (menos de um ano, se levarmos em consideração o mês em que ela fazia aniversário) e meros dois anos depois da promulgação do AI-5. Em outras palavras, ela estava nascendo quando o Pink Floyd comemorava três anos de existência; enquanto ela soprava velinhas, os espermatozóides do meu pai e os óvulos da minha mãe sequer sabiam da existência um do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdoem a comparação infame, mas nosso relacionamento era como um show de rock em que o Sex Pistols fosse encarregado de abrir para o Jethro Tull, e os termos da comparação foram propositadamente invertidos com o objetivo de contornar interpretações de gosto duvidoso, quer dizer, não tinha como dar certo mesmo, nós operávamos em freqüências diferentes, ela era um 33 e um terço, sem trocadilhos, e eu um velho 78 rpm, preso à lentidão dos meus hábitos e refém da minha própria inexperiência e imaturidade, agora tente elaborar uma metáfora fonográfica semelhante utilizando o CD no lugar do LP e veja só que coisa mais sem charme você terá em mãos, o que me permite afirmar, de forma categórica, que pelo menos como recurso literário, o vinil continua infinitamente superior a qualquer tecnologia digital surgida nas últimas duas décadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda essa embromação memorialista e nostálgica só pra dizer que o Ato 3 do meu set list será composto por músicas que se enquadrem naquilo que eu classifiquei como rock metalingüístico: canções de rock cujo tema principal seja o próprio rock enquanto gênero musical, uma forma de prestar tributo às canções que vêm me fazendo chorar e salvando a minha vida (Eu apud “Rubber ring: The Smiths”) desde os dezesseis anos até hoje. Isto posto, eis o set list propriamente dito, momento ansiosamente aguardado pela maioria de vocês, ou pelo menos espero que assim seja, nem que tamanha ânsia seja justificada única e exclusivamente pelo vosso desejo de acabar logo com isso e procurar coisa melhor para se fazer da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Panic” – The Smiths&lt;br /&gt;“Party out of bounds” – B-52’s&lt;br /&gt;“Pretty in pink” – The Psychadelic Furs&lt;br /&gt;“Brand new caddilac” – The Clash&lt;br /&gt;“Town called malice” – The Jam&lt;br /&gt;“Bonzo goes to Bitburg” – Ramones&lt;br /&gt;“I love to boogie” – T-Rex&lt;br /&gt;“Some weird sin” – Iggy Pop&lt;br /&gt;“Dead man walking” – David Bowie&lt;br /&gt;“The rolling people” – The Verve&lt;br /&gt;“Hard to explain” – The Strokes&lt;br /&gt;“The people” – The Music&lt;br /&gt;“Mystery dance” – Elvis Costello&lt;br /&gt;“Bobby Jean” – Bruce Springsteen&lt;br /&gt;“I’m the man” – Joe Jackson&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“This is not a love song” – Public Image Ltd.&lt;br /&gt;“The one I love” – R.E.M.&lt;br /&gt;“You stole the sun from my heart” – Manic Street Preachers&lt;br /&gt;“Head on” – The Jesus and Mary Chain&lt;br /&gt;“Days before you came” – Placebo&lt;br /&gt;“Dyslexic heart” – Paul Westernberg&lt;br /&gt;“Last goodbye” – Jeff Buckley&lt;br /&gt;“All mine” – Portishead&lt;br /&gt;“Dancing barefoot” – U2&lt;br /&gt;“Getting away with it (all messed up)” – James&lt;br /&gt;“Heaven knows I’m miserable now” – The Smiths&lt;br /&gt;“What’s so funny about peace, love and understanding?” – Elvis Costello&lt;br /&gt;“Shiver” – Coldplay&lt;br /&gt;“Lips like sugar” – Echo and the Bunnymen&lt;br /&gt;“So lonely” – The Police&lt;br /&gt;“Tão sozinho” – Los Hermanos&lt;br /&gt;“Blue flashing light” – Travis&lt;br /&gt;“X.Y.U.” – Smashing Pumpkins&lt;br /&gt;“Debaser” – Pixies&lt;br /&gt;“That’s when I reach for my revolver” – Moby&lt;br /&gt;“No feelings” – Sex Pistols&lt;br /&gt;“Paraboid android” – Radiohead&lt;br /&gt;“Kicking my heart around” – The Black Crowes&lt;br /&gt;“Free bird” – Lynyrd Skynyrd&lt;br /&gt;“The loner” – Neil Young, versão ao vivo do LP “Live rust”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Rock and roll” – Led Zeppelin&lt;br /&gt;“So you want to be a rock and roll star?” – Patti Smith Group&lt;br /&gt;“Rock and roll star” – Oasis&lt;br /&gt;“Star” – David Bowie&lt;br /&gt;“Rock and roll” – Velvet Underground&lt;br /&gt;“Hey hey my my (Into the black)” – Neil Young&lt;br /&gt;“When the music is over” – The Doors&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei exatamente porquê fiz tanta questão de lhes revelar o conteúdo, canção por canção, do meu set list; quer dizer, no fundo, eu sei, mas numa ocasião dessas, é mil vezes mais nobre fingir uma suposta ignorância do que sair por aí se arvorando o dono de todo o conhecimento. Enfim. Caso a minha carreira de DJ dure mais de uma noite e, um dia, algum de vocês estiver dançando numa boate e ouvir pelo menos duas ou três das canções acima, executadas na ordem em que foram listadas, então estejam certos de que o sujeito responsável pelo movimento do vosso corpo, e quiçá do vosso espírito, amém, serei eu. Se lhes convier, sejam minimamente gentis, subam até a cabine do DJ, onde estarei encastelado, nem que seja apenas para dar um alô e dizer ei, eu li o que você escreveu. Garanto que nada, nada mesmo, será capaz de me deixar mais feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111080864762426107?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111080864762426107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111080864762426107' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111080864762426107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111080864762426107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/03/this-is-not-love-song-17.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #17'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111050077433525583</id><published>2005-03-10T20:25:00.000-04:00</published><updated>2005-03-10T20:26:14.360-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #16</title><content type='html'>“This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song/ This is not a love song” (Public Image Ltd.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até os dezoito anos de idade, eu acreditava que a parte mais difícil de um relacionamento era o seu começo, conseqüência natural de anos e anos de paixões platônicas mal-resolvidas, tanto que, nessa época, se alguém me pedisse para definir o Amor perfeito, minha resposta muito provavelmente seria, sem sombra de dúvida, aquele que não é correspondido, porque o Amor é um conceito cuja compreensão plena depende menos da experiência individual e mais do conhecimento de seu oposto, que não é o Ódio ou a Indiferença, como muitos querem acreditar, mas o Não-Amor, que é algo radicalmente diferente. Portanto, se até os dezoito anos eu só havia vivenciado o Não-Amor, ou o Amor que Diz Não, e as lembranças que trago dessa época estão impregnadas desse sentimento estranho, posto que não vivido, embora indiscutivelmente sentido, é compreensível que a minha concepção de Amor se aproximasse mais da ausência do mesmo do que da idéia de Amor presente em 99% dos filmes, livros e das canções pop que, já àquela altura do campeonato, eram parte integrante da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha primeira experiência nesse sentido aconteceu quando eu tinha cinco anos de idade. Desconfio que já relatei esta história noutra ocasião, portanto me eximo da obrigatoriedade de reproduzi-la novamente aqui. De mais a mais, não acredito que a história da minha primeira paixão platônica apresente qualquer singularidade que justifique uma longa descrição pormenorizada, até porque as paixões platônicas são todas elas, sem exceção, feitas do mesmo material e forjadas na mesma indústria, a Heartbreakers Inc. ou algo do gênero; basta remexer nas gavetas da sua memória e você vai descobrir que todas as suas paixões platônicas, se é que você já teve o prazer, ou desprazer, de vivenciar uma, parecem obedecer a um tipo de padrão constante, ou formato consagrado, tal e qual um roteiro de telenovela, a diferença é que uma telenovela bem escrita agrada a muitos, enquanto a paixão platônica nunca é bem escrita, e quando é, necessariamente termina mal para uma das partes. Não é à toa que o apaixonado platônico volta e meia se sente a pessoa mais estúpida do mundo, porque é como se ele fosse um transeunte distraído, condenado a cair eternamente na mesma pegadinha, então por mais que ele diga “Jamais me apaixonarei platonicamente outra vez”, tal Scarlett O’Hara naquela cena clássica de “...E o vento levou”, ele sabe que, no futuro, estará fadado a repetir os mesmos erros e deixar-se apaixonar platonicamente outra vez. É aquele negócio: entender que as paixões platônicas obedecem a uma espécie de regra geral não impede que você se apaixone platonicamente infinitas vezes, mas sem dúvida alguma poupa um bocado de trabalho na hora em que você é obrigado a relatar suas experiências para terceiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se em virtude desse background traumático, as paixões não-platônicas que vivi depois dos dezoito acabaram sendo indiscutivelmente influenciadas pela concepção de Amor que, até o momento, eu defendera como sendo a única concepção válida. Quando me apaixonava por alguém, era capaz de me sentir mais feliz no intervalo de tempo compreendido entre o instante em que o sentimento era detectado e o “eu acho que estou apaixonado por você” do que após o tão aguardado “eu também”. Uma vez correspondido o sentimento que declarara sentir pela outra pessoa, era como se tudo o que viesse depois não valesse a pena, ou não valesse tanto a pena quanto a expectativa que a resposta da outra pessoa provocava em mim. Essa maneira torta de enxergar as coisas acabava por condenar o relacionamento antes mesmo que ele completasse duas semanas de existência concreta. Tudo o que acontecesse depois, se acontecesse, não passaria de uma caricatura pálida da felicidade que tomava conta de mim durante o intervalo de tempo supracitado, e eu acho que fiz questão de manter alguns relacionamentos em vigor por mais de um mês na vã esperança de poder experimentar novamente, ainda que em menor intensidade, a felicidade das primeiras palavras trocadas, dos primeiros olhares, dos primeiros momentos passados na companhia da outra pessoa. Só então me julgava capaz de amar, se fosse capaz de recuperar, ainda que postumamente, o espírito do primeiro encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Amor se consumia dentro de mim como a gasolina no motor de um carro:  a única chance de sobrevivência desse amor residia na possibilidade de reabastecer o carro no mesmo posto de gasolina em que havia enchido o tanque no início da viagem, o problema é que, uma vez iniciada a jornada, me parecia impossível encontrar o caminho de volta, e entre abastecer o carro e qualquer posto que não o original e abandonar o carro no meio da estrada por falta de combustível, eu acabava escolhendo, invariavelmente, a segunda alternativa. Podia não ser a opção mais racional, mas eu estava preso na teia dos meus próprios hábitos e simplesmente não sabia como agir diferente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A metáfora do posto de gasolina foi idiota, eu sei, justo eu que abomino analogias automobilísticas, mas a verdade é que a supracitada metáfora revela um segundo aspecto da minha personalidade doentia, que é a obsessão pela experiência original, pura, fundadora. Revendo meu histórico de relacionamentos, platônicos ou não, percebo que cada Amor vivido ou simplesmente sentido nada mais significou do que uma tentativa, infrutífera, devo admitir, de reviver a experiência da minha primeira paixão platônica, a tal que se deu quando eu tinha cinco anos de idade.  Em alguma fresta obscura da minha memória, fui capaz de armazenar cada detalhe referente àquele episódio: da luz que iluminava o local dos nossos encontros ao perfume – já não digo o perfume dela, porque disso não me recordo, mas do perfume que inundava o cenário dos nossos encontros quando estávamos juntos, passando, claro está, pelas sensações que experimentava dentro de mim quando ela estava ao meu lado, a ponto de lembrar apenas vagamente do rosto dela, mas ser capaz de reconstruir mentalmente o ambiente que nos rodeava. Talvez tenha esquecido o rosto dela de propósito, pois só assim, conservando sensações desprovidas de uma identidade fixa, eu poderia me dedicar à tarefa de reconstruir, no presente, a imagem desse amor do passado, a partir dos rostos e corpos que cruzassem o meu caminho e despertassem a minha atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estratégia, logicamente, jamais funcionou. Novos corpos e antigas sensações jamais se adequavam, o encaixe obtido nunca era perfeito, e no final das contas eu acabava criando frankensteins monstruosos, metade lembrança metade realidade, e a mim não restava outra alternativa que não descartar essas aberrações antes que elas me dominassem, para logo em seguida reiniciar minha busca. Tais operações faziam com que eu me sentisse sujo e sórdido. Jurava para mim mesmo que nunca mais agiria de forma tão torpe, ainda que jurasse em vão e tivesse plena consciência disso, já que, a despeito de meus esforços sobre-humanos, nunca consegui me livrar totalmente dessas lembranças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o passar do tempo, os relacionamentos frustrados foram se acumulando no meu currículo, e só então comecei a perceber que não era o início o momento mais complexo de uma relação, mas sim o término da mesma. Mal comparando, de novo, é que nem atear fogo numa floresta: iniciar o incêndio é fácil, mas depois que as labaredas se espalham, experimente tentar apagar o fogo dispondo das mesmas ferramentas que você utilizou para provocá-lo? De repente, apaixonar-se e ser correspondido ficou fácil demais, fácil que eu digo é no que diz respeito aos meus padrões, que fique bem claro; complicado era pôr fim a esses relacionamentos depois que a centelha inicial se extinguia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque engana-se redondamente quem pensa que terminar um relacionamento é um gesto puramente emocional e subjetivo, que independe da razão ou de qualquer vestígio de objetividade para tomar forma. Antes que o derradeiro eu te amo seja proferido, antes que as conversas se transformem em discussões e as palavras doces adquiram gosto de fel, o terminante, isto é, a metade da relação de onde parte o desejo de terminar, efetua uma série de cálculos complexos cujo objetivo primordial é minimizar as conseqüências traumáticas de um rompimento súbito. Tal operação em muito se assemelha ao trabalho de um farmacêutico: o terminante escolhe a dose exata do veneno que pretende administrar, dependendo do efeito que deseja obter e da profundidade da ferida que está disposto a provocar na outra metade da relação, que por hora chamaremos de terminal, na falta de expressão mais adequada, pois é assim que a maioria das pessoas se sente ao terminar um relacionamento, em estado terminal, principalmente se o desejo de pôr fim à relação partiu de B, em virtude da existência de C, sem a concordância plena e irrestrita da pessoa A.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabe ao terminante, da mesma forma, estipular o dia e o horário em que o veneno será aplicado, e aí, mais do que nunca, há que se ter precisão e muito cuidado, basta uma alteração repentina na direção do vento, ou nas condições de temperatura e pressão atmosférica para que um término pacífico e harmonioso se transforme num amontoado de mágoa e ressentimento. Aos que observam de fora, o término muitas vezes pode parecer incompreensível, dada a maneira abrupta com que se deu, mas me atrevo a afirmar que nenhum relacionamento chega ao fim sem que uma das partes tenha passado, pelo menos, uns dois ou três dias arquitetando a melhor forma de terminar, e calculando, de forma minimalista, os danos que o rompimento pode vir a provocar. Está provado, portanto, que há muito de racional e científico no término de um relacionamento, diferentemente do início do mesmo, para o qual nada é indispensável a não ser a vontade de começar. Fosse o início de um relacionamento regido por princípios tão racionais quanto seu término e 99% dos efeitos colaterais de um relacionamento desastroso poderiam ser devidamente antecipados, o que, se visto por um lado, provavelmente evitaria que 99% desses relacionamentos sequer tivessem a oportunidade de ver a luz do dia, por outro lado, tamanha precaução certamente ajudaria a poupar o sofrimento decorrente do esfacelamento posterior do mesmo (independente de qualquer previsão, há sempre a porcentagem dos teimosos, 1% que seja, dispostos a meter os pés na lama mesmo sabendo que de lá sairão com as calças sujas). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava sendo atormentado por reflexões dessa estirpe quando senti alguém puxar a cigarra do ônibus e me lembrei de que precisava saltar. Caminhei a passos rápidos até o CCBB. Fazia um calor absurdo, e o choque entre meu corpo quente e o ar glacial do foyer  provocou um arrepio que percorreu cada centímetro quadrado da minha pele, culminando em uma descarga de energia que eletrificou a ponta dos meus cabelos e me deixou levemente desnorteado por alguns segundos. Ela estava sentada nas escadarias que davam acesso à entrada do Teatro I, e usava um vestido vermelho semi-transparente na altura dos quadris, que parecia exibi-la numa bandeja para quem quisesse ver. Fitava a cúpula do CCBB, simulando ora concentração, ora profundidade de espírito, quando qualquer um sabia, eu inclusive, que lhe faltava tanto a primeira quanto a segunda, principalmente a segunda. Ela me viu chegar e, imediatamente, guardou na bolsa de palha o livro que estava a ler, antes que me fosse concedida sequer a oportunidade de identificar o título desenhado na capa, provavelmente porque ela fazia questão de ocultar suas preferências literárias, talvez receando que eu me intimidasse com sua sofisticação – Proust – desdenhasse de sua inferioridade – Sheldon – ou simplesmente me utilizasse daquela capa de livro para invadir sua tão estimada privacidade, assim violando seus segredos mais secretos. Então eu me aproximei, ela fechou a bolsa com um nó cego, e eu fiquei a me perguntar porque havia sido impedido de ter acesso ao conteúdo literário daquela bolsa, se aos estranhos que passavam diante dela até o instante da minha chegada ela havia oferecido essa dádiva, enquanto a mim, certamente um não-estranho, ainda que pouco mais do que isso, nada restava senão o consolo de um sorriso amarelo e um nó cego. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos”, ela disse, então caminhamos em silêncio até um barzinho simpático que ficava na rua detrás do CCBB, o que, inicialmente, me deixou ligeiramente preocupado, já que concordei em encontrá-la naquele lugar com a garantia implícita de que nossa derradeira conversa ocorreria num local neutro. Em outras palavras, da mesma forma que eu não poderia marcar nosso encontro num show de rock ou no cinema, também ela não estaria autorizada a querer me encontrar numa roda de jongueiros ou num congresso de praticantes de tarô. Ao chegarmos no tal bar, entretanto, ouvi os acordes inconfundíveis da Ave Maria de Gounod na versão do Jorge Aragão. “Trapaça!”, pensei com meus botões, mas aí nos sentamos, pedimos dois chopes e uma porção de aipim frito e ficou tudo por isso mesmo. Na mesa ao lado, um grupo de cerca de vinte pessoas conversava animadamente vários tons acima: alguns chamavam o garçom pelo nome e faziam questão de incluí-lo nas piadas e brincadeiras. Me senti no próprio Bar Esperança, aquele do Carvana. A agitação da mesa vizinha fazia um belo contraponto com o clima de filme sueco da nossa mesa: nunca me senti tão sozinho numa mesa de bar quanto naquele dia, apesar de tê-la ao meu lado, ou talvez fosse justamente por causa da presença dela que eu me sentia daquele jeito, tão sozinho, parafraseando Nelson Rodrigues, existem certas pessoas cuja companhia acaba sendo a pior forma de solidão, e ela continuava lá, espetando pedaços de palito de dente num pedaço de aipim que havia caído fora da bandeja, transformando o pobre aipim numa versão gastronômica do Pinhead, enquanto eu bebia meu chope e passava a maior parte do tempo tentando enxergar o meu futuro no desenho formado pela espuma do chope que transbordara do copo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu acho melhor a gente terminar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrito assim, sem qualquer indicativo de autoria ou complemento explicativo, apenas eu acho melhor a gente terminar, entre aspas, nada além disso, você seria capaz de dizer quem foi o autor da declaração acima transcrita? Eia aí uma prova incontestável da vantagem que a palavra escrita leva sobre a palavra falada, da superioridade da literatura em relação ao cinema e ao teatro, pelo menos no que diz respeito à possibilidade de se preservar o mistério e manter a autoria de determinada declaração em segredo. Fosse isto um filme, por mais que eu distorcesse a voz do personagem ou ocultasse sua identidade recorrendo à iluminação em contra-luz, ou simplesmente escurecendo a tela, mais cedo ou mais tarde seria obrigado a dar-lhe um rosto, uma expressão, a menos que o meu filme fosse uma ficção experimental, na qual os personagens não precisam de um rosto definido, basta um ator mascarado, uma sala de paredes brancas e uma poesia do Drummond para que se tenha um filme; este, no entanto, não é o caso da ficção que aqui se apresenta, então há que se dar uma cara aos personagens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suponhamos, agora, que eu decidisse acabar o texto nesse exato instante; cismasse de colocar um ponto final na história e nunca mais tornasse a escrevê-la. Vocês jamais saberiam de qual boca a frase eu acho que a gente devia terminar verdadeiramente saiu. Esta é apenas uma amostra do poder do escritor sobre o leitor. Óbvio que vocês sempre poderão recorrer à imaginação e atribuir a autoria da frase a quem bem entenderem, “construir a história”, como afirmam os teóricos mais populistas, mas a palavra final, a verdade incontestável, essa pertence a mim, e a mais ninguém. Este é um fato a ser aceito sem discussões ou questionamentos. Meu conselho para vocês é: vivam com isso – ou, em último caso, tornem-se escritores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Antes que as coisas entre a gente fiquem piores”, ela arrematou, e então me senti estranhamente tranqüilo, em paz comigo mesmo, apesar de tudo. Era como se eu tivesse ido àquele encontro com a intenção de assassiná-la à queima-roupa; minha vítima em potencial, entretanto, fizera questão de disparar primeiro, gesto este que, indiretamente, me autorizava a efetuar disparos ainda mais certeiros dali pra frente, uma vez que a antecipação dela transformava qualquer movimento meu numa reação em legítima defesa, portanto absolutamente válida, ainda que de acordo com as regras de uma disputa que aparentava ser qualquer coisa, menos justa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim, restavam duas alternativas. A primeira seria questionar a decisão dela, ainda que meu objetivo primordial ao marcar aquele encontro também fosse colocar um ponto final na nossa relação. Eu podia fingir surpresa, uma surpresa que, no fundo, verdadeiramente sentia, porque se você vai a determinado lugar com a intenção de terminar com alguém, não deixa de ser surpreendente quando a outra pessoa resolve inverter os papéis e passar de vítima a algoz numa questão de minutos, te deixando numa posição pra lá de desconfortável. A outra alternativa, que no momento me pareceu mais adequada, ainda que posteriormente ela tenha se revelado um tremendo equívoco, decorria de uma profunda ferida narcísica que me impedia de deixar aquele bar na condição de terminal, já que havia passado a última semana, planejador nato que sou, incorporando o papel de terminante que a vida e as circunstâncias da mesma haviam me atribuído noutras ocasiões, e agora não seria diferente, pensava eu, enquanto arquitetava a frase que me devolveria o controle sobre aquele jogo, recorrendo ao vastíssimo banco de dados de frases já-ditas em situações semelhantes, porque inspiração para bolar uma sentença nova me faltava, e os chopes que entornava para controlar a tensão não ajudavam nem um pouco nesse sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O teu erro foi ter se envolvido demais. Eu te avisei. O fato de estar sozinha não significa que eu esteja disposta a ter alguma coisa, lembra?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior é que eu me lembrava. Mas como assimilar o significado de uma frase desse quilate quando ela é seguida, na ordem dos acontecimentos, por um beijo que funciona como um ctrl+alt+del em tudo o que foi dito anteriormente? Até cogitei a possibilidade de perguntar o que ela queria de mim, afinal de contas, mas de súbito me dei conta do caráter retórico dessa pergunta, eu sabia o que ela queria de mim desde o princípio, e ela jamais me enganara nesse sentido. Bem feito, pensei. O meu erro foi ter me envolvido demais. Como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A minha vontade era poder te beijar quando estivesse a fim, e transar contigo quando estivesse a fim, e viajar, e pagar na tua mão, e ver TV, e ouvir música, dependendo da música, lógico, até conversar, se fosse o caso, porque eu confesso que conversar contigo nunca foi dos meus programas favoritos, era conversando que as nossas diferenças vinham à tona, e cada vez que isso acontecia, eu percebia que a nossa relação não teria futuro, ou pelo menos não o futuro que você esperava que a nossa relação tivesse.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[pausa dramática]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu só não queria que você me enxergasse como a sua namoradinha ou algo do gênero. Eu odeio rotina. A última coisa que eu ia querer era conhecer os teus pais, e a tua família, e ter dias certos para te encontrar, e ter programas específicos pra gente fazer junto, eu sempre desprezei esse tipo de coisa, foi por isso que meu casamento naufragou, eu me sentia engessada pela rotina. Um relacionamento não pode ser uma prisão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[pausa interrogativa]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixa eu te confessar uma coisa: aquela história que eu te contei, era tudo invenção. Meu casamento acabou pelos mesmos motivos que o nosso relacionamento, a diferença é que naquela época eu era jovem, estúpida, tinha medo de ficar sozinha e era capaz de sustentar uma situação insustentável por dois, três anos. Agora não dá mais. Eu tô velha demais pra isso, o tempo que eu desperdiço com outras pessoas é o tempo que eu tenho pra tentar me encontrar, e esse tempo é precioso demais para ser jogado fora assim, indiscriminadamente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Relembrando a história que ela me contara naquele dia, em Friburgo, mas recorrendo a uma boa dose de distanciamento crítico e cinismo, percebo agora uma série de incoerências. Quem, em sã consciência, por exemplo, escreveria uma tese de doutorado sobre Paulinho da Viola? Uma coisa, entretanto, permanecia além de qualquer impulso desconstrutivista: e a lágrima que ela tinha derramado quando me contara a respeito da sua filha, também teria sido um simulacro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nunca tive filha nenhuma. Era tudo ficção. Você queria uma história, eu te dei uma história, e você pareceu se contentar com ela, ainda que fosse tudo mentira, prova incontestável da falta de significado das palavras, e das histórias, você acredita no que está predisposto a acreditar, e isso lhe basta. Não te pareceu excessivamente melodramática a minha narrativa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti como se todos os filmes a que havia assistido em vinte e tantos anos de vida tivessem perdido toda a serventia. Até a minha incontestável habilidade de identificar clichês parecia seriamente comprometida diante de revelação tão estarrecedora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me perdoa, mas eu tive de mentir. Eu precisava te demonstrar, por a+b, que a gente podia ser feliz sem saber tudo sobre a vida um do outro, que as coisas que eu te contasse sobre o meu passado seriam narrativas filtradas pela minha perspectiva dos acontecimentos, e que tais narrativas jamais se configurariam como a verdade irrefutável e absoluta dos fatos, sendo, ao contrário, e melhor dizendo, versões de uma mesma história que só ocorreu de forma verdadeira no momento em que os fatos se sucederam.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentre todas as ficções possíveis, ela optou por me contar justo aquela que eu esperava ouvir, aquela que eu decerto teria escrito, uma história envolvendo casamentos desfeitos, um amante sambista, um ex-marido fã de rock e uma criança entregue à adoção. O limbo dos dramaturgos frustrados devia estar rindo às bandeiras despregadas, como dizia o meu avô, diante da ingenuidade explícita demonstrada por este humilde escriba. E o pior é que eu simplesmente não tinha argumentos contra ela, eu colhi exatamente o que havia plantado, podia acusá-la de qualquer coisa, ainda que não soubesse exatamente do quê, menos de incoerência. Eu pedi uma história, ela me deu uma mentira, minha falha foi não ter especificado o tipo de história que desejava escutar, então eu não tinha do que reclamar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desculpa. A verdade é que eu nunca te amei. Por isso eu não queria que você se envolvesse demais e dissesse que me amava, porque eu jamais seria capaz de corresponder o teu sentimento na mesma medida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quanto a isso você pode ficar com a consciência tranqüila. Eu não sinto nada por você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia permanecido em silêncio, apenas escutando o que ela tinha pra me dizer, durante toda aquela conversa. Na primeira vez em que abri a boca, a única coisa que tive condições de dizer era uma mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nunca senti. O amor que julguei sentir por você jamais existiu. A ficção que construí pra você foi o amor que supostamente sentia, mas, no fundo, tudo não passou de uma história, não tão bem urdida quanto a sua, é verdade, mas ainda assim uma ficçãozinha muito bem engendrada, posto que durou mais do que a sua e demandou um esforço de desconvencimento muito maior.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na segunda (e última) vez também. Esse impulso parecia mais forte do que eu, e eu já não sabia mais o que estava a dizer. As palavras simplesmente saíam de forma descontrolada, imprevisível, seria um milagre se no final das contas as frases fizessem algum sentido, eu só queria sair dali o mais rápido possível, fugir o quanto antes, de volta para a segurança da minha solidão, de onde eu jamais deveria ter saído. E não deixava de ser reconfortante ouvi-la pedir desculpas por um erro que era meu, só meu, e de mais ninguém, muito menos dela. Afinal de contas, eu era um perdedor e um criminoso, na condição de perdedor e criminoso, tudo o que eu mais precisava era de um consolo que me permitisse deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir tranqüilo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;De repente, já não me importava com mais nada, se ela ficaria terrivelmente desapontada comigo e sairia dali diretamente para a ponte mais próxima, com a intenção de se atirar de lá, se passaria a noite inteira chorando debaixo dos lençóis e esvaziando vidros de remédio pra dormir, ou se, ao contrário, superaria a fossa rapidinho e se atiraria nos braços do primeiro vagabundo que cruzasse o seu caminho. Eu pouco ligava. Não podia continuar sustentando todo o peso do mundo nas minhas costas, muito menos carregar comigo os estilhaços de cada coração que estivesse se partindo naquele exato instante, ao longo de toda a extensão do maldito globo, e eles certamente eram muitos. Foi então que pus a minha jukebox imaginária para tocar “How to disappear completely” do Radiohead, that there, that’s not me, seu babaca egoísta, imaturo de merda, você pensa o quê, que o mundo gira em torno da porra do seu umbigo, é, sim, isso seria verdadeiramente incrível, i’m not here, this isn’t happening, pessoas como você merecem envelhecer e morrer sozinhas, num apartamento escuro, cercado de livros, discos e gatos sarnentos, com as janelas eternamente trancadas e dormir numa cama cheirando a mofo –  as últimas quatro condenações não foi ela quem disse, fui eu que inventei e acrescentei à condenação inicial, essa sim, verbalizada por ela, porque se é para envelhecer e morrer sozinho num apartamento escuro, que pelo menos essa decadência decrépita possa ser vivida com algum estilo, i’m not here, i’m not here, então ela jogou uma nota de vinte sobre a mesa, bem em cima da bandeja do aipim, e enquanto a nota der vinte ia sendo progressivamente tomada pela gordura, ela se levantou, disse some da minha vida e foi-se embora. Paguei nosso aipim e meus chopes com os vinte reais dela, e ainda fiquei com seis reais e cinqüenta de troco. Doei o dinheiro para o mendigo mais próximo e fui pra casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111050077433525583?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111050077433525583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111050077433525583' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111050077433525583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111050077433525583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/03/this-is-not-love-song-16.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #16'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-111021217614859493</id><published>2005-03-07T12:15:00.000-04:00</published><updated>2005-03-07T12:16:16.166-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #15</title><content type='html'>“Não quero mais amar a ninguém/ Não fui feliz, o destino não quis/ O meu primeiro amor/ Morreu como a flor ainda em botão/ Deixando espinhos que dilaceram meu coração/ Semente de amor sei que sou desde nascença/ Mas sem ter vida e fulgor, eis minha sentença/ Tentei pela primeira vez um sonho vibrar/ Foi beijo que nasceu e morreu sem se chegar a dar/ Às vezes dou gargalhada ao lembrar do passado/ Nunca pensei em amor, nunca amei nem fui amado/ Se julgas que estou mentindo, jurar sou capaz/ Foi simples sonho que passou e nada mais.” (Paulinho da Viola)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[A faixa #15 de “This is not a love song” é composta por uma digressão de dois parágrafos sobre Fellini, um parágrafo que serve de justificativa para os dois parágrafos anteriores e o restante do texto, que é o que realmente importa, ou pelo menos eu espero que importe. Enfim. Os que não desejarem encarar os dois parágrafos de digressão mais a justificativa devem se encaminhar diretamente para o parágrafo 4, sem prejuízo algum para a compreensão do restante do texto]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca fui um grande fã de Fellini. De todos os cineastas considerados essenciais pela crítica bem pensante, Fellini é o único cuja suposta grandeza eu jamais consegui alcançar. Sou capaz de encarar um Bergman depois do almoço sem padecer de nenhuma congestão ou algo do gênero, mas o gênio de Fellini nunca me comoveu da mesma forma que um Ettore Scola ou um Nanni Moretti, só pra citar dois dos meus cineastas italianos favoritos, a título de exemplo. E eu já vi uma quantidade razoável de filmes de Fellini para poder afirmar, de forma categórica, que não gosto dele, o que em outras circunstâncias poderia levar alguns fãs mais extremados a atribuir minha falta de simpatia por Fellini ao fato de ter visto poucos filmes, ou os filmes errados – não conheço um fã de Fellini que goste de “Casanova” – ou ainda ter visto os filmes certos mas no momento errado, como no dia em que aluguei “A doce vida” e dormi na metade da segunda fita porque estava morrendo de dor de cabeça e achando aquele papo existencial extremamente tedioso. Quando consigo gostar de algum filme de Fellini – e confesso nutrir uma certa simpatia por “Roma”, “Os boas vidas” e “Noites de Cabíria”, que tem roteiro do Pasolini e vai ver é bom justamente por causa disso – são os detalhes estúpidos e os momentos mais bobos que me atraem: em “Amarcord”, por exemplo, você até pode achar genial e poética a seqüência do transatlântico navegando no mar de celofane, a partitura do Nino Rota ou a transa bizarra entre o protagonista do filme e a vendedora da tabacaria, mas meu momento favorito de “Amarcord” é qualquer cena estrelada por aquele velhinho tarado que fica relembrando suas estripulias sexuais de juventude diante da família. Me escangalho de rir quando ele diz “Porque no meu tempo, com a sua idade, eu estava ó, pppppfffffiiiiiiuuuuu”, e aí ele dá um assobio e movimenta o punho cerrado para cima e para baixo, haha, é a melhor coisa do filme e a melhor coisa que Fellini foi capaz de oferecer à Sétima Arte em toda sua carreira. Um momento verdadeiramente antológico da história do cinema!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na maior parte do tempo, sinto que meu brado anti-Fellini não atinge ninguém a não ser eu mesmo. Os cinéfilos – e como eu odeio essa expressão, tão desprezível quanto “cinema de arte” ou “filme cult” – continuam achando Fellini genial e eu continuo sem entender o porquê. Só depois de um tempo eu comecei a perceber que o problema não era comigo – não era eu o incapaz de perceber a genialidade de Fellini, talvez Fellini é que não fosse tão genial assim, apenas mais um caso de cineasta superestimado, sei lá. Até arranjei uma expressão que define bem o caso de diretores como Fellini – a Herança Maldita da Teoria do Autor. Quando os franceses, lá na longínqua década de 50, afirmaram coisas como “o autor de um filme é seu diretor” ou “qualquer filme ruim de um autor é superior ao melhor filme de um cineasta medíocre”, eles não imaginavam o mal que isso ia causar às gerações futuras. Porque a Teoria do Autor, naquela época, tinha uma razão de ser, era um grito eminentemente político e de cunho geracional contra o modelo cinematográfico hegemônico, quer dizer, fazia sentido. Hoje em dia, a maioria dos – ugh – cinéfilos usa a Teoria do Autor para justificar o fato de ter gostado de um filme ruim, porém dirigido por um cineasta de renome. Ninguém me convence, por exemplo, e só para retornar à questão-Fellini, que “Cidade das mulheres” é um bom filme. Além de ser mal dirigido e enfileirar um clichê atrás do outro, “Cidade das mulheres” é descaradamente machista, e quando eu vejo um filme de Fellini que reduz as personagens femininas à condição de objeto, eu só consigo sentir pena da pobrezinha da Giulieta Massina, que passou sei lá quantas décadas casada com aquela criatura. Então diante de um filme como “Cidade das mulheres”, “A voz da lua”, “Ginger e Fred” ou tantos outros maus momentos de Fellini, qualquer crítico de cinema razoavelmente lúcido teria peito para reduzir o filme à mediocridade que lhe convém, não fosse por um pequeno detalhe: a assinatura do autor. A assinatura do autor torna tudo válido, legitima os deslizes, obscurece os pecados e transforma qualquer bobagem sem sentido e irrelevante numa “experiência singular” cuja fruição só é plenamente permitida aos cinéfilos já iniciados nos mistérios do culto àquele autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vocês devem estar achando que os parágrafos anteriores ou foram escritos sob o efeito de alguma droga pesada ou constituem mais uma das minhas famosas e intermináveis digressões. Não tiro a razão de quem acha isso, principalmente no que diz respeito ao ponto 2, que não deixa de ser parcialmente verdadeiro. A boa notícia para os leitores mais impacientes é que a digressão me permitiu chegar exatamente onde eu queria, e no final vocês vão ver – ou pelo menos assim espero – que tudo vai se encaixar e fazer o maior sentido. Àqueles que fizeram questão de me acompanhar até aqui, meus sinceros agradecimentos. Tudo isso não passou de um prólogo. O capítulo #15 de “This is not a love song” começa efetivamente agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de não gostar de Fellini e, portanto, como uma espécie de prolongamento natural e incontestável deste desgosto, considerar “Oito e meio”, sua dita obra máxima, um filme absolutamente chato e pretensioso, acho a seqüência final de “Oito e meio” maravilhosa e genial – e não, isso não foi uma piada, o que me faz lembrar de um amigo meu que afirmou certa vez “Sim, a seqüência final de “Oito e meio” é maravilhosa, principalmente porque depois dela o filme acaba”. Só acho uma pena que uma cena tão bacana seja antecedida por desnecessários 130 minutos de tédio, então se por um desses mistérios insondáveis da natureza o meu comentário fez você sentir vontade de alugar “Oito e meio”, recomendo que você apenas leia a contracapa da fita ou DVD, que contém todas as informações que você precisa saber sobre o filme, dê um fast forward no seu aparelho e vá direto para a seqüência final. Te garanto que você não vai perder nada. E o risco de você deixar a seqüência final passar em branco graças ao cochilo que os incontáveis minutos anteriores certamente induzirão você a tirar é praticamente nulo. Enfim, é só uma dica. Siga-a, se você quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, a seqüência final de “Oito e meio” é uma das melhores metáforas para a morte já concebidas em cento e poucos anos de cinema, ou pelo menos eu imagino que seja exatamente aquilo que aconteça no instante infinitesimal entre o primeiro beijo da morte e o último sopro da vida. Como não conheço ninguém que tenha passado por experiência semelhante e depois voltado para contar, vou ter que bater as botas primeiro para só depois confirmar minhas expectativas, mas enquanto isso não acontece, nada me impede de continuar especulando a respeito e imaginando a minha morte como a seqüência final de “Oito e meio”. Eu só faria questão de substituir a orquestra circense por uma banda de rock, mas fora esse pequeno detalhe, o espírito da cena permaneceria rigorosamente o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(O que acontece com o protagonista de “Oito e meio”? Em linhas gerais, ele é um sujeito que jogou a vida inteira na privada e puxou descarga. Fez tudo errado. Não conseguiu administrar sua relação com a esposa e a amante. Foi incapaz de tocar adiante a produção de seu último filme por causa de um bloqueio criativo. Vive atormentado pelas lembranças da infância. Quando não agüenta mais a situação, mete uma bala na cabeça e dá uma banana pro mundo.) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vida e morte são como dois enfermeiros responsáveis por um determinado paciente em um determinado hospital, a primeira sendo encarregada do turno da noite e a segunda do turno do dia, e a estadia do paciente no hospital dura cerca de 24 horas, o tempo da existência. Na hora em que as duas decidem trocar de turno, existe sempre um breve instante durante o qual o paciente – que sou eu, você e o resto do mundo – fica desacompanhado, e é nesse instante em que se dá a seqüência final de “Oito e meio”. No intervalo compreendido entre a partida definitiva da Vida e a chegada irreversível da Morte, Id, Ego e Superego também saem para tomar um café e você se sente livre, como se tivesse controle total sobre os eventos de sua vida pregressa, e fosse capaz de consertar tudo aquilo que você fez de errado, superar mágoas, semear a concórdia, assumir o comando do barco, escolha a analogia que melhor lhe convier. O protagonista de “Oito e meio”, um cineasta, muito apropriadamente toma um megafone das mãos e começa a dirigir todas as pessoas que fizeram parte de sua vida, organizando uma monumental ciranda conciliatória inteiramente comandada por ele. Aquilo a que Machado de Assis se referia ao dizer que o protagonista de “Dom Casmurro” pretendia “atar as duas pontas da vida”, Fellini obriga seu personagem a fazer. É perfeito. É como se, por mais que a sua vida tenha sido uma perda de tempo irremediável, sempre haverá o consolo desse instante pré-morte da consciência durante o qual você tem o controle sobre todos os eventos e pessoas que fizeram da sua vida um Inferno – ou um Purgatório, na melhor das hipóteses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então quando eu morrer, eu quero ter a chance de fazer isso, reunir pai, mãe, avós de ambos os lados, meus dois melhores amigos, desafetos, ex-namoradas, colegas, conhecidos, paixões platônicas da época de colégio, todos os gatos que já tive, o cachorro que me mordeu aos nove anos, o bate-bola que me assustou e fez eu derrubar o meu sorveve quando eu tinha seis, e desde então eu passei a abominar o Carnaval, professores do Jardim de Infância à Pós-Graduação, vizinhos, funcionários dos correios que me davam presentes na antevéspera do Natal, tios que eram chamados de tios por pura cortesia, já que não eram irmãos dos meus pais, porque meus pais não tinham irmãos, os irmãos que eu não tive porque faleceram antes de completar um mês de vida, minha única prima, de quarto grau, a quem odeio com todas as minhas forças, o sujeito que me emprestou a fita cassete do “ Dark side of the moon” e me fez enxergar a luz, todos os que me viram sorrir e chorar, e chorar, os que provocaram as lágrimas e os sorrisos, e também gostaria que ela estivesse lá, ela que eu não sei exatamente como classificar, se ex-namorada, se paixão platônica, ainda que concretizada, embora não concretizada da maneira que eu gostaria, se desafeto, se amiga, se calvário, se tudo isso e mais alguma coisa que, no momento, ainda não sei bem o que é. E ela vai entrar no meio da roda, e chamar a atenção de todos, e dançar como se estivesse possessa ao som de “Love will tear us apart” ou “Special K”, você escolhe, e então nessa hora e vou subir no palco e me preparar para o derradeiro stage diving, mas quando eu saltar na direção dela, ela certamente irá se afastar, o choque da minha cabeça com o chão de terra batida me despertará do devaneio, eu morrerei e ponto final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu percebo uma série de semelhanças entre a morte de um relacionamento e a Morte biológica, com M maiúsculo. Acho que tanto numa quanto noutra existe o supracitado instante pós-término durante o qual é possível reconstruir o passado e recriar a história de uma forma totalmente nova, feito o Marcello Mastroianni no final de “Oito e meio”. Assim como ninguém gostaria de morrer com a sensação de que desperdiçou a própria vida, eu não quero terminar um relacionamento me sentindo culpado pelos rumos catastróficos que as coisas tomaram, ainda que, no final das contas, a culpa tenha sido toda minha mesmo. é preciso sair com as mãos limpas, o coração puro e a consciência tranqüila, nem que para isso você tenha de se convencer de uma série de coisas, esquecer outras tantas, distorcer o significado de gestos e palavras e assumir uma inocência que, na maioria das vezes, é puro fingimento. Mas se o amor, desde o princípio, nasce como uma ficção inventada pela sua cabeça, o que há de errado em se sustentar esse caráter ficcional do amor mesmo depois que ele acaba? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A culpa é um sentimento engraçado. Conheço pessoas que jamais se sentem culpadas em relação a qualquer coisa. Essas pessoas são capazes de cometer o mais hediondo e injustificável dos crimes e, ainda assim, continuarem se julgando inocentes, graças a um sofisticado sistema de auto-convencimento à prova de culpa. A culpa é uma fronteira que cada um estabelece para si próprio, só que algumas pessoas possuem fronteiras mais flexíveis do que as outras. Quando o crime em questão diz respeito à própria pessoa, a fronteira tende a ser deslocada para a frente, como forma de expulsar o referido crime da porção territorial reservada à culpa. Quando o crime diz respeito a qualquer outra pessoa que não a própria, geralmente acontece o inverso: desloca-se a fronteira um pouquinho para trás, e aí qualquer mínima derrapada que a outra pessoa cometa se torna um crime inafiançável. Agir dessa forma é bastante cômodo, porque te permite, ao mesmo tempo, se livrar de qualquer responsabilidade pelo sofrimento alheio (“Afinal de contas, eu não tive culpa...”) e emitir julgamentos em relação ao comportamento dos outros com aquela pseudo-superioridade típica dos covardes arrogantes, porque, no fundo, é isso o que eu sou, um covarde arrogante prestes a meter os pés pelas mãos e cometer uma tremenda besteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte ao nosso retorno de Friburgo, minha mãe teve uma crise e precisou ser internada às pressas. Foi estranho, porque me deu a impressão de que ela só estava esperando eu voltar de viagem para ir pro hospital. Até pensei que a tal crise, no final das contas, não passasse de um surto jocastiano tardio, já que eu havia ido para Friburgo na companhia de uma garota que eu conhecia há menos de duas semanas, e nós certamente faríamos sexo, e isso era algo que a mentalidade católica-fundamentalista da minha mãe era incapaz de aceitar. O fato é que minha mãe baixou no hospital no dia seguinte ao meu retorno, e essa era a desculpa que eu precisava para me afastar dela por alguns dias e refletir sobre nossa situação. Deus que me perdoe, mas cheguei a me sentir levemente feliz pela internação da minha mãe. Virar as madrugadas numa enfermaria, conferindo o nível do soro de cinco em cinco minutos e levando minha mãe ao banheiro a cada meia hora era exatamente o tipo de fuga de que eu precisava no momento. Eu odeio tomar decisões por impulso, então necessitava de todo o tempo do mundo para evitar uma catástrofe. Ela ligava para o meu celular várias vezes durante a noite, e eu deixava as mensagem se acumularem na minha caixa-postal. Depois de uns cinco dias no hospital é que lhe mandei uma mensagem de texto explicando o que havia acontecido com a minha mãe, e que, em virtude disso, ficaria fora do ar por algumas semanas. Óbvio que, menos de uma semana depois de ter enviado a tal mensagem, minha mãe recebeu alta e voltou pra casa, mas eu fiz questão de manter as coisas rigorosamente como estavam, porque a verdade é uma questão de referência e, para ela, a verdade é que minha mãe continuava no hospital, seu estado era delicadíssimo e eu precisaria ficar cuidando dela por um bom tempo, ou pelo menos foi isso que escrevi no e-mail que lhe enviei cerca de quinze dias após o retorno da minha mãe. Ela desconhecia meu endereço, e essa foi a única vantagem que consegui extrair do nosso pacto de silêncio, até que, passados mais de 30 dias do nosso último encontro, ela telefonou para a minha casa e eu cometi a estupidez de atender. Do outro lado da linha, ela ficou em silêncio por uns quarenta segundos, então achei por bem esclarecer as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu ia te ligar. Minha mãe recebeu alta ontem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive vontade de vomitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como ela está?”&lt;br /&gt;“Bem...”, eu respondi, e me senti mal, muito mal, porque ela realmente acreditava que minha mãe continuara internada durante todo aquele tempo. Julguei que ela pelo menos desconfiasse da minha mentira, porque eu sou um péssimo mentiroso, mas a pergunta dela foi tão sincera que eu eliminei de imediato qualquer possibilidade de desconfiança. Então percebi que seria impossível contornar aquele problema por muito tempo, “A gente precisa conversar”, eu disse.&lt;br /&gt;“Eu sei”, foi a resposta, seca, direta e incisiva como nos velhos tempos.&lt;br /&gt;“Então quando?”&lt;br /&gt;“Não sei.”&lt;br /&gt;“Amanhã. Pode ser?”&lt;br /&gt;“Pode.”&lt;br /&gt;“Tá bom. A gente se encontra no CCBB, tá bom pra você?”&lt;br /&gt;“Aham.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu desliguei, e foi o pior diálogo que já travei ao telefone com alguém em toda a minha vida. Ao longo de toda aquela noite, tentei empurrar a fronteira da minha culpa algumas léguas para a frente, mas o meu esforço foi inútil, porque a fronteira, de uma hora para outra, parecia ter ficado irredutível, e a cada movimento que eu fazia a minha culpa apenas aumentava, eu me sentia cada vez mais culpado por tudo o que havia acontecido entre a gente. Infelizmente, para que as coisas se revertessem, seria preciso que alguém viesse formatar o meu HD e reinstalasse tudo de novo, o que me tornaria uma pessoa completamente diferente da que eu sou hoje, e eu acho que isso deve ser praticamente impossível. Várias pessoas tentaram desaparafusar a minha torre e mudar a configuração interna do meu PC, mas o máximo que essas pessoas conseguiram foi tomar um baita choque. Eu estava diante de um paradoxo dos bons: havia conquistado o amor dela sendo do jeito que eu sou; para continuar junto dela, entretanto, eu precisaria mudar o meu jeito de ser, porque o princípio fundamental do meu jeito de ser ia de encontro ao princípio fundamental do jeito de ser dela. Quando isso acontece entre duas pessoas que julgam se amar, é um problema. Se eu me submetesse ao processo de desconfiguração, certamente deixaria de amá-la. Ao contrário, se mantivesse a configuração atual, quem deixaria de me amar seria ela. Das duas alternativas, a segunda me parecia ser a única da qual minha identidade sairia intacta, ainda que as perdas – no caso, o amor dela – fossem consideráveis. Você até pode achar que eu estou sendo egoísta, mas – acredite em mim – quando você chegar no final da sua vida, a última coisa que você vai querer descobrir é que sua identidade foi reduzida a estilhaços após décadas e mais décadas de renúncias e concessões. Aí não vai ter Fellini, circo ou ciranda que conserte o estrago. Quando deitei a cabeça no travesseiro, sabia exatamente que decisão deveria tomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-111021217614859493?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/111021217614859493/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=111021217614859493' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111021217614859493'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/111021217614859493'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/03/this-is-not-love-song-15.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #15'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110985099402956251</id><published>2005-03-03T07:54:00.000-04:00</published><updated>2005-03-03T07:56:34.056-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #14</title><content type='html'>“This is our last goodbye/ I hate to feel the love between us die/ But it's over/ Just hear this and then I'll go :/ you gave me more to live for,/ more than you'll ever know./ This is our last embrace,/ must I dream and always see your face/ Why can't we overcome this wall/ Baby, maybe it is just because I didn't know you at all.” (Jeff Buckley)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa estadia no apartamento de Friburgo durou três dias. O primeiro dia foi, sem favor algum, um dos mais felizes de toda a minha vida: mais feliz do que quando tive a oportunidade de ver, ao vivo e a poucos metros diante de mim, a Beth Gibbons do Portishead fazendo um cover de “Candy says” do Velvet Underground; mais feliz do que no dia em que reencontrei uma menina por quem era apaixonado na época do ginásio, e a quem não via há mais de cinco anos; mais feliz do que na primeira vez em que fui ao cinema ver “Almost famous”; mais feliz do que na noite de sábado em que descobri a existência dos nachos com cheddar; mais feliz do que quando passei no Vestibular ou fui admitido na Pós-Graduação;  mais feliz do que no pré-reveillon que passei na praia, virando a madrugada na companhia dos meus dois melhores amigos; mais feliz do que no dia em que encontrei o “Get happy!” do Elvis Costello à venda por 10 reais; mais feliz do que quando terminei de ler “Alta fidelidade”; mais feliz do que no dia em que o médico garantiu que o câncer da minha mãe havia praticamente desaparecido (ainda que ele retornasse triunfalmente poucos meses depois); mais feliz do que quando ouvi um “Eu também” como resposta a um “Eu te amo”, depois de anos e anos acostumado a ouvir “Mas eu não” no lugar do “Eu também”. Nós éramos capazes de passar o dia inteiro não fazendo absolutamente nada, apenas bebendo cerveja, ouvindo música, contando piadas sem graça, tudo isso com pouquíssima roupa e muitos beijos. E o fato de ela morrer de rir a cada piada sem graça que eu contava tornava nossa experiência pré-conjugal duplamente satisfatória. Vez por outra, tirávamos no cara e coroa quem desceria para comprar mais cervejas. Ela sempre arranjava um jeito de trapacear, não sei muito bem como, talvez ela tivesse um ímã implantado na palma da mão esquerda e eu não soubesse disso. Enfim: o fato é que eu era obrigado a me vestir, descer, comprar as cervejas e voltar carregando em torno de vinte garrafas de cerveja escadaria acima, o que não me incomodava nem um pouco. Ela era divertidíssima bêbada. Depois de cinco cervejas, o álcool parecia transfigurar seu rosto, os olhos assumiam um brilho entre o satânico e o divino, ela começava a dançar feito uma freira possuída pelo demônio naquele livro do Huxley, derramava cerveja pela sala, xingava Deus e o mundo, jogava cerveja em mim, e pronto: havíamos arranjado um excelente pretexto para tomar outro banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo dia, descobrimos que estávamos sem grana. Nossas economias haviam sido convertidas (muito bem convertidas, diga-se de passagem) em lúpulo e cevada. Por sorte, encontrei uma nota de vinte devidamente escondida no bolso de trás da minha calça pela santa mulher de Deus que era a minha mãe. Dava pra garantir a passagem de volta, pensei, mas vai ser dureza encarar mais 24 horas nesse apartamento sem um gole de cerveja. Então decidi vasculhar o apartamento da sujeita à procura de dinheiro. A princípio, ela ficou ligeiramente espantada com a minha decisão: felizmente (para nós), o surto ético dela durou menos de vinte segundos. Passamos boa parte da tarde do segundo dia abrindo gavetas, colocando a mão em bolsos e bolsas, revirando caixas, vasos de planta, potes de biscoito, vidros vazios de creme hidratante, pacotes de comida de gato (só não encontramos o bicho que teoricamente devia comer aquela comida, então aproveitei a deixa para experimentar um punhado de ração – decidi que, em último caso, comeríamos a comida do gato caso faltasse grana pro macarrão instantâneo, era só fechar os olhos e se imaginar diante de uma tigela de sucrilhos), levantando tapetes, quadros, ladrilhos soltos, espiando nas frestas do assoalho, até que finalmente ela se deparou com um pequeno baú escrito “contas a pagar” na gaveta onde a dona da casa guardava seus livros de terapia sexual. Como a gente não pensou nisso antes, foi o que me ocorreu. Havia cerca de duzentos reais presos por um elástico amarelo e fedorento, que arrebentou quando tentamos desatá-lo para conferir os lucros da nossa pilhagem. No mesmo instante, desci até a mercearia e resolvi comprar o vinho que havia chamado nossa atenção no dia em que chegamos na cidade. Se eu disser pra vocês que me senti terrivelmente culpado e com uma dor profunda na consciência por ter roubado nossa anfitriã, estarei mentindo. Talvez o melhor remédio para vencer neuroses decorrentes da nossa mentalidade judaico-cristã seja mesmo a disposição para enfiar o pé na jaca. Mais cedo ou mais tarde, a neura desaparece. Oscar Wilde estava coberto de razão quando disse aquelas coisas sobre as tentações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi no terceiro dia que a coisa toda começou a se foder, e a culpa, juro por Deus, foi do Paulinho da Viola. Foi ele quem começou a confusão. Depois daquele dia, nunca mais fomos os mesmos, seja em Friburgo ou no Rio, tanto que decidimos arrumar as malas e cair fora. Tudo bem que a questão financeira também pesou: de repente, ela ficou sem graça de continuar passando a mão no dinheiro da amiga, até porque no dia em que ela retornasse ao apartamento, ia ser chato abrir o baú das contas a pagar e encontrar apenas moedas de vinte e cinco centavos. Até poderíamos acusar o gato dela pelo roubo do dinheiro, mas infelizmente a gente jamais deu de cara com o bichano, o que era particularmente estranho, já que a despensa estava entulhada de Whiskas. Vai ver ela tinha o péssimo hábito de alimentar com ração o Garfield gigante de pelúcia que continuava me encarando do alto do armário. É bem capaz de esse puto denunciar a gente, pensei. Então paramos de saquear a gaveta da sujeita. Também desistimos de procurar pelo gato. Chegamos à conclusão que se tratava de um não-gato, que nem o papagaio daquele esquete clássico do Monty Python.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havíamos acabado de acordar. Decidimos tomar um banho e só depois comer alguma coisa. Eram quase três da tarde, e eu estava com uma tremenda dor de cabeça. Enquanto ela terminava de se enxugar, decidi colocar música pra tocar enquanto preparava um lanche para forrar nossos estômagos cirróticos. O fato é que eu estava imbuído de um espírito diplomático naquele dia, então dei um tempo nos meus CDs de rock e procurei, na prateleira de discos da anfitriã, algo que a redimisse perante meu julgamento xiita e preconceituoso. Dei de cara com uma coletânea dupla do Paulinho da Viola. Legal, pensei. Botei o disco pra tocar e voltei pra cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, enquanto cozinhava o macarrão e tentava arriscar um molho de tomate e salsa para dar um toque pessoal à refeição, comecei a fazer um esforço sobre-humano para lembrar da letra de “Thunder road”, do Bruce Springsteen. É uma ótima forma de passar o tempo, eu garanto, e se você estiver sem sono, é melhor do que contar carneirinhos ou qualquer estupidez do gênero. A letra de “Thunder road” é quilométrica. Quando você tem 12, 13 anos, o desafio supremo nessa área musical é decorar os versos de “Faroeste caboclo”, certo? Pois bem, uma vez que você cumpra essa tarefa satisfatoriamente, é hora de aumentar o grau de dificuldade, então você faz o quê? Tenta decorar a letra de “Thunder road”. Eu nunca consegui decorar a letra de “Thunder road”, tenho inveja de uma amiga minha que consegue cantar a música de ponta a ponta (razoavelmente bem, por sinal) sem consultar o encarte do disco. Fiquei tão absorto pela tarefa que me esqueci completamente da minha companheira. Desliguei o fogão, terrivelmente frustrado por não ter conseguido passar do primeiro refrão de “Thunder road”, e fui procurá-la. Ela estava na sala, toda encolhida no sofá, ainda enrolada na toalha molhada, e chorando. Chorando muito, por sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que foi?”, eu perguntei, e estava assustado.&lt;br /&gt;“Nada.”&lt;br /&gt;“Fala.”, eu insisti.&lt;br /&gt;“Tira a música, por favor.”&lt;br /&gt;“Eu pensei que você fosse gostar do Paulinho da Viola. Botei o CD pra te fazer uma surpresa. Viu, eu não escuto só rock’n’roll?”, e emendei o último comentário com um sorrisinho idiota, posto que não surtiu nenhum efeito. Me ajoelhei ao lado dela.&lt;br /&gt;“Eu não gosto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então levantei pra tirar o CD. Para o meu azar, justo na hora em que eu ia desligar o som – não lembrava onde tinha enfiado a caixa do disco – começou a tocar aquela “Meu tempo é hoje”, em que ele diz “Quem quiser gostar de mim, eu sou assim”, e eu adoro essa música. Voluntariamente, diminuí o ritmo dos meus passos, para ter a chance de ouvir pelo menos a primeira estrofe da canção. Foi o primeiro de muitos erros que cometi naquela tarde. Culpa de quem? Do Paulinho da Viola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tira essa porra desse CD!”, ela gritou.&lt;br /&gt;“Eu já vou tirar. Fica calma.”, então parei por uns instantes, e novamente me vi satisfazendo cegamente as vontades dela, e me desesperando à toa, e aceitando uma culpa que eu nem sabia se possuía mesmo ou, ao contrário, se era a Síndrome de Jesus Cristo voltando com força total. Achei por bem não levar isso adiante. “Não. Eu só desligo se você me explicar o que tá acontecendo.”&lt;br /&gt;“Eu tô te pedindo pra desligar a música!”&lt;br /&gt;“Eu não vou desligar até que você me conte.”&lt;br /&gt;“Eu não tenho nada pra dizer.”&lt;br /&gt;“Então você costuma cair em prantos assim, do nada, toda vez que uma música que você odeia começa a tocar? Se eu soubesse mais sobre os seus gostos musicais, provavelmente não teria botado o Paulinho da Viola. E se eu soubesse mais sobre você, sobre a sua vida, eu saberia o que está te fazendo chorar, e poderia tentar de ajudar de alguma forma!”&lt;br /&gt;“Eu não preciso de ajuda. Só quero que você tire a música. É tão difícil pra você deixar de agir única e exclusivamente de acordo com a sua vontade, pelo menos uma vez na vida?”&lt;br /&gt;“Como se fosse a primeira vez...”&lt;br /&gt;“Do que é que você tá falando? Tira essa música, por favor.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava a poucos centímetros do aparelho. Fiz menção em apertar o stop, mas acabei desviando o dedo para o fast forward, um, dois, três quatro, foi quando começou a tocar “Coração leviano”. Não satisfeito em ter desobedecido às ordens dela, ainda por cima aumentei o volume. Ela levantou do sofá e me deu um tapa na cara. Ficou por uns segundos parada na minha frente, sem dizer nada, até que ela se deu conta do que tinha feito e saiu correndo para o quarto. Fui atrás dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que você é tão escroto comigo?”&lt;br /&gt;“Eu só quero que você me conte porque você ficou desse jeito. Só isso. É tão difícil pra você confiar em mim?”, arrematei, consciente de que a melhor maneira de encurralar uma pessoa durante uma discussão é pegar determinada frase que a outra pessoa disse anteriormente e adequá-la aos meus propósitos.&lt;br /&gt;“É tão difícil pra você entender que eu não quero falar sobre isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viram? Tanto funciona que eu fiquei sem saber o que dizer. Hora de improvisar, pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Em algum momento da sua vida, você deve ter se apaixonado profundamente por um fã de Paulinho da Viola. Só que o cara te enrolou, disse as coisas mais incríveis só pra te levar pra cama, trepou contigo e depois te largou, e agora você ouve o Paulinho e se lembra de tudo que deu errado na sua vida, e de todos os planos que você fez com esse sujeito e que não se concretizaram. Hein? Eu tô delirando? Aposto que “Meu tempo é hoje” era a favorita dele.”&lt;br /&gt;“Cala a boca, e tira essa porra desse CD.”&lt;br /&gt;“Tira você.”, e continuei, “No fundo, a gente é igualzinho. A gente reage às situações da mesma forma.”&lt;br /&gt;“A gente não é igualzinho porra nenhuma. Você não me conhece.”&lt;br /&gt;“Você não deixa eu te conhecer. Você tem medo de me contar sobre a sua vida, e descobrir que a gente encara a vida da mesma forma, porque isso te faria acreditar que a gente foi feito um para o outro, e a simples possibilidade de você viver uma situação concreta que pareça se encaixar na definição abstrata de amor que você criou na sua cabeça te deixa apavorada.”&lt;br /&gt;“E quem me proporcionaria isso? Você?”&lt;br /&gt;“É dessa possibilidade que você tem medo. Sem essa definição abstrata de amor, sem esse Amor perfeito que você criou na sua cabeça, você ficaria perdida. Então você precisa preservar esse Amor abstrato como forma de se proteger do amor que as pessoas podem te oferecer.”&lt;br /&gt;“Amor, amor, amor. Quem tá falando de amor aqui?”&lt;br /&gt;“Eu tô.”, a pausa providencial e..., “Porque eu te amo, porra, você não entende?”&lt;br /&gt;“Você me ama? Você me prometeu que nunca...”&lt;br /&gt;“Eu não te prometi nada. E as coisas que eu te prometi, eu sei que não vou ser capaz de cumprir, porque...”, juro que não achei complemento melhor para arrematar a frase. Já estava fodido mesmo, então não tinha porque medir as palavras. “Porque eu sou assim. Se você quiser gostar de mim, eu sou assim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me encarou com o olhar mais cruel que já repousou sobre mim em vinte e tantos anos de vida, mais até do que o olhar do meu pai antes de descer o braço na minha carcaça por causa de um carrinho de plástico que me atraiu certa vez, quando fomos ao supermercado, e que eu cismei de levar pra casa. Aquela surra em público bastou para que jamais voltasse meus olhos para qualquer outro brinquedo em exposição nas gôndolas de um supermercado, e mesmo depois de velho, quando vejo na televisão uma propaganda das Casas Sendas, ou quando estou andando de trem e testemunho a súplica insistente de uma criança para que o pai aceite comprar um daqueles brinquedos de três-por-um-real que volta e meia a gente vê sendo vendidos nos trens, eu sinto um aperto no coração e uma vontade danada de chorar porque me lembro daquele dia. É impossível se livrar da memória. A gente tenta, mas não consegue. A memória está sempre a espreita, aguardando por uma oportunidade de esfregar nas nossas caras as evidências do nosso fracasso como seres humanos, e não há como lutar contra isso. A minha companheira achava que o simples fato de manter essas memórias ocultas, inconfessáveis, bastava para aquietá-las, mas tudo o que ela conseguia com isso era se enganar e machucar os outros, principalmente aqueles que não podiam viver sem ela, o que era de um sadismo ímpar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nunca diga que me ama. Nunca.”&lt;br /&gt;“Eu não vou mentir pra você. E nem pra mim mesmo.” &lt;br /&gt;“Claro. Principalmente para você mesmo. Você não me ama. Você ama a possibilidade de me amar, é totalmente diferente. Você quer me amar, mas não consegue, porque eu represento um grande mistério pra você. Você não sabe nada sobre mim. Eu conheço o tipo de amor que pessoas como você são capazes de oferecer. Um amor capaz de satisfazer às tuas expectativas, um amorzinho punheteiro, egoísta, em que você diz que ama a outra pessoa só pra ouvir da outra pessoa que ela também te ama, como se isso bastasse, como se isso não estivesse sendo dito da boca pra fora. É por isso que eu não quero que você diga que me ama. Porque eu não quero esse tipo de amor.”&lt;br /&gt;“Claro. Porque o tipo de amor que você quer é o Amor com A maiúsculo que você concebeu na sua cabeça. Um amor frankenstein feito de retalhos, dos escombros dos amores que você viveu e deram errado. O seu amor ideal é aquele que você nunca viveu e jamais irá viver, simplesmente porque quando você começa a amar, você foge, e se esconde, e tenta se convencer de que o amor não é aquilo que você tá vivendo, mas uma definição abstrata que você guarda a sete chaves numa torre de marfim impenetrável, o que eu tô te pedindo são as chaves dessa torre, eu quero te amar, é tudo o que eu te peço.”&lt;br /&gt;“Viu? Você quer me amar. As suas palavras dizem tudo. Você querer me amar significa que você não me ama. O seu amor também não surge espontaneamente dos seus atos. Ele vem de uma idéia pré-concebida que você, à sua maneira, também construiu na sua cabeça.”&lt;br /&gt;“Mas você age exatamente da mesma forma!”&lt;br /&gt;“Mas eu assumo! Eu assumo, enquanto você disfarça e distorce essa sua idéia de amor em palavras que não significam nada. Quando você diz que me ama, por exemplo. Você não me ama.”&lt;br /&gt;“Por que o amor que eu te ofereço não se adequa ao amor que você concebeu como sendo perfeito? Ou é justamente pelo fato de ele se adequar que você foge dele?”&lt;br /&gt;“Se o seu amor se adequasse ao meu amor, você não insistiria tanto para saber sobre o meu passado, simplesmente porque na minha concepção de amor, isso não é necessário.”&lt;br /&gt;“Pelo visto, eu não sou o único aqui que busca extrair do amor uma adequação às próprias expectativas. Você é tão egoísta quanto eu. A diferença é que o seu discurso é mais bonito, mas no fundo a gente tá falando da mesma merda: medo de amar. Eu quero saber sobre a vida que você viveu antes de me conhecer porque tenho medo de repetir os erros do passado, e me envolver por alguém que vá me decepcionar no futuro. Você, ao contrário, não quer me contar sobre a sua vida porque existe alguma coisa no seu passado que pode me afugentar, e você tem medo de me afugentar porque você me ama.”&lt;br /&gt;“Eu não te amo.” &lt;br /&gt;“Prova!”&lt;br /&gt;“Como assim?”&lt;br /&gt;“Casais geralmente pedem provas de amor. Eu quero o contrário. Quero que você prove que não me ama.”&lt;br /&gt;“Fácil. Eu vou embora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se levantou da cama, e parecia decidida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não me convenceu.”&lt;br /&gt;“Claro. Eu ainda não fui...”&lt;br /&gt;“Não, não me convenceu porque o fato de você ir embora não me prova absolutamente nada.”&lt;br /&gt;“Ah, vai à merda, então, você e as suas certezas. Você quer provas, tudo bem, então. Você não diz que me ama? Prova. Prova que você me ama.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então fui até a sala e desliguei o aparelho de som. Cala-te, Paulinho, e ele me obedeceu. Quando voltei para o quarto, ela estava parada bem em frente ao armário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sua vez.”, e o silêncio dela comprovava que a prova havia sido válida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela encostou no armário e soltou o corpo até o chão. Ficou sentada, abraçando as próprias pernas, controlando o choro. Me aproximei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Prova que você não me ama. Anda. Se você não me ama, que diferença faz você me perder? Se tem algo no seu passado que você prefere manter em segredo, porque você acha que isso pode me afugentar, não tem porque fazer questão de preservar o segredo se você não me ama. Eu te amo, você não me ama, não é a primeira vez que isso acontece comigo, e certamente não será a última. O que você tem a perder, então? O seu saldo ainda é mais positivo do que o meu. Anda. Prova.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui capaz de ouvir a respiração do vizinho do andar de cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando eu ainda tava casada com o meu ex-marido... na época da tese... eu me apaixonei por um cara. Ele tava fazendo o doutorado dele na mesma turma que eu. A tese dele era sobre Paulinho da Viola. Sobre samba, de forma geral. Nunca vi um cara tão apaixonado por samba em toda a minha vida. Mais ou menos que nem você com o rock. Deu pra ter uma idéia?”&lt;br /&gt;“A diferença entre a gente é que, enquanto ele é considerado um legítimo defensor da cultura brasileira, eu sou visto pela Academia como um alienado vendido. Enfim. Só um comentário. Desculpa. Continua...”&lt;br /&gt;“Meu casamento tava uma merda nessa época. A gente já tava junto há três anos, eu não agüentava mais, a gente praticamente não conversava. Nem discutir a gente tinha capacidade de discutir. Ele começou a trabalhar numa multinacional qualquer, e isso só contribuiu pra gente se afastar ainda mais. Trepar com ele e com um manequim era praticamente a mesma coisa, com a diferença que o manequim era mais rígido, pelo menos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pude conter o riso. Ela aparentemente não se incomodou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas eu tava com medo de me envolver com esse cara. Porque com o meu marido tinha sido exatamente da mesma forma, uma paixão absurda no início, e depois, nada além de tédio e decepção. Mas a gente passava dias maravilhosos juntos, e ele começou a tentar me convencer que largar o meu marido era a coisa certa a fazer, que a gente podia bancar uma vida juntos, que ele tava se sentindo muito sozinho e precisava de mim... Eu acabei aceitando, né? Terminei meu casamento, foi aquele choque, meu marido não largava do meu pé, ficava me mandando milhares de e-mails com letras de música de um tal de Castelo... Um Elvis que não era o Elvis que a gente conhece.”&lt;br /&gt;“Elvis Costello. Sei exatamente como é.”&lt;br /&gt;“Você gosta desse cara?”&lt;br /&gt;“Ô... Enfim. Continua.”&lt;br /&gt;“A gente morou junto cerca de um mês. No final do primeiro mês, a gente cometeu a burrada de trepar sem proteção e eu acabei engravidando.”&lt;br /&gt;“Por quê?”&lt;br /&gt;“É a última coisa que eu gostaria que você me perguntasse.”&lt;br /&gt;“Desculpa. Mas você queria?”&lt;br /&gt;“Claro que não. Mas também não fiz o menor esforço para impedir que acontecesse. Entende?”&lt;br /&gt;“Você tirou?”&lt;br /&gt;“Eu não quis.”&lt;br /&gt;“Por que não?”&lt;br /&gt;“Porque não, porra. Porque eu queria ter filhos. Algumas pessoas ainda querem ter filhos, sabia?”&lt;br /&gt;“Desculpa.”&lt;br /&gt;“E eu pensei que tinha achado o cara certo.”&lt;br /&gt;“Com um mês de namoro? Depois de três anos de casada?”&lt;br /&gt;“Dá pra parar de me julgar?”&lt;br /&gt;“Desculpa, desculpa.”&lt;br /&gt;“Só que o filho da puta esperou a gravidez avançar, de forma que eu não podia mais pensar em abortar sem correr risco de vida, e me largou. Sumiu sem deixar notícias. Acho que ele queria que eu tirasse o bebê, mas ninguém tinha grana pra pagar operação nenhuma, muito menos pra sustentar criança, então a saída mais confortável que ele encontrou foi cair fora.”&lt;br /&gt;“Ele não tinha amigos, parentes, nada?”&lt;br /&gt;“Parentes na Alemanha que mal sabiam da existência dele. Nenhum amigo. Caras desse tipo costumam ter poucos amigos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E você?”&lt;br /&gt;“O que você acha? Não tinha cabimento voltar pro meu marido, né? Encarei os nove meses sozinha. Isso foi em janeiro. Em setembro a menina nasceu.”&lt;br /&gt;“E depois que ela nasceu?”&lt;br /&gt;“Eu não tinha condições de criar um bebê sozinha, nem ganhava o suficiente pra isso. Uma tia minha que mora em Ipanema fazia as unhas com uma mulher que conhecia um cara que era casado com uma sujeita que entregava bebês para adoção. Eu não tive outra escolha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até aquele instante, o choro dela vinha sempre em ondas convulsivas, era aquele choro histérico e incontrolável de quem está prestes a atirar coisas em você e depois pular pela janela. Quando ela disse “Eu não tive outra escolha”, uma única lágrima brotou no canto do olho esquerdo dela – nas novelas, podem reparar, as atrizes nunca choram com os dois olhos quando a cena é mais intimista ou emotiva, só nas cenas pretensamente “intensas”: uma discussão, um ataque de nervos, um fim-de-caso, aí sim o choro brota convulsivamente – lágrima esta que eu fiz questão de amparar, antes que ela conseguisse percorrer toda a extensão de seu rosto e lhe salgasse a boca. De amarga já basta a vida, pensei. A última coisa que ela precisa é de mais esse infortúnio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pronto. Tá convencido agora de que eu não te amo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lendo estas linhas no conforto de vossas respectivas casas, é normal que as minhas descrições pareçam exageradas ou inverídicas, e que as situações por mim narradas mais se assemelhem ao roteiro de uma comédia romântica de quinta categoria, repleta de clichês melodramáticos, constrangedoramente esquemática e sem o menor vestígio de verossimilhança, quando minha intenção original – pretensioso que sou – era traçar uma espécie de panorama definitivo dos relacionamentos interpessoais na virada do século XXI em forma de crônica. É normal que o pintor, ao reproduzir na tela uma paisagem que lhe agrade aos olhos, faça questão de ressaltar aquilo que a paisagem tem de mais belo, mas o critério que estabelece o que deve ser ressaltado e o que deve ser diminuído existe apenas na cabeça do pintor, e ninguém a não ser ele é capaz de garantir a acuidade do retrato. Eu, sinceramente, não dou a mínima pro que vocês pensam. Eu estive lá, testemunhei aqueles eventos se sucedendo diante dos meus olhos, então quem é você, quem são vocês, pra me dizer que minha descrição é boba, desprovida de conteúdo ou exagerada demais? Vocês não sabem de nada. Vocês lêem essas linhas e tudo o que conseguem enxergar é uma historinha. Eu leio e enxergo uma vida, a minha vida, e a minha vida não pertence a mais ninguém que não a mim. Os meus olhos são os olhos do pintor. Vocês têm o direito de achar a pintura feia ou bonita, mas o direito de vocês termina aí. O resto é problema meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei-a nos meus braços. A jukebox que eu carrego pra cima e pra baixo dentro da minha cabeça – uma jukebox incrível, de dimensões equivalentes à Biblioteca de Babel que o Borges descreveu em um de seus contos mais famosos, capaz de conter todos os discos do mundo, todas as músicas compostas, cantadas, gravadas, assobiadas, executadas desde o alvorecer da Humanidade, dispostas em prateleiras que se estendem até o infinito, prateleiras que contém vinis, CDs, fitas cassete, partituras, discos de cera, e memórias (principalmente memórias, posto que a música e a memória são feitas da mesma substância) – começou a tocar “Hang down your head”, do Tom Waits. Por uma fração de segundo que se distendeu assustadoramente, para além de qualquer unidade de medida de tempo, fui capaz de sair do meu próprio corpo e assistir àquela cena de uma posição privilegiada: de cima do armário, cercado de poeira e tendo o Garfield de pelúcia como companheiro de platéia. Vi nossos corpos abraçados no chão, os dois em posição fetal, nossas anatomias se encaixando perfeitamente. Vi dois personagens de uma canção do Tom Waits, desamparados, sem rumo, ébrios de amor e desespero, sem ninguém a quem recorrer, incapazes de alcançar uma tábua de salvação que nos levasse em segurança para bem longe dali. Vi que estávamos dividindo a mesma tábua, flutuávamos easy rider pelo oceano, e eu sentia que, mais cedo ou mais tarde, nós iríamos afundar. Mas nada disso parecia me incomodar, pelo menos não naquele momento. Me despedi do Garfield e voltei a habitar meu corpo, a tempo de responder à pergunta que ela tinha me feito, já não sabia se há poucos minutos ou há algumas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, você não me convenceu. Ainda acho que você me ama.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabamos ficando por ali mesmo. No meio da madrugada, ela acordou assustada, suando frio e com cãibra nas pernas. Me abraçou e me fez jurar que eu jamais a deixaria. Outra promessa, pensei, outra promessa que eu seria incapaz de cumprir. Mais tarde, descobri que, dos inúmeros erros que cometi, sem sombra de dúvida o mais grave deles foi dizer sim a todas as coisas que ela me fez prometer. Eu simplesmente não levei a sério as promessas dela. Achava que as promessas eram meros artifícios de retórica que ela utilizava para me manter junto dela, da mesma forma que o “Eu te amo” mútuo que os casais convencionais vivem a repetir entre si não possui outra função que não a de comprovar a existência de um  canal comunicativo entre eles, o “eu te amo/ eu também” equivalendo a um “alô, quem fala?/pois não” dito displicentemente ao telefone. Na concepção dela, cada promessa que eu fazia correspondia a mais um artigo, devidamente aprovado após votação majoritária em uma Assembléia Popular hipotética e virtual, na Declaração de Princípios que regularia nosso relacionamento daquele ponto em diante. Violar um único artigo sequer seria a prova cabal de que a Declaração de Princípios, como um todo, estava mal redigida, repleta de incoerências e contradições, porque não havia nada além de contradições e incoerências em nossos discursos, em nossas concepções de amor e solidão, contradições estas que eram devidamente varridas para debaixo do tapete em virtude da euforia que tomava conta de nós quando nossos corpos se tocavam. Falávamos da importância de viver o presente, mas a possibilidade de um futuro em comum continuava freqüentando nossas cabeças. Tentávamos não fazer planos, mas às vezes ela me surpreendia com um “promete que jamais vai me deixar” que me estremecia até a base. Estávamos mais céticos do que nunca, e no entanto continuávamos acreditando que nosso encontro não havia ocorrido por acaso, que havia alguma espécie de conspiração cósmica para que nossos caminhos se cruzassem, e nessas horas eu me sentia meio constrangido de estar depositando minha fé em coisas tão abstratas – e pensar que tudo isso no curto espaço de duas semanas, se tanto, estou arredondando as datas só pra facilitar a minha vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela madrugada ocorreu a nossa última troca de fluidos. O sol estava nascendo quando decidimos encerrar os trabalhos e descansar um pouco. Mal despertamos, ela cismou que queria voltar para o Rio. Arrumamos as malas em questão de minutos. Chegamos na rodoviária de Friburgo e demos sorte de conseguir pegar um ônibus que parecia estar nos esperando para partir. Ficamos em silêncio durante toda a viagem. Ela na janela, eu no corredor, conforme o combinado – quem disse que eu não consigo ser fiel às promessas que faço? Ela fingindo dormir, eu fingindo que ouvia meu CD de Músicas De Estrada, quando, na verdade, estava com a cabeça bem longe, perambulando por territórios distantes, territórios onde ela fosse incapaz de me alcançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De cinco em cinco minutos, alguém levantava para ir ao banheiro. O ar do ônibus ficou imprestável em questão de meia hora. Quando essas pessoas vão ao cinema, pensei, elas conseguem controlar seus malditos esfíncteres por 90 minutos, duas horas. Por que será que descendo a serra elas simplesmente não conseguem passar três míseras horinhas sem arriar as calças? Foi horrível. Ali, naquele instante, percebi com clareza que, por mais que eu me esforçasse, por mais que eu a amasse, e ela também me amasse, nosso relacionamento não duraria muito tempo. Foi como se daquele momento em diante, tudo começasse a desmoronar sob os nossos pés. Sentia que, se prolongasse aquela história por muito tempo, além dos limites do suportável, acabaria por magoá-la demais, e essa era a última coisa que eu desejava no momento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas pessoas foram feitas para amar, outras para serem amadas – a maioria dos teóricos pára a classificação por aí. Mas existe uma terceira categoria de pessoas, as pessoas que não servem nem para amar e nem para serem amadas, mas sim para permanecer sozinhas. Esta categoria, por sua vez, está dividida em duas subcategorias secundárias: a das pessoas que encaram a própria solidão com desprendimento, sem neuroses, aceitando a solidão como um fato de vida (A), e as que, insatisfeitas com a própria condição, tentam a todo custo romper o casulo e superar voluntariamente a condição que lhes foi imposta (B). A ferida provocada pelos que enquadram na subcategoria A corta duas vezes mais fundo do que a ferida provocada por pessoas ditas “normais”, porque a partir do momento em que a presença de uma outra pessoa passa a se configurar com uma ameaça ao estado de solidão a que o indivíduo está acostumado, seu instinto de preservação começa a falar mais alto e ditar as regras: da mesma forma que a mãe, ao ver o filho sendo esmagado pela roda de um caminhão, é capaz de retirar forças sabe-se lá de onde para erguer o carro e salvar o filho, o indivíduo solitário é capaz de tudo para preservar sua solidão, inclusive ferir profundamente todos os que se configurarem como uma ameaça, o que em casos mais extremos pode corresponder a qualquer pessoa que respire e ande sobre duas pernas que ouse se aproximar de você. Por uma dessas ironias da vida, às vezes a pessoa que se aproxima de você e invade a sua vida sem pedir licença é justamente uma das que se enquadram na subcategoria B, e essas pessoas têm a péssima tendência de serem apaixonantes e irresistíveis. Quando você percebe, o estrago já está feito, mas nada é irreversível até que esteja 100% consumado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para minha infelicidade, uma dessas pessoas absolutamente apaixonantes, porém solitárias por natureza, posto que pertencentes à subcategoria B, estava dormindo, ou fingindo dormir, bem do meu lado, ela era linda dormindo e eu a amava. “Hummingbird”, do B.B. King, começou  a tocar na minha jukebox imaginária. Juntos, a única coisa que faríamos seria multiplicar indefinidamente o sofrimento do outro, um desafio constante ao final do qual um dos dois seria fatalmente soterrado pelo peso da derrota. Eu a confrontaria com o meu desejo de estar sozinho. Ela, por sua vez, depositaria em mim todas as suas últimas esperanças de redenção. E então, começaríamos fatalmente a nos sentir sozinhos na companhia um do outro. Infelizmente, estávamos condenados a perpetuar essa sina. Danço eu, dança você, na dança da solidão: uma pena que fosse assim, mas essa era a única dança que eu e ela sabíamos dançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110985099402956251?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110985099402956251/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110985099402956251' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110985099402956251'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110985099402956251'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/03/this-is-not-love-song-14.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #14'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110954594654485989</id><published>2005-02-27T19:10:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:12:26.563-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #13</title><content type='html'>“Quantos artistas/ Entoam baladas/ Para suas amadas/ Com grandes orquestras/ Como os invejo/ Como os admiro/ Eu, que te vejo/ E nem quase respiro/ Quantos poetas/ Românticos, prosas/ Exaltam suas musas/ Com todas as letras/ eu te murmuro/ Eu te suspiro/ Eu, que soletro/ Teu nome no escuro/ Pode ser que, entreabertos/ Meus lábios de leve/ Tremessem por ti/ Mas nem as sutis melodias/ Merecem,..., teu nome/ Espalhar por aí/ Eu, que não digo/ Mas ardo de desejo/ Te olho/ Te guardo/ Te sigo/ Te vejo dormir” (Chico Buarque)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos no apartamento de Friburgo faltando pouco para as oito da noite. Antes de subir, passamos numa mercearia que ficava perto do prédio e gastamos cerca de cem reais em cerveja e biscoitos. Também compramos uma garrafa de vinho, a mais barata à venda na loja, e dois pacotes de macarrão instantâneo. O apartamento até que era bastante grande, levando em consideração que apenas uma pessoa morava ali, dois quartos, uma despensa, dois banheiros, sendo que um dos banheiros ficava no quarto da dona da casa. Não fazíamos idéia de quanto tempo permaneceríamos em Friburgo. Ela tinha uma semana de folga, eu não fazia nada durante a maior parte do tempo, então não me importaria de ficar uns dias por lá, fazendo a mesma coisa que costumava fazer no Rio – ou seja, nada – só que num lugar diferente e acima do nível do mar, o que tornava tudo mais divertido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começamos a desfazer as malas. Entramos no maior dos dois quartos, carregando as sacolas, e quando liguei a luz dei de cara com uma cama enorme de casal, lençóis cheirando a lavanda, almofadas cor-de-rosa e um Garfield do tamanho de um anão sentado no meio da cama, segurando um coração escrito “I love you” e sorrindo. Inicialmente, fiquei constrangido pela dona da casa – tivesse eu um Garfield segurando um coração, certamente não o deixaria exposto sobre a cama para que eventuais visitas fizessem comentários sarcásticos e desagradáveis. Ela abriu a mala, e então começou a espalhar suas roupas íntimas pela cama. A mala era um caos indescritível: me lembrei do prólogo de “Thelma &amp; Louise”, quando as duas fazem as malas antes da viagem e a gente fica sabendo que uma é organizadinha e controlada, e a outra bagunceira e impulsiva, pela forma como arrumam suas bagagens. A mala dela era igual a da Thelma (ou Louise, nunca soube ao certo a diferença... mais fácil dizer “a personagem da Geena Davis”): as coisas ficavam amontoadas umas sobre as outras, de modo que o simples gesto de procurar uma calcinha se convertia na maior das aventuras. Quando dei por mim, havia um sutiã displicentemente jogado sobre a cama, aos pés do Garfield. Fiquei constrangido pelo boneco. Gentilmente, retirei o Garfield de cima da cama e joguei-o sobre o armário. Uma nuvem de pó se espalhou pelo quarto. Eu comecei a tossir e tive que ir até o banheiro.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela foi ao meu encontro, segurando um rolo de papel higiênico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sempre trago o meu papel de casa. O que você tá fazendo?”&lt;br /&gt;“Lavando o rosto. Tem certeza que a sua amiga não se incomoda?”&lt;br /&gt;“A única recomendação que ela fez foi: “nada de sacanagem na minha cama. Usem o outro quarto. Ou façam na sala.”. Na hora eu concordei, mas quem disse que ela precisa saber?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu só conseguia pensar no Garfield. Ela entrou no banheiro e passou por mim, na direção do box.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chuveiro a gás. Água quentinha. Muito bom. Acho que eu vou tomar um banho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela abriu a porta do box, entrou lá dentro, fechou a porta e começou a se despir. Parecia uma daquelas cenas clichês de comédia adolescente, ela jogava as roupas por cima do blindex fosco, as roupas caíam perto dos meus pés, e eu comecei a catá-las feito um idiota. Enxuguei o rosto correndo e fiz menção em sair do banheiro. Acho que ela pôde sentir minha desorientação através do blindex, porque bastou eu colocar a mão na maçaneta da porta para que ela dissesse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você pode ficar, se quiser.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o tipo de comentário que, longe de eliminar o motivo da desorientação, acaba aprofundando ainda mais o caos interior. O que ela queria dizer com “Você pode ficar, se quiser”? Que eu podia ficar no banheiro, sei lá, sentado na privada lendo um gibi do Tio Patinhas que a dona da casa havia deixado sobre a pia enquanto ela tomava banho, ou que, se eu quisesse, eu podia ficar com ela, lá dentro, e lá dentro que eu quero dizer é do outro lado do blindex? Por via das dúvidas, saí do banheiro e fui ler o gibi do Tio Patinhas na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí cheguei na sala e fui atraído pela prateleira de CDs da dona da casa. Larguei o gibi em cima da TV e fui vasculhar o gosto musical de nossa hospedeira. Diante de tantos discos de axé, téquino e rípi-rópi da pior espécie, corri até o quarto, retirei os meus CDs da mala e comecei a substituir, na prateleira dela, as coisas que considerava mais ofensivas à minha sanidade mental e musical. Espero do fundo do coração que ela não se sinta ofendida. Liguei o aparelho de som e coloquei uma fita do Red House Painters. A menos de dois metros daquele sofá, caía água quente sobre o corpo dela e eu gostaria de ter a chance de testemunhar aquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte minutos depois ela saiu do banho, enrolada na toalha. Pude sentir, no carpete da sala, a vibração provocada pelo contato entre os pés descalços dela e a madeira do corredor, o cabelo molhado semeando gotas d’água pelo caminho, gotas que, a exemplo do farelo de pão da história de “João e Maria”, seriam capazes de me levar de volta pra casa, de volta para o lugar onde eu gostaria de estar, caso eu me dispusesse a segui-las. Então ela voltou do quarto, usando uma camiseta do Bob Esponja que lhe cobria até os joelhos, e se atirou no sofá, jogando as pernas por cima das minhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos ver TV”, ela disse. “Essa música triste, foi você quem trouxe?”&lt;br /&gt;“Foi...”, respondi de forma visivelmente decepcionada. Na minha humilde opinião, Red House Painters era a banda perfeita para instaurar um clima afetivo entre duas pessoas que mal se conheciam mas estavam ansiosas para atingir um grau mais elevado de intimidade, se é que vocês me entendem. Li numa revista, ou na internet, não sei ao certo, que o disco ideal para proporcionar um momento desse quilate era o “Dummy” do Portishead, que eu até cogitaria em trazer pra Friburgo, não fosse o “Dummy” um disco que, longe de me excitar ou qualquer coisa parecida, me dava vontade de chorar e cortar os pulsos. Sempre achei “Medicine bottle”, do RHP, a canção ideal para embalar a noite de dois amantes que não tinham lá muita certeza do que desejavam fazer. Pelo visto, meu palpite estava levemente equivocado – pra variar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ligamos a TV, e passamos boa parte da noite assistindo ao canal local, que tinha alguns programas bastante toscos e involuntariamente engraçados. Em um deles, dava a impressão de que o sujeito tinha pego a cortina do banheiro de casa e usado como cenário de fundo, tamanha a precariedade da produção. Ela passou boa parte do tempo com a cabeça deitada no meu ombro, as pernas dobradas sobre o sofá, os braços em torno do meu pescoço. Às vezes ela fingia estar dormindo, e eu aproveitava para fazer carinho em seu braço, e do braço a mão deslizava até a cabeça, e eu ficava lá, paternalmente, aquela criatura linda nos meus braços, e ela havia cometido a imprudência de trazer o xampu de perfume cítrico para Friburgo, quer dizer, eu não precisava de mais nada para estar feliz ou ser feliz, bastava aquele momento de ternura para dissipar todos os meus temores e mandar embora qualquer ansiedade que porventura tivesse me acompanhado no trajeto Rio-Friburgo. Gostava de observá-la durante o sono: quando ela acordava após um breve cochilo, tinha o hábito de esfregar os olhos com as costas da mão, e ela sempre sorria pra mim quando se dava conta da minha presença ao lado dela, e o sorriso pós-despertar dela imediatamente espalhava pela sala uma paz tão reconfortante que chegava a incomodar. Tive um gato quando era criança que acordava exatamente da mesma forma. A lembrança do gato me fez ter vontade de abraçá-la forte: raras vezes consegui retornar à infância de forma tão consistente, e sentir o passado tão presente, quanto naquele instante. Devo ter apertado muito forte, porque ela não voltou a cochilar depois. De alguma forma, ela foi capaz de sentir uma certa instabilidade em mim, como se o equilíbrio que a simples presença dela me trazia fosse subitamente interrompido por uma força exterior. Ela passou a mão na minha testa, e eu estava transpirando bastante, porque as lembranças da infância, quando resolvem nos assaltar, nunca o fazem sem alterar substancialmente o nosso metabolismo. Quando dei por mim, ela estava sentada no meu colo, as duas mãos repousadas sobre a minha face, aqueles dois olhos verdes me encarando e praticamente penetrando na minha alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando é que a gente vai transar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devia ter encarado o questionamento dela como uma pergunta meramente retórica, que não demandava uma resposta em palavras, apenas em gestos, mas ainda assim, fiz questão de continuar o diálogo, sabe-se lá Deus porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei. Quando eu me sentir mais seguro.”&lt;br /&gt;“Seguro de quê?”&lt;br /&gt;“Sei lá. Seguro em relação ao que eu tô sentindo por você.”&lt;br /&gt;“E o que você tá sentindo por mim?”&lt;br /&gt;“Ainda não sei. Acho que me apaixonei por você, mas não tenho certeza.”&lt;br /&gt;“E você precisa dessa certeza?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, vi o delírio do ônibus tomando forma. Comecei a transpirar ainda mais. Acho que ela percebeu o meu nervosismo, julgando, talvez, que a fonte dessa inquietude era a pergunta que ela tinha feito anteriormente, porque ela praticamente pulou do meu colo e sentou ao meu lado, no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que sim.”&lt;br /&gt;“Eu respeito a tua decisão. Mas acho desnecessário a gente ficar colocando o que sente um pelo outro num escaninho, separando a paixão do desejo, e o desejo do tesão, e o tesão da vontade de ficar assim, juntinho, vendo TV. Eu também não consigo classificar o que tô sentindo por você, e se isso equivale à sua insegurança, então a gente tá no mesmo barco. A diferença é que, pra mim, nada disso importa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava pensar duas vezes antes de dizer qualquer coisa. A última impressão que eu desejava passar era a de que não tinha vontade de transar com ela Isso seria mentira. Eu queria, e muito. Obviamente, sexo fazia parte dos planos dela ao conceber essa viagem maluca à Friburgo, e ela estava começando a ficar desconfiada das minhas intenções. A merda é que eu simplesmente não tinha como justificar minha resposta sem correr o risco de iniciar, efetivamente, uma discussão semelhante à que eu havia apenas imaginado, no ônibus. Mais cedo ou mais tarde, eu acabaria mencionando o que realmente me inquietava, e aí não teria como voltar atrás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se é isso que te angustia, eu fui ao médico antes da viagem e tá tudo certinho comigo. E por garantia, eu trouxe camisinhas.”&lt;br /&gt;“Não, não é isso”.&lt;br /&gt;“Então é o quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos e anos de educação católica fizeram isso comigo, eu tenho certeza. Você cresce num ambiente repressor –  aquele papo de sexo-só-com-finalidades-reprodutivas – e depois, quando se vê confrontado com a vida real, percebe que não é bem assim que a banda toca. Ainda assim, é difícil jogar pelo ralo, de uma hora pra outra, os (pre)conceitos que te acompanham desde a infância. Devo ter arregalado os olhos quando ela disse “Eu trouxe camisinhas”, reação bastante adequada a uma dama inglesa do século XIX ou às freiras que dirigiam o colégio onde estudei o Primeiro Grau, mas bastante anacrônica em se tratando de um sujeito de vinte e poucos anos, diante de uma menina linda vestida apenas com a camiseta do Bob Esponja, dizendo com todas as letras que quer transar contigo, num apartamento em Nova Friburgo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fala comigo, por favor. Às vezes eu acho que você tem medo de mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não de você, mas do que você representa – tive vontade de dizer, mas achei por bem deixar pra lá. Algumas pessoas podem encarar uma transa entre duas pessoas como algo tão corriqueiro quanto tomar um café ou andar de bicicleta, mas na minha cabeça isso representa muito mais, até porque eu não sei andar de bicicleta, nunca entendi como aquele troço de duas rodas consegue ficar em pé com um sujeito pedalando em cima sem tombar. Fazendo sexo, você meio que transgride aquela lei da Física segundo a qual dois corpos não podem ocupar, simultaneamente, a mesma porção do espaço, e não é a toda hora que você sai transgredindo leis da Física por aí a torto e a direito. É como se o sexo me tornasse irremediavelmente ligado a ela – de certa forma, isso já acontecia, mas o sexo só acentuaria ainda mais essa ligação, e ao alcançar esse grau de envolvimento, eu me veria obrigado a estabelecer uma série de comparações na minha cabeça doentia: entre ela e outras pessoas que passaram pela minha vida, entre o que eu sentia pelas outras pessoas e o que eu acho que sinto por ela, e, finalmente (mas nem por isso menos importante), entre o meu discurso e a minha prática. No meu discurso, tal grau de envolvimento só poderia ser alcançado quando eu tivesse certeza que o meu sentimento pela outra pessoa ia além do encantamento, da afeição ou da atração física, se configurando como algo muito maior. Em outras palavras (e vocês não fazem idéia do quanto venho tentando evitar o uso indiscriminado dessa palavra), transar com uma pessoa só faria sentido se eu tivesse certeza de que amava essa pessoa. Mas também já não consigo afirmar com 100% de propriedade se, nas outras vezes em que me vi diante de uma situação semelhante, o que eu realmente sentia pela outra pessoa era amor ou se, ao contrário, eu me convenci de que amava a outra pessoa como forma de justificar pra mim mesmo a minha vontade de fazer sexo. Eu sei que isso é um problema. Tento reconstruir eventos do passado da minha memória, como forma de evocar a motivação que me levou a tomar determinada atitude, mas verdade e ficção se confundem na minha cabeça e eu não chego à nenhuma conclusão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava me sentindo que nem o Indiana Jones prestes a enfrentar o Terceiro Desafio do Santo Graal na “Última Cruzada”. Diante de mim, havia apenas um abismo. Do outro lado do abismo, o Graal, que era ela. Eu sabia que precisava atravessar o abismo, mas, ao contrário do Indiana, que fecha os olhos e dá um passo sobre o desfiladeiro, confiando na existência da ponte invisível que irá conduzi-lo em segurança até o Cálice, eu simplesmente não conseguia acreditar na ponte. Eu seria engolido pelo abismo, e os nazistas pegariam o Graal. Tive um surto de ingenuidade e resolvi utilizar a metáfora do Indiana Jones para explicar como estava me sentindo. Ela não entendeu, porque – heresia das heresias – não tinha visto o filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas a ponte existe ou não existe?”&lt;br /&gt;“Existe, e não existe. Não é tão simples assim. A ponte está lá, mas ela meio que fica camuflada pelas rochas. O efeito que eles usam é impressionante, e o filme é de 1989, quer dizer, antes da tecnologia digital. Olhando de uma determinada posição, dá a impressão de que não existe ponte, mas aí basta dar dois passos para o lado, a luz incide de um ângulo diferente, e você vê a ponte, que estava lá o tempo todo, mas você não conseguia perceber. É incrível.”&lt;br /&gt;“Que idiota. Era só ele jogar um pouco de areia no desfiladeiro para fazer a ponte aparecer.”&lt;br /&gt;“Tá, mas aí você perde a dimensão metafórica da coisa, que é justamente a questão da fé.”&lt;br /&gt;“Onde você tá querendo chegar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia aceitar que ela jamais tivesse visto “Indiana Jones e a Última Cruzada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Caçadores da arca perdida” você viu, né?&lt;br /&gt;“Não, só vi aquele do Templo da Perdição. Aquele em que eles comem baratas.”&lt;br /&gt;“Besouros.”&lt;br /&gt;“Ou isso. Onde você tá querendo chegar com essa história?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, senhoras e senhores, diante de tão fragorosa derrota, resolvi entregar os pontos. Ela se levantou do sofá, e parou diante de mim. A sala estava totalmente às escuras. Ela estendeu as mãos na minha direção, e me conduziu até o quarto principal. Entramos sem ligar as luzes. O Garfield continuava sobre o armário. Sentia a presença dela a poucos centímetros de mim, graças ao calor que irradiava dela, como se eu estivesse diante de um motor de ar-condicionado ligado à toda potência. Ainda tive tempo – e oportunidade – de fazer um comentário estúpido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas é o quarto da sua amiga.”&lt;br /&gt;“Foda-se ela”, foi a resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então senti quando a camiseta do Bob Esponja caiu sobre os meus pés. Ela me abraçou, me deu um longo beijo e nós nos sentamos na beirada da cama. Ela se ajoelhou aos meus pés – sim, aconteceu mesmo, não é nenhuma fantasia de dominação da minha parte – puxou a minha cabeça pra perto do rosto dela e disse, sem meios-tons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tem uma coisa que eu quero te dizer. Na verdade, tem uma coisa que eu quero te pedir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desnecessário dizer que senti uma corrente fria entrar pela vértebra do pescoço e desaguar na base da coluna. Ela prosseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sou uma pessoa estranha, muito estranha, como você deve ter percebido. Eu tenho uma cabeça doentia. Na minha cabeça doentia, eu elaborei um conceito de amor, que eu guardo só pra mim, e espero saber reconhecê-lo quando me deparar com ele. Eu tenho pavor de ser confrontada com uma idéia de amor que não corresponde à idéia que eu fiz dele, porque isso reduziria a pó anos e anos de ilusão, e isso me faria sofrer bastante.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela beijou meu rosto, e juro que esse momento singelo bastaria para fazer toda a noite valer a pena, antes de arrematar, para meu desespero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, por mais que você sinta isso, por mais que você ache que tenha certeza disso, nunca, jamais, diga que me ama. Entendeu? Nunca diga que me ama.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que se sucedeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca escrevi uma cena de sexo em toda a minha vida, por dois motivos. Primeiro, em virtude da supracitada educação católica, que me atormenta subliminarmente até hoje. Lembro que, quando era pequeno, meus pais nunca me proibiram de ver filmes na TV de madrugada, desde que eles pudessem assistir ao filme junto comigo, para o caso de ser necessário me explicar “alguma cena” que porventura eu não compreendesse – “alguma cena”, claro, era o eufemismo pequeno-burguês-cristão para “cenas de sexo”. Em outra ocasião, passei com meus pais, de carro, diante de um cinema pornô e perguntei, inocentemente, que filme estava passando naquele cinema. Minha mãe, sempre ela, respondeu “Um filme ruim, filho”, e este que vos escreve, inocentemente (de novo), replicou “Ah, sim. Um filme de terror, né mãe?”, porque aos sete anos eu odiava filmes de terror. Enfim. De alguma forma, isso deve ter provocado uma fratura danada na minha personalidade, e como eu não acredito na psicanálise, a coisa ficou lá, quieta, voltando à tona ocasionalmente, para me atormentar em momentos como esse. Em segundo lugar, porque acho dificílimo escrever cenas de sexo sem cair naquele tom erótico-chic a la “Orquídea selvagem” – “então ele desabotoou lentamente o vestido dela, e beijou-lhe os seios endurecidos, e o ventre leitoso, e ela balia como uma ovelha prestes a ser tosquiada”, quer dizer, além de ser estilisticamente ridículo, não consegue ser nem um pouco excitante. Existe uma outra possibilidade, mas aí é cair no realismo sujo de um Henry Miller, que eu considero inadequado para descrever o que se passou naquele apartamento de Friburgo, além de reconhecer não ter cacife suficiente de sequer tentar imitar, ao contrário de muitos pseudo-transgressores por aí. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em virtude de tudo isso, acho melhor parar a descrição da cena por aqui mesmo. Espero sinceramente não ter frustrado as expectativas de nenhum pervertido.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no meio da noite eu acordei morrendo de sede, e ligeiramente confuso em relação ao que tinha acontecido, em que quarto estava, se era a minha casa ou a casa de outra pessoa, enfim, toda a desorientação que o Proust descreveu muito melhor do que eu nos parágrafos iniciais do capítulo que abre “No caminho de Swann”. Quando abri os olhos, estávamos tão próximos um do outro que o rosto dela era a única coisa em todo o meu campo de visão. Deus, ela era linda dormindo, linda demais. Dei-lhe um beijo no rosto e fui até a cozinha. No meio do caminho, juro que me ocorreu uma frase que eu havia lido há um tempo naquele livro “Fragmentos de um discurso amoroso”, do Roland Barthes. Em determinado trecho do livro, tentando explicar o mecanismo de funcionamento e as motivações de um texto romântico, ele diz, personificando um herói desses romances: “Vejo milhares de corpos. Desejo centenas deles. Mas sou capaz de amar apenas um.” E lá estava ela, deitada na cama, toda encolhida por causa do frio, tentando desesperadamente encontrar o lençol num estado de semi-sonolência. Não é justo, eu pensei. Não é justo estar diante de uma coisa tão bela, tão além-de-qualquer-compreensão, e ser obrigado a cumprir uma promessa estúpida. Ademais, eu não havia lhe prometido nada, não dessa vez, ela começara a me beijar antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Então voltei para o quarto, me aproximei para ter certeza de que ela estava dormindo e murmurei em seu ouvido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu te amo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto. Eu disse. Eu disse, e ela não escutou. Promessa cumprida. Deitei novamente ao lado dela e dormi meu melhor sono em décadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110954594654485989?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110954594654485989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110954594654485989' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110954594654485989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110954594654485989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-13.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #13'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110925329634642002</id><published>2005-02-24T09:53:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:15:43.853-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #12</title><content type='html'>“Well you play that tarantella all the hounds will start to roar/ The boys all go to hell and then the Cubans hit the floor/ They drive along the pipeline, they tango 'til they're sore/ They take apart their nightmares and they leave them by the door/ Let me fall out of the window with confetti in my hair/ Deal out Jacks or Better on a blanket by the stairs/ I'll tell you all my secrets, but I lie about my past/ And send me off to bed for evermore” (Tom Waits)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chega pra lá. Eu quero sentar na janela.”&lt;br /&gt;“Deixa eu sentar na janela, por favor. É a única coisa que eu te peço. Deixa eu sentar na janela, pelo menos na ida. Prometo que, na volta, a janela é toda sua.”&lt;br /&gt;“Por que você faz tanta questão de sentar na janela? O ônibus tem ar-condicionado, você não vai conseguir pegar nenhuma brisa.”&lt;br /&gt;“Não é pela brisa. É pela paisagem. Eu adoro subir serra, adoro pegar estrada, me dá uma sensação de infinitude, é como se todo o tempo e o espaço do mundo estivessem diante dos nossos olhos...” &lt;br /&gt;“Você é doido...”&lt;br /&gt;“Uma vez... me dá tua mão... uma vez uns amigos me convidaram prum churrasco em Petrópolis. Eu peguei um ônibus na rodoviária, um ônibus vazio, tinham o quê, dez pessoas dentro do ônibus... Na época eu tinha gravado uma fita cassete com várias músicas do Neil Young, e no caminho pra Petrópolis tem um trecho logo depois do pedágio que parece a Rota 66. Não que eu conheça a Rota 66 pessoalmente, mas... É aquele tipo de estrada de perder de vista, por mais que você se esforce parece ser impossível enxergar o fim da estrada, então justo nessa hora a minha fitinha tocou “Thrasher”, não sei se você conhece essa música do Neil Young...”&lt;br /&gt;“Eu não conheço quase nada do Neil Young.”&lt;br /&gt;“Hmm, bom, eu gravei algumas músicas dele nesse CD que eu trouxe pra gente escutar...”&lt;br /&gt;“Quando a gente vai escutar?”&lt;br /&gt;“Daqui a pouco. Enfim... essa música fala sobre um cara que foge de casa, depois se perde dos amigos, é o relato da viagem que ele faz pelos Estados Unidos, então ele vê os campos, e as colheitadeiras... Não sei porquê, mas na hora em que tocou essa música, eu botei a cabeça pra fora do ônibus pra respirar o ar da estrada, e diante de toda aquela infinitude, com aquela gaita sofrida do Neil Young gemendo na escuridão de um palco mal-iluminado, eu comecei a chorar. Acabei saltando no meio do caminho, esqueci do churrasco, esqueci de tudo, fiquei uma meia hora parado no acostamento observando a estrada e esperando outro ônibus passar.”&lt;br /&gt;“Pode chorar, se você quiser. Não se intimide com a minha presença. Eu prometo que não vou te sacanear.”&lt;br /&gt;“Vou me lembrar disso.”&lt;br /&gt;“Eu acho que eu preferiria ter vindo de carro. Eu também curto pegar estrada, mas faz toda a diferença pra mim se eu estiver no controle do carro. Aí sim, eu experimento essa sensação de liberdade que você descreveu. Dentro de um ônibus, eu me sinto como se alguém tivesse me guiando pela mão, e eu não gosto disso. Gosto de ter a ilusão de que eu sou responsável pelo caminho que eu escolho seguir. Se no meio do caminho eu cismo de voltar, ou decido mudar de destino no meio da viagem, eu quero poder fazer isso, o que é impossível se você tá num ônibus.”&lt;br /&gt;“Da próxima vez a gente vem de carro.”&lt;br /&gt;“Mas o carro também tem as suas desvantagens. Além de a despesa ser maior, eu não poderia ir daqui a Friburgo segurando a tua mão, e se eu sentisse vontade de te beijar, seria capaz de provocar um acidente.”&lt;br /&gt;“Esquece o carro então. A gente tá na estrada, é o que importa.”&lt;br /&gt;“Eu queria poder fazer isso mais vezes. Largar tudo por um tempo, e fugir pra algum lugar com você. Esse negócio de trabalho, os mil cursos que eu inventei de fazer pra preencher o resto do meu tempo, todas essas coisas me paralisam demais. Eles inventaram essa história de que a gente é livre, mas a gente não é livre coisa nenhuma.”&lt;br /&gt;“Inventaram esse discurso que é pra você se conformar, não reagir, manter a passividade diante da vida... A gente tá sempre perseguindo esse ideal de independência, de liberdade, mas enquanto a Humanidade existir, ninguém será livre. Ninguém será livre porque sempre vai ter alguém querendo exercer seu poder sobre os demais, sobre os mais fracos...”&lt;br /&gt;“Eu acho que esse papo de independência é uma besteira. Quando você tem 15 anos, enfiam na sua cabeça que você precisa se tornar independente dos seus pais. Então você tem que escolher uma faculdade, um trabalho, uma família, uma vida...”&lt;br /&gt;“ Isso é “Trainspotting”!”&lt;br /&gt;“Verdade. Logo no início do filme, né? Então. Aí você faz todas essas coisas, e no final das contas descobre que você não se tornou independente porra nenhuma. Você se torna independente do dinheiro dos seus pais, mas se torna dependente do dinheiro do seu trabalho, porque sem esse dinheiro você não consegue sobreviver, então no fundo você apenas substituiu a figura paterna pela figura do seu chefe. É como se você mudasse de dono, toda a sua vida se resume a isso, mudar de dono e ser dominado por outras pessoas, até que você morre e chega à brilhante conclusão que viveu aprisionado a vida toda.”&lt;br /&gt;“E a figura paterna ou materna continua sendo a referência principal.”&lt;br /&gt;“Freud disse um monte de bobagens, mas às vezes eu sou obrigada a concordar com ele em algumas coisas. Coloca o CD pra gente escutar.”&lt;br /&gt;“Eu trouxe uns discos pra gente escutar no apartamento também. Eu não vou conseguir ficar mais de 24 horas num lugar sem música.”&lt;br /&gt;“Pelo visto, você só trouxe discos aí dentro. Eu espero que você não tenha esquecido de trazer cuecas e meias.”&lt;br /&gt;“Eu também trouxe. Mas os discos eram imprescindíveis. Artigos de primeira necessidade.”&lt;br /&gt;“Hmm, que é isso?”&lt;br /&gt;“Crosby, Stills and Nash. Essa música se chama “Judy blue eyes”. Um dos três, ou o Crosby ou o Stills ou o Nash, não sei ao certo, compôs a canção pra esposa dele.”&lt;br /&gt;“Ok, eu tenho que concordar contigo, essa música combina com o clima da estrada.”&lt;br /&gt;“Se a minha vida fosse um filme, eu queria ficar responsável por duas coisas: pelo roteiro e pela trilha sonora.”&lt;br /&gt;“Você não se incomodaria que outra pessoa dirigisse a sua vida, ou se alguém pegasse a sua vida e editasse o material sem o seu consentimento?”&lt;br /&gt;“Ok, eu gostaria de ser o Charles Chaplin. Ou o Orson Welles.”&lt;br /&gt;“O Woody Allen também não é mau negócio...”&lt;br /&gt;“É, ter o controle total sobre o produto. Escrever, dirigir, atuar, compor a trilha, editar.”&lt;br /&gt;“Mas se fosse pra escolher apenas uma função, eu faria questão de atuar. Imagina só, alguém viver a sua vida por você?”&lt;br /&gt;“Tá, você me convenceu que a metáfora cinematográfica não foi das mais felizes... É impossível renunciar a qualquer uma dessas funções.”&lt;br /&gt;“Muita gente acaba renunciando. Prefere ser coadjuvante da própria vida ao invés de agarrar com unhas e dentes o papel principal.”&lt;br /&gt;“Pra maioria das pessoas, basta ser espectador. É mais confortável, o risco é menor. É como se nada fosse capaz de te atingir. Eu tô falando aqui como se fosse o maior de todos os revolucionários, mas a verdade é que eu sou espectador da minha própria vida durante a maior parte do tempo.”&lt;br /&gt;“Eu não te condeno por isso. A gente acaba optando pelo mais cômodo.”&lt;br /&gt;“Escuta essa agora, ó: isso é Grateful Dead. A música se chama “Ripple”. Eu confesso que comprei esse CD por sua causa.”&lt;br /&gt;“Como assim?”&lt;br /&gt;“Depois que eu li a sua tese. Você cita algumas músicas do Grateful Dead, eu fiquei curioso e acabei comprando o CD.”&lt;br /&gt;“E eu nem gosto de Grateful Dead.”&lt;br /&gt;“Como não?”&lt;br /&gt;“Eu usei como referência, mas isso não significa que eu seja fã. Haha. Eu sinto como se estivesse te desapontando a cada revelação que eu faço sobre os meus gostos musicais.”&lt;br /&gt;“Não é isso, é que...”&lt;br /&gt;“Você tem esse hábito? De comprar determinado CD só porque você se apaixonou por determinada pessoa, então você acha que o fato de você escutar o CD que a pessoa por quem você está apaixonado gosta de escutar de certa forma aproxima você dela?”&lt;br /&gt;“É, eu acredito. Eu fico imaginando a pessoa em casa, ouvindo o disco, e é como se eu tivesse as chaves da alma dessa pessoa. É como se eu fosse capaz de estabelecer um diálogo silencioso com a outra pessoa, e assim conhecê-la melhor.”&lt;br /&gt;“Você é o que você ouve, então?”&lt;br /&gt;“E assiste, lê, come, sonha, delira, vive... Você é o conjunto de todas essas coisas.”&lt;br /&gt;“Por isso você é tão obcecado em saber coisas sobre as pessoas. Porque, de outra forma, é como se todos fossem desconhecidos pra você?”&lt;br /&gt;“Mais ou menos isso. Por isso eu só consigo me aproximar de pessoas com quem eu tenho algum tipo de afinidade. E isso vai da afinidade mais básica – sei lá, o meu Beatle preferido é o George, o seu também, e isso é um bom começo – até as afinidades mais sofisticadas.”&lt;br /&gt;“Que seriam?”&lt;br /&gt;“Maneiras de encarar a vida, basicamente. Eu não consigo compartilhar o mesmo espaço com alguém que não encare a vida da mesma forma que eu.”&lt;br /&gt;“Você já parou pra pensar na possibilidade de estar de mãos dadas com alguém que encara a vida de uma forma diferente da sua? E que o fato de a gente possuir pouquíssimas afinidades não impede que eu goste de estar contigo, e queira estar contigo?”&lt;br /&gt;“Como eu posso cogitar essa possibilidade se eu não sei nada sobre você?”&lt;br /&gt;“Aí é que está. Você não sabe. E isso não te impede de estar aqui comigo.”&lt;br /&gt;“Porque a gente tem afinidades, talvez. Só que não sabe disso. Ainda.”&lt;br /&gt;“E se eu te disser que a gente não tem. Que a gente é completamente diferente um do outro. Você desce do ônibus e volta pro Rio?”&lt;br /&gt;“Onde você tá querendo chegar?”&lt;br /&gt;“Em Nova Friburgo. Mas antes disso eu quero provar pra você que o seu argumento não se sustenta. Que a gente não precisa saber tudo sobre a vida um do outro pra estar feliz junto.”&lt;br /&gt;“Pra estar feliz talvez não precise. Mas para ser feliz, eu não consigo ter tenta certeza...”&lt;br /&gt;“Ser feliz, pra mim, é um estar feliz que se prolonga no tempo. E pra você, o que é?”&lt;br /&gt;“Eu não sei definir. Mas eu sou capaz de sentir quando estou feliz e quando sou feliz, e estabelecer a diferença entre os dois.”&lt;br /&gt;“O que é melhor pra você, então, ser feliz ou estar feliz?”&lt;br /&gt;“Precisa responder?”&lt;br /&gt;“Acho que não.”&lt;br /&gt;“Então pronto.”&lt;br /&gt;“A questão é: como você pode pensar em ser feliz antes de tentar estar feliz? Eu sou feliz porque estou feliz, porque tenho estado feliz. O “ser feliz” não é um estado imaginário que eu crio na minha cabeça antes mesmo que ele tenha chance de acontecer. “Ser feliz” não é um futuro que eu projeto antes mesmo que o presente, o hoje, o aqui e o agora me forneçam elementos concretos para que eu possa sonhar com ele.”&lt;br /&gt;“Como eu posso estar feliz se não sei nada sobre você?”&lt;br /&gt;“Você acabou de confessar que não está feliz. É isso que você quis dizer ou fui eu que entendi errado? O que a gente está fazendo aqui, então? Eu não tô aqui pra alimentar a infelicidade de ninguém.”&lt;br /&gt;“A felicidade é um estado complexo. Eu não quero confundir “estar alegre” com “estar feliz”.”&lt;br /&gt;“Na sua concepção, “estar alegre” é um sentimento inferior ao “estar feliz”, então? Pois eu acho que “alegria” e “felicidade” são a mesmíssima coisa. Mudam os nomes, mas o sentimento permanece.”&lt;br /&gt;“Era uma vez um cara que era feliz. Só que aí aconteceu um troço com ele, e ele começou a se sentir menos feliz. Não infeliz, apenas menos feliz do que ele se sentia antes. Então ele nomeou esse sentimento de “alegria”, e a partir daí convencionou-se que a alegria é uma espécie de felicidade temporária, boa, sim, mas não tanto quanto a felicidade original que ele perdeu.”&lt;br /&gt;“É injusto você conceituar a alegria como a felicidade dos trouxas. É mais ou menos como se a alegria fosse uma espécie de gorjeta, de consolo, a raspa da panela com a qual o sujeito tem que contentar depois que a felicidade dele vai embora.”&lt;br /&gt;“Não foi isso que eu quis dizer. Mas eu preciso ter certeza de uma série de coisas antes de afirmar que eu estou feliz. E eu preciso de ainda mais certezas para poder afirmar que eu sou feliz.”&lt;br /&gt;“Por exemplo? Você quer que eu te conte sobre o meu casamento? É isso?”&lt;br /&gt;“Sim, eu quero.”&lt;br /&gt;“E sobre todos os meus relacionamentos anteriores também? Sobre o primeiro cara com que eu transei? Sobre o meu primeiro beijo, com quem foi, quando foi, onde foi, se foi bom ou não, se eu fiquei feliz ou apenas ALEGRE com o meu primeiro beijo, com a minha primeira transa, com o meu casamento? É isso que você quer saber?”&lt;br /&gt;“Eu quero ter certeza do que estou sentindo por você. E eu só posso ter essa certeza quando souber quem é a pessoa que está aqui do meu lado, a pessoa que eu tenho vontade de beijar a cada vinte segundos, a dona dessa mão que eu não pretendo largar tão cedo, eu quero saber tudo, sim, tudo sobre você, e você pode saber tudo sobre mim também.”&lt;br /&gt;“Mas eu não quero. Eu não quero porque a vontade de segurar a tua mão e te beijar me bastam. Pena que eu não posso dizer o mesmo de você. Parece que você quer saber essas coisas sobre mim como forma de se proteger. Comparar os teus relacionamentos anteriores com os meus e tentar enxergar motivos para a gente estar junto. Você precisa de uma justificativa para gostar de mim, justo de mim, que pareço tão diferente de você, e é no meu passado que você pretende encontrar essa justificativa.”&lt;br /&gt;“Talvez seja isso mesmo. Você pode me acusar de qualquer coisa, menos de não estar sendo sincero.”&lt;br /&gt;“Teu conceito de sinceridade é estranho. Ser sincero, pra você, é abrir as pernas na cara de um desconhecido e convidar ele a vasculhar as tuas entranhas. Desculpa te decepcionar, mas essa é a última coisa que você pode esperar de mim. Eu não vou pagar pelos teus medos e pela sua insegurança. Já te disse uma vez que eu não era um livro de pensamentos onde você encontraria as respostas pras suas questões existenciais. Eu tenho tantas dúvidas quanto você.”&lt;br /&gt;“Eu te olho e vejo um ponto de interrogação, eu não sei o que posso esperar de você. Isso é muito complicado pra mim. Eu não quero dar passos em falso, me envolver demais e depois me decepcionar.”&lt;br /&gt;“Então tudo o que você precisa é de uma margem de segurança? Antes de entrar de cabeça num relacionamento, você precisa uma nota promissória de que ele vai dar certo? Deixa eu te perguntar uma coisa: tem funcionado essa sua estratégia?”&lt;br /&gt;“Eu não estaria aqui se tivesse funcionado. E é justamente por não querer cometer os mesmos erros que eu faço tanta questão de saber em que medida o nosso relacionamento pode funcionar.”&lt;br /&gt;“Você não quer repetir os mesmos erros, mas faz questão de manter o procedimento. Eu não te entendo. Você é contraditório demais.”&lt;br /&gt;“As melhores pessoas que eu conheço são contraditórias.”&lt;br /&gt;“É, eu também. Mas elas são capazes de assumir suas contradições. Você, ao contrário, fica disfarçando as suas contradições por trás de pretensas certezas, que só te levam a repetir os mesmos erros de antes e você simplesmente não percebe. Você não percebe. Você é um covarde.”&lt;br /&gt;“A sua estratégia também tem funcionado?”&lt;br /&gt;“Tem. Eu te conquistei com ela.”&lt;br /&gt;“Mas a que preço?”&lt;br /&gt;“Frustrar as tuas expectativas. Provar que você tem agido de forma errada esse tempo todo.”&lt;br /&gt;“Uma pena que você ainda não tenha conseguido me convencer.”&lt;br /&gt;“Você nunca vai se convencer. Você é daquelas pessoas que pautam a opinião dos outros pela sua. Os outros estão certos desde que concordem com você. Se não concordarem, então eles só podem estar errados. Porque o mundo gira em torno de você, todos os seus relacionamentos deram errado por culpa das pessoas com quem você se envolveu, e você é incapaz de parar pra pensar na tremenda coincidência que é o fato de todos os seus relacionamentos terem dado errado e o único elemento comum a todos eles ser você. Mas não, a culpa continua sendo sempre dos outros. Sabe por que eu não quero sabe nada sobre você? Porque eu gosto de me enganar, de me iludir. Se você me contasse sobre o seu passado, eu aposto que ia ouvir incontáveis histórias desse tipo, onde você sempre se põe no papel de vítima, e culpa os outros pela sua desgraça.”&lt;br /&gt;“E eu quero saber tudo sobre você pra ter a chance de fazer diferente.”&lt;br /&gt;“Quem te programou de forma tão eficiente? Porque é como se eu estivesse falando com um robô. Não existe um padrão, você é que criou esse padrão dentro da sua cabeça. Você utiliza esse padrão pra justificar os seus erros pra você mesmo. Você me disse que não acreditava em destino. É claro que você acredita. Você acredita num futuro já escrito, imutável, não te resta outra alternativa que não seguir o que está predeterminado, o que VOCÊ predeterminou pra você mesmo, por mais nocivo que seja, por mais que isso te faça infeliz.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então nessa hora ela se mexeu e eu despertei do meu devaneio. Acho que ela adormeceu ao som de “Ripple”, do Grateful Dead, porque tão logo a música começou a tocar, ela virou o corpo para o lado, me enlaçou com o braço esquerdo e recostou a cabeça no meu ombro. O balanço do ônibus, somado à voz maviosa de Jerry Garcia, levaram minha companheira de viagem a mergulhar no sono mais profundo, enquanto eu permaneci acordado durante todo o trajeto. Não sei se por influência da estrada ou dos pensamentos que a estrada praticamente me obriga a ter, me vi perdido em meio a uma discussão imaginária com ela, da qual não conseguia me livrar, e que felizmente se revelou um delírio, quando ela se mexeu e eu tive a certeza de que estava tudo bem. Revendo os eventos daquela tarde com uma boa dose de distanciamento crítico, entretanto, não sei dizer se a discussão imaginária foi interrompida pelo movimento brusco que ela fez ao despertar, ou se aquela discussão havia atingido um ponto tão crucial para o seu prosseguimento que eu simplesmente fui incapaz de dar continuidade a ela, como numa peça de teatro em que o ator fica tão chocado com a verdade contida no texto que acaba esquecendo do que tem para dizer na seqüência do diálogo, e perde a deixa. Nunca havia tido a oportunidade de vê-la dormindo. Ela me perguntou se faltava muito para chegarmos em Friburgo, eu menti e disse que ela podia dormir um pouco mais. Então ela se aninhou ainda mais nos meus braços, eu fiz o mesmo, coloquei “Free bird” pra tocar no volume máximo e afastei definitivamente (ou quase) todos os maus pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110925329634642002?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110925329634642002/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110925329634642002' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110925329634642002'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110925329634642002'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-12.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #12'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110891342712630915</id><published>2005-02-20T11:28:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:17:38.310-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #11</title><content type='html'>“And so it is/ Just like you said it would be/ Life goes easy on me/ Most of the time/ And so it is/ The shorter story/ No love, no glory/ No hero in her sky/ And so it is/ Just like you said it should be/ We'll both forget the breeze/ Most of the time/ And so it is/ The colder water/ The blower's daughter/ The pupil in denial/ Did I say that I loathe you?/ Did I say that I want to/ Leave it all behind?/ I can't take my eyes off of you/ I can't take my eyes off you/ I can't take my mind off you/ I can't take my mind.../ My mind...my mind.../ 'Til I find somebody new” (Damien Rice)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembram daquele amigo meu que havia desmanchado o noivado há coisa de poucos dias? Ele me liga dizendo que precisa desesperadamente falar comigo. Então eu pensei: me pegou pra Cristo, o desgraçado. Ele vai abusar da minha boa vontade, vai descarregar suas dores de amor em cima dos meus ombros e, como se a minha situação já não fosse por demais desfavorável, ele ainda tinha todo o jeito de quem ia encher a cara e depois descobrir que não tinha grana pra pagar a conta, o que me obrigaria a: 1) sustentar a bebedeira dele ou 2) carregá-lo nas costas pra casa depois da farra, já que eu não possuía carro. Mas o que a gente não faz pelos amigos, certo? Haha. Marcamos de nos encontrar na Saraiva Mega-Store do Centro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto espero por ele, passeio pelos corredores da seção de CDs e me dou conta do preço absurdo dos lançamentos. A menos de dois metros da entrada da Saraiva, um camelô vende, por cinco pratas, o CD novo do U2 que eu estava de olho há algumas semanas, e que na Saraiva custa em torno de 35 reais. Desço, compro o CD pirata e volto pra Saraiva. Agora posso observar, com ar de superioridade, os idiotas que se dispõem a desembolsar uma quantia sete vezes superior à que eu paguei, por um CD que vai tocar na minha casa da mesmíssima forma que o CD original vai tocar na casa deles, com uma singela diferença: se o meu CD estiver com defeito, o que é até bastante provável, uma vez que esses caras copiam os discos sem o menor cuidado, meu prejuízo foi de cinco reais, e eu precisaria comprar mais seis piratas do U2 com defeito para me equiparar ao prejuízo deles com um único disco. Agora, se por algum acaso, o CD de 35 comprado pelo bacana de terno e gravata que rasteja à minha frente der algum tipo de defeito, o que é raro mais ainda assim acontece uma vez ou outra, aí sim ele vai ter todos os motivos para se sentir a pessoa mais estúpida da face da Terra, e isso basta para que eu me sinta feliz por uns oito ou nove minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas adolescentes pseudo-roqueiras se aproximam da prateleira. Impressionante como algumas pessoas se esforçam para se adequar ao estereótipo que a própria sociedade lhes atribui. As duas garotas vestiam preto, usavam maquiagem carregada, coturnos, as mochilas eram rabiscadas à caneta esferográfica com o nome de suas bandas favoritas e elas mal conseguiam caminhar, de tantas correntes que penduraram pelo corpo. Elas passavam os olhos pelas prateleiras, parando ocasionalmente para celebrar o reconhecimento do CD de alguma banda nova e medíocre, naquele esquema que já está virando uma tradição: quatro caras mal-encarados, um vocalista na dúvida entre cantar rock e ser um rapper, berrando alguma letra estúpida sobre a necessidade impreterível de matar seus vizinhos homossexuais ou esquartejar um negro que roubou sua garota. A cada banda que elas exaltavam, minha vontade de vomitar aumentava, até que elas pararam em frente à letra “U”. A mais baixinha das duas fez menção em pegar o CD novo do U2, mas foi duramente reprimida pela amiga: “Larga isso, U2 não é rock!”, assim, desse jeito, como se a baixinha tivesse enfiado a mão dentro de uma privada suja de rodoviária. Apertei minha mochila contra o peito, como quem segura um crucifixo, e pensei “Perdoai, Senhor, elas não sabem o que fazem.”    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o meu amigo chegou e nós resolvemos pegar um ônibus até a Zona Sul. Entramos no pub da General Osório – cada centímetro quadrado daquele lugar parecia ter conservado a eletricidade que se desprendia dela naquele dia. Mal havíamos sentado e ele me confessou, visivelmente agoniado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não consigo. Eu não consigo mais me aproximar de nenhuma garota”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive vontade de rir, mas achei que seria uma grosseria imperdoável. Afinal de contas, o cara não apenas tinha desfeito um namoro de cinco anos como também arruinado uma amizade que já perdurava desde a época da faculdade, e isso não é coisa com que se brinque. Deixei que ele prosseguisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Andei saindo com uns amigos meus depois daquele dia. Eles me levaram para algumas boates, você ia odiar, lugares REALMENTE desprezíveis, e foi aí que eu descobri que não consigo mais me aproximar das garotas. Tentei puxar conversa com várias, dancei com outras tantas, até consegui o telefone de uma delas, mas o número que a vagabunda me deu era de um açougue. Na última vez em que eu me senti tão nervoso assim na hora de chegar numa garota eu tinha 13 anos. TREZE ANOS! Me vê mais uma cerveja...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de exercitar minha porção Mestre dos Magos, pensei. E era recomendável soltar os conselhos mais consistentes agora, enquanto ele ainda estava razoavelmente sóbrio. Mais tarde, depois da oitava ou nona Heineken, eu poderia até sugerir que ele cuspisse para o alto na tentativa de atrair alguma garota que era bem capaz de ele acatar o meu conselho sem pestanejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E eu era bom nisso, cara, eu era BOM nisso. Você lembra, é claro que você lembra, quando a gente se conheceu. Enquanto você era o cara que ficava sozinho pelos cantos, bebendo e reclamando da vida, eu estava sempre catando alguma garota, eu nunca saía das festas sozinho, tá lembrado?”&lt;br /&gt;“Ah, sim, ééé, obrigado pela parte que me toca, obrigado mesmo.”&lt;br /&gt;“Mas você sabe que é verdade. Se você me visse ontem, naquela boate, sendo cruelmente rejeitado por todas as garotas legais que eu abordava, você teria pena de mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tem uma lição que a vida me ensinou foi “nunca conteste um sujeito auto-piedoso”. Um cara nesse estado quer mais é que as pessoas se solidarizem, finjam entender a turbulência pela qual ele está passando, ainda que no fundo não dêem a mínima. Não adiantaria nada eu iniciar um longo sermão sobre a falta de significado das atitudes dele, era capaz de ele começar a chorar e isso, sim, seria terrivelmente constrangedor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, normal que você se sinta assim, você acabou de terminar um relacionamento longo, e isso é sempre desgastante...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu detestava fazer afirmações categóricas sobre o relacionamento alheio, ainda mais baseando meus argumentos em clichês sentimentais e opiniões do senso comum. Nem todo relacionamento longo que chega ao fim é desgastante. Às vezes a história toda dura muito menos e termina de forma muito pior, mas, naquele instante, me parecia mais cômodo recorrer ao senso comum do que forçar minha cabeça a elaborar um raciocínio original e complexo, ainda mais porque eu tinha certeza de que qualquer coisa que eu dissesse, por mais sensata que fosse, não faria a menor diferença na vida dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que eu tô enferrujado. Foram cinco anos de namoro com a mesma pessoa. Nesses cinco anos, e você tem todo o direito de não acreditar em mim, eu nunca traí ela com outra garota. Nem em pensamento, quer dizer, depende do que você considera traição em pensamento, mas sei lá, em nenhum dos casos a pessoa com quem eu estava traindo ela fazia parte do meu círculo de amigos, era mais assim, uma modelo de revista ou uma atriz de cinema tipo Angelina Jolie, não conta, né?”&lt;br /&gt;“Não, não conta.”, e eu estava rindo por dentro, Deus que me perdoe.&lt;br /&gt;“Então. Você não acredita que quando o cara passa muito tempo sem fazer determinada coisa, simplesmente porque fazer a coisa se torna desnecessário, ou fazendo determinada coisa sempre com a mesma pessoa, o sujeito acaba ficando enferrujado? Se você parar pra pensar, é que nem carro, cara. É que nem carro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu odiava quando as pessoas recorriam a metáforas automobilísticas para expressar seus estados d’alma. Me lembrei de uma amiga minha que explicava sua aversão por música eletrônica utilizando argumentos semelhantes: “Eu sou uma garota, não um robô, ou um carro”, e eu comecei a rir. O meu amigo pensou que eu estava rindo da situação dele, e aproveitou o álibi alcoólico para dizer algumas verdades na minha cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você fica aí rindo, mas nem todo mundo gosta de ficar andando sozinho pra cima e pra baixo que nem você. Mais uma cerveja. Você acha o quê, que a gente acredita que você é feliz?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que ao longo dos últimos dias devo ter fornecido provas incontestáveis da minha sordidez, mas se tem uma coisa que ninguém pode me acusar é de ser um mau amigo. Qualquer outra pessoa na situação em que me encontrava, sendo obrigado a escutar passivamente as coisas que ele me dizia – a maioria delas verdades incontestáveis, devo admitir, soltaria uma nota de dez sobre a mesa do bar e cairia fora. Eu não. Eu fiquei ali. E a fonte de revelações sobre a minha pessoa que ele possuía parecia não se esgotar. O sermão durou uns dez minutos, durante os quais desenvolvi uma capacidade de abstração fantástica e comecei a tentar imaginar quantas batatas gratinadas vinham na porção servida pelo pub a doze reais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que deu-se a merda. Sabe-se lá como, o meu amigo bateu os olhos numa garota loura que estava sentada perto da janela, sozinha, lendo a Marie Claire e mexendo no cabelo enquanto tomava seu chope. Antes que eu pudesse impedi-lo, ele se levantou e caminhou trôpego na direção dela. Em menos de cinco minutos a garota estava sentada conosco. Eu fiquei constrangido por duas razões: primeiro, porque já havia testemunhado alguns gringos agindo de forma semelhante nos bares da vida, e esse tipo de comportamento sempre me incomodou profundamente. Em segundo lugar, porque ele começou a pedir cervejas pra ela, garantindo “Eu pago! Eu pago!”, e eu sabia que ele não tinha dinheiro nem para as próprias cervejas, quanto mais para as cervejas dela, e ela parecia ser boa de copo. De resto, era chatíssima, possuía uma voz irritante, usava brincos de argola através dos quais seria possível fazer passar um rinoceronte e tinha o péssimo hábito de bater com o salto do sapato nas pernas da mesa enquanto falava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui invadido por uma vontade incontrolável de sair dali o quanto antes. Esvaziei minha terceira garrafa e levantei para ir ao banheiro. Planejava ficar lá por uns 15 minutos: eu preferia inventar que estava com dor de barriga e suportar todas as gozações decorrentes dessa mentira do que passar mais um minuto sequer na companhia daqueles dois. Mas ao chegar no banheiro, percebi que não havia nada de muito interessante para ocupar meu tempo lá, então simplesmente urinei, lavei as mãos e o rosto, respirei fundo e desci. Os dois conversavam animadamente sobre a academia em que ela malhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu conhecia aquele sujeito. Por mais boçal que ele parecesse à primeira vista, e por mais que seu comportamento pós-término apenas reforçasse minhas suspeitas nesse sentido, eu sabia que agir daquela forma cafajeste o incomodava. De vez em quando ele me lançava uns olhares, e eu percebia o quanto aquela garota estava deixando ele entediado, mas da mesma forma que o Princípio do João-Bobo necessariamente me levava de volta à inércia, o Princípio que regia o comportamento do meu amigo atuava no sentido de impedir que ele terminasse mais uma noite sozinho. Era quase um reflexo inconsciente de seu organismo obrigando ele a agir de determinada forma, “ei, que tal chegar logo nessa garota e arranjar um belo par de pernas onde eu possa repousar essa noite?”, era mais ou menos assim que ele funcionava. Então, por causa daquele par de pernas e de todo o resto, ainda que, ao meu ver, só o par de pernas lhe significava alguma coisa pela qual valia a pena lutar, ele aceitava suportar aquela conversa sobre academias, cachorros de estimação, baladas iradas e o ex-namorado bombado dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não era obrigado a agüentar aquilo, mesmo porque meu único consolo ao final daquela noite seria o fato de a garota estar de carro e me oferecer uma carona até o centro da cidade. Eu não dava a mínima para o que eles fariam depois, se cada um iria para o seu canto ou se, ao contrário, os dois iriam pra casa dela e teriam uma noite alucinante de sexo selvagem, haha, foi ridículo, eu sei, mas sempre quis escrever “noite alucinante de sexo selvagem” num texto e nunca tive a oportunidade. Pouco me importava se os dois jamais se veriam de novo, se engatariam um namoro firme, ou se transariam uma única vez sem camisinha, então um mês depois ele me ligaria dizendo que precisava falar comigo desesperadamente e eu saberia, antes mesmo que ele me contasse, que a menina das argolas gigantes estava grávida e pensando em fazer um aborto, e como ele estaria sem grana pra bancar a operação e ela não tinha uma boa relação com os pais, se eu não poderia dar uma forcinha, e tal... Decidi que a única coisa que pagaria àqueles dois seria uma rodada de chopes. Deixei o dinheiro sobre a mesa e fui embora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei em casa morrendo de dor de cabeça e fui me deitar. Acordei quando eram dez pras duas da manhã, com o celular tocando. A simples possibilidade de ser ela me ligando para cancelar a viagem, e eu tinha acabado de comprar as passagens, quase me impediu de atender o telefone. Mas não era ela, era o meu amigo. Ele estava ligando, acreditem em mim, do telefone de um motel. Minha primeira reação foi dizer “Porra, cara, me deixa dormir. Você ainda vai ter que pagar uma taxa extra por esse telefonema”, mas ele parecia indiferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E agora, o que eu faço?”&lt;br /&gt;“Hã? Cadê a menina?”&lt;br /&gt;“Tá no banho, por isso eu tô falando baixinho. Mas não é aquela menina do bar não, é outra que eu encontrei depois.”&lt;br /&gt;“Ah, que ótimo”, então resolvi ser sincero, “Oh, cara, não me ligue às duas da manhã pra me dizer essas coisas.”&lt;br /&gt;“Eu não sei o que fazer. Tô com medo de ser um fracasso retumbante.”&lt;br /&gt;“E eu com isso? Você quer que eu vá até aí dar uma força?”&lt;br /&gt;“Eu só queria compartilhar com alguém a minha angústia.”&lt;br /&gt;“Não, você queria compartilhar com alguém a sua conquista. Não tem aquela história de que se você não conta pros seus amigos, não aconteceu?”&lt;br /&gt;“Tá tarde pra lição de moral, cara.”&lt;br /&gt;“Também tá tarde pra um telefonema, ainda por cima de um motel.”&lt;br /&gt;“Ela tá vindo, o que que eu faço?”&lt;br /&gt;“Tem TV aí?”, perguntei.&lt;br /&gt;“Tem.”&lt;br /&gt;“TV a cabo ou só o canal pornô?”&lt;br /&gt;“TV a cabo, completa. Melhor do que lá em casa.”&lt;br /&gt;“Bacana. Escuta, faz o seguinte”, e eu estava morrendo de sono e furioso porque a dor de cabeça estava voltando, então me esgueirei até a mesa de cabeceira e peguei a revista de programação, “você confia em mim, não confia?”&lt;br /&gt;“Confio, confio. Eu retiro tudo aquilo que eu disse sobre você ser um frustrado infeliz.”&lt;br /&gt;“Ah, ok, ok. Escuta, você quer criar um clima bacana, não quer? Sintoniza no canal 34.”&lt;br /&gt;“O que tá dando no 34?”&lt;br /&gt;“Você não confia em mim?”&lt;br /&gt;“Confio, confio. Ai, ela tá vindo.”&lt;br /&gt;“Então. Sintoniza no 34. Boa noite, cara. E boa sorte.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O 34 era o canal católico. Quando não estava transmitindo uma missa, era de lei ter umas velhinhas ultra-maquiadas rezando o terço ou fazendo orações dos mais variados tipos. De alguma forma, o espírito daquele meu amigo sádico que recomendava “Calígula” para as clientes idosas da locadora em que ele trabalhava me possuiu naquela noite. Eu jamais havia sentido o impulso de me vingar de alguém até aquele dia. Foi só eu deitar a cabeça no travesseiro e o celular tocou de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seu babaca. Invejoso da porra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele continuou me xingando, de “invejoso da porra” pra baixo, e eu fui afastando o telefone do ouvido, até que a voz dele ficou cada vez mais distante, distante, distante... Me ocorreu que, além do aluguel do quarto, ele agora teria que pagar por dois telefonemas. Eu, sinceramente, não me importava. Talvez agora ele aprendesse a lição. Dormi em paz, como se tivesse feito a maior de todas as boas ações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(precisa dizer que continua?)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110891342712630915?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110891342712630915/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110891342712630915' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110891342712630915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110891342712630915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-11.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #11'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110859809727099068</id><published>2005-02-16T19:53:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:18:56.433-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #10</title><content type='html'>“Oh, Mother, I can feel the soil falling over my head/ and as I climb into an empty bed/ Oh, well/ Enough said/ I know it’s over/ and it never really began/ but in my heart it was so real/ and you even spoke to me and said:/ ‘If you’re so funny/ then why are you on your own tonight?/ Love is Natural and Real/ but not for such as you and I, my love’ ” (The Smiths)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trancado no meu quarto, elaboro um set list composto de músicas de rock ligeiramente bregas que a minha situação atual me autoriza a escutar. A lista é encabeçada por “Wild is the wind”, uma canção da dupla Tiomkin-Washington que o David Bowie regravou no disco “Station to station”. Se você parar pra pensar, 90% do repertório de determinado astro do rock é composto por músicas bregas, ainda que o fato de ele ser considerado um músico de rock o legitime a gravar canções sobre amores desfeitos, paixões desesperadas e traições imperdoáveis, o que em outras circunstâncias bastaria para que ele fosse considerado cafona ou antiquado. O que me permite afirmar que a diferença entre uma música do Julio Iglesias e uma do Aerosmith é menor do que se possa imaginar, e se essa diferença existe, então ela está mais expressa no arranjo da canção do que em seus versos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A título de exemplo, pegue qualquer música do Elvis Costello. Eu fico com “Almost blue”, que além de ser uma das minhas favoritas, consegue deixar evidente aquilo que eu pretendo demonstrar. A letra de “Almost blue” diz “Almost blue/ almost doing things we used to do/ there’s a girl here and she’s almost you/ almost all the things that your eyes once promised/ I see in hers too/ now your eyes are red from crying/ almost blue/ flirting with this disaster became me/ it named me as the fool who only aimed to be/ almost blue”, e por aí vai. Em essência, “Almost blue” (como quase todas as músicas de Elvis Costello) contém todos os elementos daquilo que o senso comum habituou chamar de “música de corno”, “dor-de-cotovelo” ou “trilha sonora de fossa”. O que diferencia “Almost blue” de uma música como “Because you loved me” da Celine Dion é que, ao invés dos violinos, dos sintetizadores e da atmosfera de rendez-vouz da música da Celine Dion, o Costello foi esperto o suficiente para embalar seus versos de profundo desamor com um arranjo jazzístico pra ninguém botar defeito, tanto que a música foi regravada alguns anos mais tarde pelo grande trompetista de jazz Chet Baker. Aí você escuta a música da Celine Dion sem prestar atenção na letra e pensa logo “Isso é brega!”. Ouve “Almost blue” e pensa “Uh, cool, sensível, doloroso...” mas sem perceber que, em essência, é a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que a gente não vive só de essência. Em essência, todas as histórias são histórias de amor e isso não quer dizer que eu encare com a mesma devoção um filme do Truffaut e uma comédia romântica com a Jennifer Lopez. Da mesma forma, enquanto eu considero Elvis Costello um dos maiores poetas do rock de todos os tempos, a Celine Dion sequer se dignifica a entrar na lista das Coisas Mais Deploráveis Que Já Tive o Desprazer de Escutar, porque ela consegue a proeza de ficar abaixo dessa lista, no limbo dos tormentos inclassificáveis ou em qualquer pocilga que a mereça. Sei lá, só pra deixar bem claro que a minha comparação entre Elvis Costello e Celine Dion foi feita com fins estritamente científicos: mandando a objetividade às favas e assumindo o meu lado emocional, Costello é Deus e Dion é lixo, e tenho dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de “Wild is the wind” (“With your kiss my life begins/ You’re spring to me, all things to me/ Don’t you know you’re life, itseeeeeelf!”, pois é...), pensei em “Lady D’Arbanville”, do Cat Stevens; várias do Elton John; “The bitterest pill (I’ve ever had to swallow)”, do The Jam, cujo título, por si só, já é uma coisa; em seguida, emendaria uma seqüência com o melhor de Travis, Coldplay, alguma coisa da fase inicial do Radiohead, depois “All I want is you” do U2 (junto com “One”, “Stay”, “So cruel” e “Love is blindness”), “Perhaps, perhaps, perhaps” na versão do Cake, e enquanto refletia seriamente se “Is she really going out with him?” do Joe Jackson merecia entrar na lista mais do que “Mistress” do Red House Painters, o telefone tocou. Eu corri pra atender, era ela. Não nos falávamos há cerca de uma semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por onde você andou?”, ela me perguntou, doce e incisiva, como sempre. &lt;br /&gt;“Eu tava esperando você retornar a minha ligação. Como eu tinha te ligado da última vez, não quis parecer invasivo e fiquei esperando você me ligar de volta.”&lt;br /&gt;“Que ligação?”&lt;br /&gt;“Você não recebeu o recado que eu deixei no seu celular?”&lt;br /&gt;“Recado? Então foi você que deixou aquela mensagem na minha caixa postal? Há quase uma semana?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se fui eu? Ora, quem mais ligaria pro seu celular às nove e meia da noite, ao som de “Behind that locked door” do George Harrisson, só para dizer que sentia falta dela? Mas exigir explicações nesse sentido seria uma violação do nosso pacto, ainda que pedir detalhes sobre essa outra pessoa que costumava ligar para o celular dela e deixar mensagens sentimentais não fosse uma pergunta sobre seu passado, mas sim sobre o nosso presente. Como, por enquanto, as coisas estavam apenas na esfera da paranóia, minha paranóia, diga-se de passagem, eu achei por bem deixar quieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não ouvia absolutamente nada, era uma barulheira só, você tava onde, numa boate?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o relógio, falta pouco para as cinco da tarde. Sinto meu estômago roncar, vai ver pelo fato de ele, o meu estômago, estar acostumado a fazer um lanchinho nesse horário. Então ela começa a falar ininterruptamente sobre a aula de ioga da noite anterior, e eu tenho vontade de repousar o telefone sobre a mesinha de cabeceira do quarto, correr até a cozinha e pegar um pacote de biscoitos, apostando comigo mesmo que, ao retornar, ela ainda estaria falando sobre a aula de ioga, e sobre as novas posições que aprendeu, e sobre o lótus e o yin e o yang, e eu tenho vontade de perguntar onde acontece essa aula, quantas pessoas estão matriculadas na turma, se o professor, quer dizer, se o mestre, é homem ou mulher, e se, em se tratando de um mestre-homem, ele já havia lhe oferecido carona alguma vez depois das aulas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro ronco. Meu Deus, eu não devia estar me sentindo tão indiferente em relação às coisas que ela estava me contando, eu fingia que ouvia, intercalava silêncios com providenciais “ahns” e “sims”, mas no fundo eu não queria saber da aula de ioga, eu queria saber de seus traumas de infância, de seus brinquedos favoritos, se ela gostava ou não de festinhas de aniversário, e quando deu o primeiro beijo, e quando se apaixonou pela primeira vez, e o casamento com o Senhor Rock’n’Roll, quando vocês se conheceram, como começou, por que acabou, mas sobre isso ela não queria falar, “nada de perguntas sobre o passado”, ela disse, e eu ficava tentando imaginar onde diabos ela pretendia chegar com isso. Lembro que há um pacote de amendoim na gaveta da escrivaninha do computador, estico o braço para tentar alcançá-la mas no meio do caminho tem um porta-retratos e o porta-retratos vai ao chão. Ela interrompe a narração sobre a aula de ioga para me perguntar “O que foi isso?”. Eu respondo que derrubei um vaso de plantas que estava em cima da escrivaninha, e que a mesa do computador ficou cheia de terra por causa do acidente, então que eu precisava de dois minutinhos para ir até o banheiro pegar vassoura e pá de lixo. Eu já volto, foi o que eu disse, e aproveito o intervalo para ir na cozinha pegar biscoitos. Julguei que a interrupção fosse demovê-la da idéia de prosseguir com o relato sobre a aula de ioga, mas quando eu volto para o telefone ela me pergunta “Onde foi que eu estava mesmo?” e aí eu sinto meu estômago vazio querer saltar pela boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto abro o pacote de biscoitos, começo a estabelecer relações improváveis entre a minha fome às cinco da tarde e a minha reação ao telefonema dela. Funciona mais ou menos da seguinte forma: quando eu estou em casa na parte da tarde, não consigo resistir à vontade de fazer um lanche por volta das cinco horas. Pode ser qualquer coisa, desde tomar um simples cafezinho até comer um pedaço de pão com manteiga e chocolate quente, não importa. O problema é que, nos dias em que resolvo sair de casa e passar a tarde fora, no cinema ou numa loja de discos, a fome das cinco horas geralmente me ataca de forma mais impiedosa, o sacana do meu estômago provavelmente percebe que eu não estou em casa e resolve aprontar pra cima de mim. Quando eu estou na rua e sinto fome, corro pra primeira padaria que encontro pela frente e peço um misto-quente ou 100 gramas de pastelzinho de queijo. Mas quando a fome das cinco horas me ataca dentro do cinema, não há o que fazer a não ser esperar o filme acabar pra fazer uma boquinha. Foi num desses dias, em que a fome me atacou dentro do cinema, que eu fiz a descoberta mais interessante: a fome das cinco horas é puramente psicológica. Nas vezes em que sentia a fome e acabava cedendo aos seus apelos, percebia que voltava a ter vontade de comer quando eram sete e meia, oito horas da noite. Mas nas vezes em que estava impossibilitado de sair pra procurar comida e não tinha outra alternativa que não engolir saliva e respirar fundo, percebia que depois de uma meia-hora, lá pelas cinco e meia, a fome passava, e eu só voltava a sentir vontade de comer alguma coisa lá pelas nove da noite. Um avaliador mais otimista diria que eu havia aprendido a vencer a fome das cinco horas. Já eu acho que havia me acostumado a ela mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fome das cinco horas e a solidão são bastante parecidas entre si. No início, você se sente sozinho e isso te incomoda profundamente, e você começa a ficar desesperado, tentando de tudo quanto é jeito encontrar uma forma de contornar essa solidão. Aí você finalmente descobre como minimizar o sofrimento decorrente do fato de estar sozinho –  encontrando alguém, naturalmente – e, aos poucos, percebe que a presença dessa pessoa ameniza os efeitos da solidão apenas durante um curto período de tempo, e que logo depois você volta a se sentir sozinho. Talvez tentar vencer a solidão não seja a estratégia mais adequada, simplesmente porque, uma vez que você tenha tendência à solidão, dificilmente você conseguirá vencê-la, assim como é praticamente impossível, de uma hora pra outra, deixar de sentir a fome das cinco horas. Mas se você começa a tentar se acostumar a essa solidão, ao invés de tentar combatê-la num esforço que será, quase sempre, inútil e vazio de significado, é bem provável que no final das contas você atinja resultados mais favoráveis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que eu estava sozinho e me sentindo bem, obrigado, até ela aparecer na minha vida. Não que ocasionalmente eu não tivesse as minhas recaídas, e aí, nesses dias, eu ficava insuportavelmente melancólico, torrava meu dinheiro comprando livros e discos e vendo filmes, andava sem destino certo pelas ruas e só voltava pra casa no final da noite. Evitava lugares muito movimentados, shoppings centers, a praia, praças, qualquer lugar em que a probabilidade de ter o meu caminho atravessado por centenas de casais felizes de mãos dadas fosse alta. Ao mesmo tempo em que fugia das pessoas, procurando a sessão de cinema menos concorrida no horário menos requisitado, bastava que uma menina sozinha entrasse na sala para que eu iniciasse uma série de complexas operações mentais, cujo objetivo primário seria forçar uma aproximação aparentemente acidental, e então eu revirava a mochila à procura de um livro ou de um CD que, corretamente manipulado diante dos olhos da pessoa em questão, poderia provocar um reconhecimento imediato e o desejo de puxar conversa, e às vezes basta romper essa barreira inicial que sempre se estabelece entre duas pessoas desconhecidas para que o resto aconteça de forma quase automática. Nunca dava certo. Na maioria das vezes, a outra pessoa ignorava solenemente a minha tentativa de chamar atenção: a estratégia que eu utilizava era tão sutil, mas tão sutil, que talvez só eu fosse capaz de reconhecê-la com propriedade. E eu sempre escolhia pessoas que, de certa forma, julgava serem parecidas comigo, o que tornava tudo ainda mais difícil, porque nessas circunstâncias você nunca sabe se a outra pessoa te ignora porque percebeu a sua estratégia ou se, no fundo, ela apenas finge te ignorar, porque está utilizando uma estratégia semelhante para chamar a sua atenção e você, perdido em seus próprios devaneios, não consegue se dar conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora eu segurava o telefone, e do outro lado da linha havia uma pessoa que me cativara, que conseguira romper a barreira que me separava do restante do mundo e que eu me dedicara a construir durante tanto tempo, e ela praticamente me contava como havia sido o seu dia – durante um tempo, a possibilidade de ter alguém que faria questão de me contar como havia sido o seu dia era algo que me fascinava sobremaneira – e eu tinha vontade de desligar o telefone, e só voltar a encontrá-la quando ela se dispusesse a me contar as coisas que eu realmente queria saber, porque, no fundo, a coisa que eu mais desejava no momento era a chance de saber tudo sobre a vida dela, quais veredas ela havia percorrido antes que nossos caminhos se cruzassem. Me encantava a possibilidade de descobrir que, um dia, antes mesmo de termos noção da existência um do outro, havíamos compartilhado o mesmo espaço, respirado o mesmo ar, comprado ingresso para a mesma sessão do mesmo filme, ou que havíamos nos cruzado acidentalmente na saída de determinada loja, ela indo e eu vindo, ou vice-versa, e que, por uma questão de segundos, não estivemos juntos no mesmo lugar antes de nos conhecermos. Para quem gosta de atribuir significados transcendentes às coisas, e enxergar conexões cósmicas entre eventos totalmente isolados no espaço-tempo, como forma de justificar os pequenos acontecimentos que fazem a vida ter sentido – ainda que um sentido estranho e muitas vezes incompreensível – e por mais que eu negasse veementemente essa tendência inconfessável, ter acesso a esse tipo de informação sobre ela apenas reforçaria a minha expectativa de que algo de bom nos aguardava no futuro, e que nosso encontro não havia acontecido à toa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse desejo era parte de uma tarefa muito maior, porque eu precisava justificar pra mim mesmo o que estava sentindo por ela, e não parecia haver melhor maneira de encontrar essa justificativa do que procurando por coincidências entre nossas vidas. Isso me permitiria passar por cima das coisas que me desagradavam, superar futuras decepções antes mesmo que elas se verificassem na prática e, sobretudo, aquietar o pequeno demônio dentro de mim que volta e meia me despertava durante o sono só para dizer “Você não percebe que isso vai dar errado? Que na hora H você vai ferrar com tudo? Que mais cedo ou mais tarde o encanto vai passar e isso vai ser culpa SUA?”. Eu mandava ele calar a boca e tentava voltar a dormir, mas sabia que esse pequeno demônio raramente se enganava no que dizia respeito à minha vida. Eu me sentia como um joão-bobo sendo violentamente atingido por golpes vindos de todas as direções, e era ela quem desferia esses golpes contra mim, pois fora ela que me retirara do estado de inércia em que eu me encontrava: mas passada a sucessão de golpes, bastava a minha agressora resolver fazer uma pausa para descansar e eu retornava à posição inicial – inércia ou solidão, chame como quiser – e o joão-bobo sempre retorna à posição inicial não porque ele quer, mas simplesmente porque ele não consegue fazer diferente. É da natureza do joão-bobo sofrer golpes e mais golpes que tentam tirá-lo de sua posição inicial e, no final das contas, retornar a ela, é tudo uma questão de física, e a física sempre me pareceu algo além de qualquer contestação. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, meteria os pés pelas mãos no meu relacionamento com ela, por inexperiência ou incapacidade, e quando isso acontecesse, seria única e exclusivamente em virtude do meu desejo de saber mais sobre a vida dela e romper, voluntariamente, o nosso pacto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Escuta”, ela disse, “acho que semana que vem o pessoal do site vai me dar uma folga. O que você acha da gente passar uns dias fora?”&lt;br /&gt;“Uma viagem?”, eu perguntei, afastando para longe os pensamentos sombrios.&lt;br /&gt;“É, uma viagem, você tá a fim? Só não responde “pode ser”, pelo amor de Deus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma viagem necessariamente aproxima duas pessoas, isso é fato. Passar dois ou três dias tendo a outra pessoa como única companhia funciona como uma espécie de prova de fogo para qualquer relacionamento – amizade, principalmente. Há quilômetros de distância de casa, num lugar desconhecido onde geralmente não tem nada pra fazer, qualquer mínima desavença pode se transformar num cataclisma de proporções internacionais: ao mesmo tempo em que você não vai fazer a menor questão de manter uma situação insuportável que lhe corrói as entranhas, arrumar as malas, pegar o primeiro ônibus que aparecer e mandar a outra pessoa voltar sozinha não é uma atitude nem um pouco gentil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tenho uma amiga que morava em Nova Friburgo, daí ela arranjou emprego aqui no Rio e se mudou, mas o apartamento de Friburgo continua no nome dela, e tá vazio... Acho que ela não se incomodaria de ceder o espaço pra gente por uns três, quatro dias. E aí, tá a fim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava encontrar uma resposta o quanto antes. É óbvio que a vontade de entrar num ônibus, pegar a estrada e passar alguns dias com ela acima do nível do mar era o meu impulso mais forte no momento. Mas por outro lado, me assustava a possibilidade de termos um apartamento inteiro à nossa disposição. Era quase como ter a oportunidade de simular, durante três ou quatro dias, como seria a nossa vida caso resolvêssemos morar juntos e dividir um apartamento. Então eu senti, mais uma vez, o tempo se distender diante dos meus olhos, e sob os meus pés, e era como se aquele relacionamento, que mal durava uma semana, já estivesse completando dois, três anos de existência. Certamente, três ou quatro dias em Friburgo me permitiriam ter uma noção de como seria esse futuro que, por enquanto, só existia na minha cabeça. Mas será que eu gostaria de ter uma amostra concreta desse futuro assim, tão cedo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então me ocorreu o seguinte pensamento: vou encarar essa viagem como um teste. Pensei no apartamento de Friburgo como o cenário de um reality show bizarro, cujos personagens seriam ela e eu. Eu já havia visitado a cidade uma pá de vezes, então não fazia a menor questão de conhecer pontos turísticos, passear de charrete ou andar de teleférico. Se dependesse da minha vontade, ficaríamos confinados no apartamento durante toda a viagem, saindo apenas para fazer compras ou comer alguma coisa, e depois de alguns dias isolados do restante do mundo, me parecia impossível que algumas verdades sobre o nosso relacionamento, e sobre o que eu sentia por ela, principalmente, não viessem à tona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu topo.”&lt;br /&gt;“Legal. Vou ligar pra essa minha amiga então e acertar os detalhes com ela. Você pode cuidar das passagens?”&lt;br /&gt;“Claro, claro, quando você acha melhor a gente ir?”&lt;br /&gt;“Tava pensando em aproveitar o fim de semana... A gente podia subir sábado à tardinha e voltar quando desse na telha. Ou quando a gente se cansasse da cara um do outro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperei que ela desse uma risada sarcástica, findo o último comentário, mas ela permaneceu em silêncio, o que eu encarei como um péssimo sinal. Então concordei em comprar as passagens o quanto antes, e prometi que voltava a ligar quando estivesse tudo certo. Nos despedimos, eu me levantei para jogar fora o pacote de biscoitos que a essa altura estava vazio, e resolvi voltar pra minha listinha de músicas bregas, mas aí era tarde demais, a inspiração estava irremediavelmente perdida, e eu decidi concentrar meus esforços em outra tarefa: gravar um CD com Músicas para Ouvir na Estrada, a trilha sonora da minha condenação, que não tardaria a acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110859809727099068?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110859809727099068/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110859809727099068' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110859809727099068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110859809727099068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-10.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #10'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110831528452737809</id><published>2005-02-13T13:19:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:20:23.240-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #9</title><content type='html'>“The last time I saw Richard was Detroit in '68,/ And he told me all romantics meet the same fate someday/ Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe/ You laugh, he said you think you're immune, go look at your eyes/ They're full of moon/ "Richard, you haven't really changed," I said/ It's just that now you're romanticizing some pain that's in your head/ You got tombs in your eyes, but the songs/ You punched are dreaming/ Listen, they sing of love so sweet, love so sweet/ When you gonna get yourself back on your feet?/ Oh and love can be so sweet, love so sweet” (Joni Mitchell)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um casal de amigos meus surpreendeu meio mundo anunciando que, em breve, iria se casar. Eles trabalhavam como diagramadores numa conceituada editora, e não sei se em virtude da necessidade de se permanecer em silêncio durante o horário de trabalho, eles de alguma forma tentavam compensar a ociosidade de suas respectivas gargantas na maior parte do dia falando pelos cotovelos quando saíam comigo depois do expediente. Fui o primeiro a saber da notícia, o que não me deixou nem um pouco honrado, porque quando eles me anunciaram o noivado eu fui incapaz de esboçar qualquer reação de felicidade, e tive que me segurar um bocado para não deixar escapar um “Mas por quê?!?” incrédulo que faria qualquer um arrancar o anel de noivado do dedo e atirar na privada no mesmo instante, puxando a descarga logo em seguida para não deixar nenhum vestígio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E quando vai ser o casamento?”&lt;br /&gt;“Daqui a uns quatro, cinco meses. Talvez eu seja promovido na editora. Tô contando com isso para financiar a cerimônia, o bufê, essas coisas...”&lt;br /&gt;“E se a sua promoção não sair?”, eu perguntei, para me arrepender logo em seguida.&lt;br /&gt;“Como assim, se não sair? Vai sair. Eu tenho fé que vai sair.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fé. Haha, tá bom. Resolvi mudar de assunto, mas eles pareciam querer continuar falando do maldito casamento. Pedi outro chope pro garçom, tentei abstrair do fato de estar na companhia de dois amigos quase recém-casados numa espelunca da Cobal de Botafogo, o que em si constitui uma tremenda redundância, já que todos os bares da Cobal de Botafogo parecem espeluncas, principalmente os que ficam mais próximos do setor de carga e descarga de mercadorias, onde o cheiro de repolho estragado é insuportável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente tá pensando em fazer a cerimônia e a recepção no sítio dos meus pais em Nova Friburgo, o que você acha disso?”&lt;br /&gt;“Eu gosto da idéia, mas fico preocupado com os convidados. Não sei se todo mundo estaria disposto a subir a serra pra assistir ao nosso casamento.”&lt;br /&gt;“O que você acha disso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha pavor da possibilidade de eles me perguntarem algo do tipo “Seja sincero: você subiria a serra para assistir ao nosso casamento?” e eu, invadido por uma vontade incontrolável de ser sincero e atender às expectativas dos dois, respondesse “Claro que sim, desde que alguém pague a minha passagem e eu possa comer e beber de graça no bufê...”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que os nossos amigos, eu quero dizer, os nossos amigos de verdade, vão fazer questão de ir, com toda a certeza, independente de onde seja realizada a cerimônia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esteja tão certa disso, querida. Eles até podem aceitar subir a serra, mas no fundo, eles vão estar pensando apenas na comida do bufê, e considerando seriamente a possibilidade de algum otário lhes oferecer carona para descer a serra depois do casamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nova Friburgo é muito longe. Eu acho que a gente podia fazer a cerimônia por aqui mesmo, e a recepção na casa dos meus tios em Itaipava.”&lt;br /&gt;“Mas a minha mãe faz questão de que a cerimônia e a recepção sejam em Friburgo. Senão minha avó, que é doente, não vai poder assistir ao meu casamento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a vovó certamente preferiria ficar em casa, vendo a novela das oito, do que passar duas horas dentro de uma Igreja quente e abafada, sendo obrigada a sentar e levantar de cinco em cinco minutos, repetir juramentos nos quais ninguém mais parece acreditar e depois, como se não bastasse, ouvir os comentários dos primos e parentes distantes que farão questão de se aproximar dela só pra dizer, sorriso falso de um lado, vontade de cair fora do outro, “como a senhora está conservada”, e ela vai se sentir bem por alguns instantes, para em seguida limpar, com a barra da saia, o beijo melado do netinho ultra-sensível que borrou-lhe a maquiagem, quase sempre excessiva, mas ninguém parece interessado em saber o que a vovó acha disso tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas você parece não se importar com isso.”&lt;br /&gt;“Não é que eu não me importe com a sua avó. Eu só tô tentando pensar nos convidados, só isso.”&lt;br /&gt;“Mais do que na minha avó.”&lt;br /&gt;“Não é isso...”&lt;br /&gt;“Enfim. Vai ser em Friburgo, tá decidido.”&lt;br /&gt;“Eu ainda acho que a gente podia pensar mais um pouco. A gente podia começar a consultar os nossos amigos, que tal, fazer uma lista de prováveis convidados e ligar pra eles, ver quem topa e quem não topa subir a serra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo me dizia que eles resolveriam começar a investigação pelo amigo mais próximo deles no momento, e esse amigo, infelizmente, era eu, então pedi mais um chope pra servir de inspiração. Ah, se pelo menos aquele alto-falante do bar vizinho começasse a tocar alguma coisa boa, eu teria algo com que me distrair enquanto os dois ficassem falando do casamento, e eles seriam incapazes de perceber que eu nem estava mais ali.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente nunca consegue chegar num consenso, é impressionante. Se dependesse de você, a gente ia esperar pra ficar noivo só depois da sua promoção na editora.”&lt;br /&gt;“Mas eu achava melhor esperar. Você é que quis apressar as coisas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho assustador quando duas pessoas que pretendem se casar em menos de seis meses iniciam um diálogo com a frase “a gente nunca consegue chegar num consenso”. Quer dizer, começa por aí, o casamento é uma espécie de consenso, fulano aceita sicrano por livre e espontânea vontade, aquela coisa toda. Se você está prestes a dividir sua vida com outra pessoa, é recomendável que vocês tentem exercitar a arte do consenso primeiro antes de se atirarem do precipício de forma tão decisiva, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se não fosse eu “apressando as coisas”, a gente ia fazer 30 anos e continuar namorando...”&lt;br /&gt;“O que não me incomodaria nem um pouco. Quer dizer, você falou de um jeito aí... Então depois que a gente se casar a gente vai deixar de ser namorado?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pergunta dele, a princípio, me pareceu inaceitável, porque eu olhava pra cara do meu amigo e via um profissional bem sucedido de 27 anos, e não um sujeito boçal com idade mental de 5 anos; ao meu ver, só um boçal com idade mental de 5 anos seria capaz de perguntar à futura esposa se depois de casados eles iam deixar de ser namorados, mas depois percebi que a pergunta dele não tinha nada de ingênua, e era perfeitamente válida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você tá brincando, né?”&lt;br /&gt;“Olha, quando a gente se conheceu, a gente era amigo, não era? Nós três, mas aí depois a gente acabou indo trabalhar na editora, a gente ficou ainda mais amigo, e depois começou a namorar. A questão é, quando a gente começou a namorar, a gente deixou de ser amigo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entenderam agora o que eu quis dizer? Eu, sinceramente, achava que ele fosse incapaz de um raciocínio tão complexo. Fiquei tão surpreso com a capacidade intelectual dele que tive vontade de perguntar, afinal de contas, onde diabos ele estava com a cabeça quando decidiu namorar, noivar, e casar com aquela alga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Anda, responde. A gente deixou de ser amigo?”&lt;br /&gt;“É diferente. São duas coisas completamente diferentes, amor e amizade.”&lt;br /&gt;“Então se a gente terminasse o nosso relacionamento um dia, a gente deixaria de ser amigo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegava a ser impressionante o fato de, mesmo após cinco anos de namoro, eles jamais terem tido uma conversa sobre esse assunto. Eu comecei a me sentir honrado, agora sim, de estar ali testemunhando aquele momento crucial na vida de um casal prestes a ser unido pelos laços sagrados do matrimônio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Anda, responde.”&lt;br /&gt;“Eu acho impossível duas pessoas continuarem amigas depois de dormirem juntas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última frase foi dita com tanta ênfase que o casal da mesa ao lado espichou as orelhas para escutar melhor. Eu estava gargalhando por dentro. A farsa estava vindo à tona, uma farsa sustentada por cinco anos de olhares trocados entre duas pessoas que não faziam a mínima idéia do que se passava na cabeça do outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Uma pena que você pense assim, porque se tem uma coisa que eu gostaria de preservar, mesmo depois que nosso relacionamento acabasse, é a nossa amizade.”&lt;br /&gt;“Você espera o quê? Que quando a gente tiver terminado, eu vou ser sua amiguinha? Que quando eu estiver em casa, à toa, domingo à tarde, eu vou te ligar pra gente ir ao cinema junto e depois tomar uma cerveja? Então deixa eu te contar uma novidade: isso não vai acontecer, simplesmente porque nunca dá certo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui obrigado a concordar com ela. Isso é fato: nunca dá certo. Mas seria bom que desse, e que as pessoas se esforçassem para que desse, ao invés de partirem de uma idéia pré-concebida de que não vai dar certo para depois comprovar, na prática, que não tinha como dar certo mesmo. Concordar com ela naquele momento, entretanto, não significava que eu estivesse tomando o partido dela naquela discussão, sim, porque aquela conversa havia deixado de ser conversa há tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você acha certo jogar fora tudo aquilo que a gente tinha de bom quando era amigo por causa de uma besteira?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O erro dele foi usar a expressão “por causa de uma besteira” como conclusão de sentença. De alguma forma, as palavras utilizadas por ele adquiriram o efeito de uma lança apontada diretamente para o coração dela. A metáfora é brega, eu sei, mas um casal prestes a jogar no ralo uma relação que já dura mais de 7 anos por causa de “uma besteira” merece, sim, todas as metáforas bregas do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É assim que você vê o nosso relacionamento? Como uma besteira? Você é muito imaturo mesmo...”&lt;br /&gt;“Não foi isso que eu disse. E imatura é você, acreditando que dois ex-namorados não podem manter uma relação, pelo menos, cordial.”&lt;br /&gt;“Você não falou de cordialidade. Você falou de continuarmos amigos, é bem diferente.”&lt;br /&gt;“Como se você fosse capaz de ser cordial. Aposto que, se a gente terminasse aqui e agora, você iria embora sem pagar a conta, e quando a gente se esbarrasse de novo na rua, você ia olhar para o outro lado e fingir que não me conhece.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, camarada, não quero te desapontar não, porque eu sei que, ao fazer essa projeção de futuro nada animadora, no fundo você ainda conservava alguma esperança de que ela fosse dizer “É claro que eu não faria isso, meu amor” e te beijar logo em seguida, mas o fato é que olhar para o outro lado e fingir que não te conhece é exatamente o que ela vai fazer quando vocês dois se esbarrarem na rua. E o fato de você ter empregado o aposto condicional “se a gente terminasse aqui e agora” definitivamente piorou as coisas, porque você apenas deu mais um nó na corda que enforcaria o seu próprio pescoço em questão de vinte segundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se é isso que você quer, então a gente termina aqui e agora. Que tal?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que ele pudesse esboçar um “Peraí...” carregado de sentimento, ela pegou a bolsa, jogou uma nota de dez sobre a mesa – pelo menos a conta ela pagou, tive vontade de observar, mas achei melhor deixar pra lá – e foi-se embora. Julgava que ele fosse o tipo de cara passional, que sairia correndo atrás dela, se desfazendo em lágrimas e pedindo perdão por um crime que ele não havia cometido, mas definitivamente ele tirou o dia para me surpreender: o meu amigo chamou o garçom, pediu outro chope e exclamou, esvaziando uma tulipa ainda meio-cheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente perde tempo com umas pessoas que não valem a pena, né?”&lt;br /&gt;“Ééééé...”, e eu estava imensamente satisfeito com ele, que pela primeira vez em muitos anos demonstrava estar aprendendo as regras do jogo, o mecanismo da coisa, e, a menos que regredisse à idade mental de 5 anos ou fosse acometido por um surto irreversível de estupidez, jamais cometeria um erro semelhante no futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí ele disse que precisava ir embora, lembrou de uns amigos que, por causa das exigências possessivas da ex-noiva-namorada-amiga, ele não encontrava há séculos e decidiu chamá-los para tomar um chope, uma vez que estava definitivamente livre do fardo que tanto o atormentara nos últimos anos. Não sei. Desconfio que a história do chope com os amigos não passou de uma desculpa, provavelmente ele pegou o carro, foi pra casa, se trancou no quarto e desidratou de tanto chorar. Porque, no final das contas, as coisas acontecem que nem naquela música do Neil Young, onde ele diz o seguinte, a respeito do personagem principal da canção: “There was a woman he knew / About a year or so ago / She had something that he needed / And he pleaded with her not to go / On the day that she left / He died, but it did not show”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paguei a conta e andei até o ponto de ônibus. No meio do caminho, não sei se em virtude da cena que havia testemunhado há pouco, senti uma vontade incontrolável de ligar pra ela. O telefone celular dela chamava, chamava, e ninguém atendia, e eu já não sabia mais se havia ligado na hora da aula de ioga, do curso de alemão, ou se ela não estava a fim de atender mesmo. Então fiz algo que jamais havia feito antes. Peguei um ônibus até o Espaço Unibanco, que ficava a quatro quarteirões dali, faltava meia-hora para as nove e a livraria anexa ainda devia estar aberta. Entrei correndo na livraria, fui até a seção de LPs antigos e procurei feito um louco o vinil triplo de “All things must pass” que havia encontrado por ali há cerca de uma semana. Pedi encarecidamente ao balconista da loja que botasse a faixa 3 do lado B do disco 1 enquanto dava um telefonema. Ele estranhou o meu pedido, lógico, ainda mais porque eu tinha tomado umas cervejas e devia estar com hálito e cara de bêbado. Liguei para ela. Chamou, chamou, ninguém atendeu, entrou a mensagem da caixa postal, e eu, ao som de “Please forget those teardrops/ Let me take them from you/ The love you are blessed with/ This world’s is waiting for/ So let out your heart please, please/ from behind that locked door”, aguardei alguns segundos em silêncio até que finalmente me sentisse preparado, física e mentalmente, para registrar minha breve mensagem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Queria que você estivesse aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110831528452737809?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110831528452737809/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110831528452737809' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110831528452737809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110831528452737809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-9.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #9'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110806080743674966</id><published>2005-02-10T14:39:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:22:27.503-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #8</title><content type='html'>“All of the king's horses / And all of the king's men/ Couldn't pull my heart back together again/ All of the physicians and mathematicians too/ Failed to stop my heart from breaking in two/ /You left me high, you left me low/ Now as I lie in pieces/ And wait for your return/ Still all I need is you, I just need you/ Yeah you got the glue/ So I'm gonna give me heart to you” (Travis)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava matando meu tempo na Satisfaction Discos, conversando com o dono da loja sobre a minha indiferença em relação a Jimi Hendrix (revelação que ele encarou inicialmente com um certo desdém, para só depois perceber que eu estava falando sério e iniciar um longo sermão sobre o fato de Hendrix ter praticamente reinventado a guitarra elétrica, ao que eu rebati demonstrando por A+B que Duane Allman, sim, poderia ocupar o posto de maior guitarrista de todos os tempos, maior do que Hendrix, Clapton, bastava conferir o solo dele em “Jessica” para ver que eu não estava totalmente equivocado), e na dúvida entre gastar 30 reais num LP do Neil Young ou 25 em dois CDs do Belle &amp; Sebastian, quando ela telefonou para o meu celular. A conversa foi breve, ela disse apenas “Eu preciso falar com você” e sugeriu que nos encontrássemos mais tarde na Gávea, antes que ela fosse pro curso de alemão. Haviam se passado menos de 24 horas desde o nosso último encontro, e eu juro que tinha a intenção de telefoná-la mais tarde, mas ela se antecipou ao meu movimento, então decidir sair da Satisfaction Discos sem comprar nada, peguei um ônibus e em cerca de 40 minutos estava na Gávea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois fiquei sabendo que tanto o curso de alemão quanto o célebre site de esoterismo no qual ela trabalhava possuíam sedes na Gávea, razão pela qual ela escolheu o bairro para ser o local de nosso quarto encontro. A Gávea jamais seria uma opção pra mim. A Gávea me incomoda profundamente, e isso não tem nada a ver com o fato de eu achar corridas de cavalos a segunda coisa mais chata do mundo, depois de cerimônias de casamento: a Gávea sempre me remete àquela pseudo-intelectualidade boêmia que bate ponto nos bares do “Baixo” e nos filmes recentes do Domingos de Oliveira. Saltei na Praça Santos Dumont e resolvi esperar pela chegada dela na Tracks. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu celular toca enquanto estou contemplando um vinil importado e caríssimo do Tom Petty and the Heartbreakers chamado “Hard promises”, e a referência não podia ser mais adequada, porque o tom de voz dela parece ainda mais grave do que no telefonema anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde você está?”&lt;br /&gt;“Na Tracks.”&lt;br /&gt;“A gente não marcou no shopping?”&lt;br /&gt;“Marcou, mas não tem nada pra fazer no shopping e eu preferi fazer uma hora aqui.”&lt;br /&gt;“Porque eu já tô aqui no shopping.”&lt;br /&gt;“Ok, então tô indo praí.”, foi o que eu disse com a voz mais cool do mundo, ainda que por dentro as minhas entranhas estivessem dando saltos mortais, então me despedi do Tom Petty e de todos os amigos caríssimos que jamais ostentarei na minha estante e fui-me embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que alguma coisa de extremamente grave havia acontecido parecia evidente. Restava descobrir o quê. Apressei o passo até o shopping, depois me dei conta de que, quanto mais eu corresse, mais esbaforido chegaria para encontrá-la, e isso daria a péssima impressão de que: a) eu estava fazendo alguma coisa errada quando ela me ligou, fui pego no flagra e tive que sair do local correndo, feito um criminoso; b) eu estava nervoso. Desacelerei, ainda que isso pudesse retardar a minha chegada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No que diz respeito ao ponto a), isso agora me parece muito claro, mas levou um tempo até que eu descobrisse que essa minha tendência a achar que estava sempre fazendo algo de errado era conseqüência da minha educação católica. Minha família sofria da Síndrome de Jesus Cristo, minha mãe principalmente, ela acreditava piamente que sua missão na Terra era converter os pecadores e aliviar os aflitos, porque Jesus havia morrido pelos pecados da Humanidade e ela tinha por obrigação fazer o mesmo. Quando meu pai quebrou a bacia depois que caiu da escada enquanto consertava o telhado, ela decidiu dedicar todo o seu tempo e toda a sua vida a cuidar dele. A dedicação era tanta que ela não conseguia arranjar tempo, inclusive, para ir ao médico fazer um exame de rotina ou algo assim – achava que ir ao médico era uma perda de tempo, e o tempo que ela desperdiçaria indo ao médico era o tempo que ela tinha para ficar ao lado do meu pai caso ele sentisse vontade de beber água ou ir ao banheiro, sendo que isso continuou acontecendo mesmo depois que meu pai se recuperou do acidente e voltou a ser capaz de beber água ou ir ao banheiro com as próprias pernas, porque ela continuava achando errado deixá-lo a mercê da sorte, sozinho em casa, afinal de contas o caminho da cozinha é cheio de perigos indescritíveis, e sempre há a possibilidade de um cometa resolver se chocar com a Terra justo na hora em que ele decidisse se levantar da cama para urinar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um belo dia minha mãe apareceu com uma mancha vermelha na perna esquerda, perto da virilha. Depois de um monumental esforço de convencimento para levá-la ao médico e obrigá-la a fazer uns exames, acabamos descobrindo – vejam só que ótimo – que ela estava com câncer. O tratamento já dura para além de cinco anos, e a cada dia que passa eu sinto que a saúde dela piora, mas enfim, isso é uma outra história. O fato é que ela tentava me persuadir a seguir o mesmo caminho de mártir que ela havia optado por trilhar, então certa vez eu lhe respondi, como forma de encerrar uma discussão que já se arrastava por horas, que Jesus podia até ter morrido pelos pecados de alguém, mas não pelos meus. Ela perguntou se isso que eu havia citado era Sartre – o único filósofo contemporâneo que ela conhecia – e eu respondi que não, que era Patti Smith mesmo, e nossa conversa terminou aí. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, volta e meia me surpreendo reproduzindo esse comportamento questionável da minha mãe, experimentando um profundo sentimento de culpa diante da situação mais corriqueira. Nessas horas, construía um cenário assustador na minha cabeça, imaginando que chegaria ao shopping da Gávea e ela estaria me aguardando há horas, furiosa, e quando nos encontrássemos ela me encheria de perguntas do tipo “Você se importa mais com um vinil ou comigo?”, cuja resposta, pelo menos por enquanto, até que aquele impasse se esclarecesse, eu era incapaz de fornecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subo as escadas rolantes pulando os degraus de dois em dois para chegar mais rápido ao andar dos teatros. Ela está tomando um café no quiosque em frente ao Teatro das Artes, ou dos Quatro, quem se importa? Eu me aproximo, ela se levanta, e eu fico tão sem saber o que fazer quanto nas outras ocasiões pré-beijo em que estivemos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vai me dar um beijo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então tá, pensei. Eu é que devo estar ficando paranóico, pra variar. Não aconteceu nada de tão terrível assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente precisa conversar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, aconteceu sim. Dava pra sentir o peso com que ela pronunciava as vogais. Respirei fundo, fundo mesmo, já antevendo que aquele encontro não seria exatamente agradável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não te contei isso antes porque as nossas conversas nunca chegavam perto desse assunto, e eu achei que seria forçar a barra te obrigar a falar a respeito disso, mesmo porque até ontem eu não fazia idéia do que ia acontecer entre a gente. Eu podia ter dito ontem, mas... Tinha sido tão bom. Eu não queria estragar o teu dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estragar o meu dia? Tive vontade de dizer que ela havia sido extremamente gentil em não querer estragar o meu dia ontem, mas que se ela não dissesse logo o que tinha pra me dizer, ia acabar estragando o meu dia HOJE, e todos os próximos cinco dias também, se eu tivesse sorte. Não fui capaz de deixar que ela prosseguisse antes de eliminar, de cara, uma certa dúvida que me corroía desde o princípio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você tem alguém, é isso?”&lt;br /&gt;“Não. Não, não tenho, não tenho mesmo”.&lt;br /&gt;“Então...?”&lt;br /&gt;“O fato de eu estar solteira não significa que eu esteja disposta a ter alguma coisa, entende?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pude prever exatamente onde ela queria chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como é que eu posso te explicar isso, deixar isso claro pra você, sem ter que te contar a história da minha vida?”&lt;br /&gt;“Bom, eu tenho todo o tempo do mundo. Você pode me contar a história da sua vida, se você quiser.”, e eu quebrei o palito de dentes que estava segurando, joguei os pedaços sobre a mesa e me recostei na cadeira, feito um personagem de filme policial barato.&lt;br /&gt;“Aí é que está o problema. Eu não quero.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o relógio. Nosso encontro ainda não havia chegado à marca fatídica dos 15 minutos, portanto, até que esse tempo transcorresse, era preciso jogar o jogo dela. Frustração mútua de expectativas, lembram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não quero que você saiba tudo sobre mim. Eu não quero me sentir invadida. E às vezes eu sinto que já falei mais do que devia sobre a minha vida pra você.”&lt;br /&gt;“Por exemplo...?”&lt;br /&gt;“Naquele dia na praia, por exemplo.”&lt;br /&gt;“A história do cachote?”&lt;br /&gt;“É, a história do cachote. E você parece ser o tipo de cara que, mesmo sem querer, acaba fazendo com que as pessoas te contem histórias sobre a vida delas...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, e você não é a primeira a me dizer isso. Vários amigos meus já disseram que eu pareço uma pessoa extremamente confiável, seja lá o que isso for, e que quando elas menos percebem, já estão me contando suas vidas, seus traumas e suas frustrações. Até hoje não sei se isso é um elogio ou uma ofensa, mas para o meu azar estou diante de uma pessoa que considera isso a maior de todas as ofensas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que eu não sei”, ela fez uma pausa antes de prosseguir, para ajeitar o cabelo, “é se você faz com que os outros ajam dessa forma inconscientemente, ou se, no fundo, você é dessas pessoas que gosta de saber tudo sobre a vida de alguém, não que isso faça de você um fofoqueiro ou algo assim”, uma risada, “acho que você entendeu o que eu quis dizer.”&lt;br /&gt;“Acho que sim.”&lt;br /&gt;“A questão é que desde o nosso primeiro encontro eu senti esse seu lado confessional. Quando você me contou aquela história sobre os gostos musicais das pessoas por quem você já se apaixonou, eu pensei, ‘Peraí, eu conheço esse cara há menos de meia hora e ele já tá me contando essas coisas?’.”&lt;br /&gt;“Já parou pra pensar se não é você que provoca esse tipo de comportamento nas pessoas?”, isso, muito bom, seu grande covarde, continue atribuindo aos outros a responsabilidade pelos SEUS defeitos. &lt;br /&gt;“Acho que não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma boa resposta, tenho que admitir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então a gente tava lá naquele bar, e você falando da sua vida para uma desconhecida, e aí eu comecei a pensar o que você queria de mim, afinal? Aquela história de dissertação de mestrado só me convenceu até os cinco minutos do primeiro tempo. O meu medo era que você começasse a achar que o fato de você estar me contando várias coisas sobre você meio que te desse o direito de tentar obter informações equivalentes sobre a minha vida.”&lt;br /&gt;“Porque você não estaria disposta a me revelar nada, é isso?”&lt;br /&gt;“É, é isso.”&lt;br /&gt;“Por quê?”&lt;br /&gt;“Porque não.”&lt;br /&gt;“Isso não é resposta.”&lt;br /&gt;“Tá, você quer uma resposta completa então: porque eu não quero me envolver demais. Só isso. Quando você começa a contar detalhes da sua vida pra outra pessoa, você meio que autoriza a outra pessoa a entrar na sua vida, e é justamente isso que eu quero evitar. E nem se atreva a me perguntar “Por quê?” outra vez.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última frase ela concluiu com um sorriso sincero, o primeiro do dia, e ela me deixou ainda mais confuso, porque o sorriso dela tinha a capacidade de me desmontar. Acho que ela entendeu o meu silêncio como uma espécie de “Por quê?” elíptico, já que ela se deu ao trabalho de responder a uma pergunta que, pelo menos declaradamente, eu não havia feito, ainda que desejasse saber a resposta mais do que qualquer outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não precisa me perguntar o porquê. Você já sabe o porquê. Foi uma das poucas coisas que eu te contei sobre mim, naquele dia na praia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história do cachote sobreveio à minha memória como uma espécie de trauma fundamental, algo a que ela estava condenada a se submeter pelo resto da vida, o equivalente ao dia em que eu descobri que Papai Noel não existia, sei lá, quando eu pedi uma daquelas Naves Imperiais da série “Guerra nas Estrelas” e, como os brinquedos tinham saído de circulação, meu pai resolveu descer a rua, entrar na primeira papelaria que encontrasse aberta em plena manhã de Natal e substituir a Nave Imperial por um pacote de horríveis soldadinhos de plástico. Mas ter consciência disso não era suficiente, pelo menos não pra mim. Ainda era necessário esclarecer várias coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se você tinha isso tudo tão claro na sua cabeça, então porque você aceitou me encontrar de novo? E porque ontem a gente...”&lt;br /&gt;“Por que a gente se beijou ontem? Ou seria melhor perguntar “por que eu deixei você me beijar ontem”? Deixa eu te contar outra coisa, caso você não tenha desconfiado, eu tive vontade de te beijar desde o primeiro dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi pedir um café também. Bem forte. E com muito açúcar. Nessas horas, eu tinha vontade de ser fumante, a cena certamente ficaria bem mais interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depois que você me mandou o segundo ou terceiro e-mail, eu resolvi entrar naquele site de comunidades virtuais onde você me achou. Eu li o teu perfil. Agora isso não me surpreende nem um pouco, mas, caramba, o teu perfil era interminável, eu lembro de ter pensado “Esse cara não vai parar de listar as bandas preferidas dele, não?”, haha...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, foi muito engraçado. Muito engraçado mesmo. O garçom veio com o meu café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Achei que você podia ser um cara legal, ainda que não fizesse a menor idéia de como você seria fisicamente...”&lt;br /&gt;“Não gosto de colocar fotos no perfil justamente para evitar que pessoas unicamente interessadas em como eu sou fisicamente tentem se aproximar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi o nível de pretensão da última frase e fiz questão de me corrigir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não que muitas pessoas façam questão de se aproximar de mim por causa da minha aparência, é que...”&lt;br /&gt;“Ah, deixa de falsa modéstia.”, uma pausa e então ..., “Eu te achei atraente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então. Percebi que você podia ser um cara legal e decidi aceitar o teu convite. A última coisa que eu queria era você enchendo o meu ouvido com aquele papo sobre a minha tese. Eu não dou a mínima pra minha tese. Aliás, eu não dou a mínima para o meio acadêmico em geral, não sei onde eu estava com a cabeça quando resolvi emendar graduação, mestrado e doutorado. Não me adiantou de nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trinta e um? Trinta e um?!? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então você emendou a graduação com a pós?”&lt;br /&gt;“Pra você ver. E olha que eu entrei pra faculdade cedo, aos 17 anos. Eu me transformei na mais jovem doutora em Comunicação Social do Brasil, haha. No dia da defesa da minha tese, atravessando a rua até o estacionamento onde eu tinha deixado o meu carro, me distraí com os documentos que estava carregando e acabei sendo atropelada por uma bicicleta...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte e nove? Vinte e nove! Ela pode até não entender isso, e com certeza ela não apenas não entende como também não aceita, mas eu acredito que as pessoas ficam ainda mais bonitas, e parecem ainda mais jovens – ela, principalmente – quando falam a respeito de suas vidas. Deixei que ela prosseguisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você ainda quer que eu te diga porque topei te encontrar uma segunda vez, e te disse aquelas coisas no carro, antes de ir embora, e porque aconteceu aquilo entre a gente ontem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que não. Mas faria um bem danado ao meu ego escutar aquilo, então fiz um gesto com a mão direita que indicava a minha vontade de ouvi-la completar seu raciocínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque eu quis. E ainda quero.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquela altura do campeonato, já havia entornado duas xícaras de café extraforte. Não tinha dinheiro para outra rodada, até porque pretendia voltar na Tracks antes que a loja fechasse e comprar o tal LP do Tom Petty and the Heartbreakers. Sugeri que fechássemos a conta e fôssemos embora. Ela topou me fazer companhia até a loja, de onde ela seguiria para o curso de alemão, não sem antes me dar um beijo e me fazer prometer que eu jamais faria qualquer pergunta, por mais aparentemente inócua que fosse, sobre a vida ou o passado dela. Meu erro, e hoje percebo isso com a maior clareza, foi ter dito que sim, porque sob a empolgação de um beijo você acaba fazendo as promessas mais absurdas, ainda que tenha plena consciência de que será incapaz de cumpri-las depois, e então, quando alguém te cobrar o mínimo de fidelidade à resposta original, não te restará outra alternativa que não pedir desculpas, ou ficar em silêncio, o silêncio reservado aos culpados, o silêncio daqueles cujo único crime foi ter acreditado demais na própria ficção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110806080743674966?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110806080743674966/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110806080743674966' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110806080743674966'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110806080743674966'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-8.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #8'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110773055549052956</id><published>2005-02-06T18:54:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:23:47.546-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #7</title><content type='html'>“Nine million rainy days / have swept across my eyes / thinking of you / and this room becomes a shrine / thinking of you / and the way you are/ as far as i can see / there is nothing left of me / and all my time in hell / was spent with you” (The Jesus &amp; Mary Chain)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso terceiro encontro aconteceu cerca de cinco dias após o encontro anterior. Seria mais fácil dizer que combinamos de nos encontrar numa quinta-feira, mas a questão é que, desde sábado, meu calendário havia sofrido uma alteração substancial, e eu mensurava o tempo de uma forma cada vez mais particular, tomando como referência a última vez em que havia estado junto dela, então minha semana se iniciara no sábado, terminaria na quinta, e o espaço entre sábado e quinta seria subdividido de acordo com o número de vezes que meu pensamento era invadido pelas lembranças daquela tarde que passamos na praia, critério que transformou meu desejo de fundar um novo calendário numa tarefa despropositada e interminável, visto que ela estava em meu pensamento durante boa parte do dia, e para dar conta de comprimir todas aquelas lembranças num espaço de 24 horas, cada hora com 60 minutos, cada minuto com 60 segundos, e cada segundo, por sua vez, subdividido em décimos, centésimos, milésimos, décimos de milésimos, e daí cada vez mais rápido, era preciso dobrar o tempo como uma folha de papel e encontrar uma unidade que fosse capaz de medir o tempo da memória contido no interior do tempo-padrão, cada dobra exigindo uma nova dobra, e assim sucessivamente, até o infinito. Desisti do calendário quando percebi que, dentro da lógica (lógica?) que havia inventado para justificar empiricamente minha vontade de encontrá-la de novo, o período de tempo equivalente a um dia do calendário romano correspondia a duas eras geológicas no meu calendário particular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez, os detalhes do encontro foram acertados por e-mail. Ao mesmo tempo em que o receio de telefoná-la não me paralisava tanto quanto antes, por outro lado o “acho que não vai dar” ou “fica pra próxima” ouvido ao telefone me parecia mais doloroso do que qualquer resposta negativa escrita numa mensagem composta por zeros e uns. Então sugeri que nos encontrássemos no Espaço Unibanco de Cinema, por volta das 19 horas, não sem antes consultar a página de agenda que ela havia anexado à primeira mensagem que trocamos,  para me certificar da disponibilidade dela no horário das 19 horas, e a quinta-feira surgiu como conseqüência natural dessa investigação, posto que a quinta-feira era o único dia da semana em que ela parecia estar livre a partir das quatro. Ainda assim, fiz questão de manter o encontro para as 19 horas, julgando que, caso fosse do interesse dela passar mais tempo comigo, ela não teria nenhum empecilho profissional ou pessoal que a impedisse de remarcar o encontro para mais cedo. Foi o que aconteceu. Ela respondeu à mensagem perguntando se havia problema em marcarmos nosso encontro para as 17 horas. Não, claro que não, eu respondi de volta, e era a mais pura verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de ter prometido encontrá-la no hall do Espaço Unibanco de Cinema (“Se eu não estiver naquelas mesinhas perto da sala 3, estarei no mezanino, com certeza”, foi o que escrevi), fiquei com receio de sugerir que aproveitássemos a viagem para ver algum filme, por duas razões: primeiro, a obrigatoriedade de se ver um filme, qualquer filme, reduziria o tempo que teríamos para conversar sobre outros assuntos. Nos encontraríamos faltando cerca de dez, quinze minutos para o início da sessão. Quando o filme estivesse prestes a começar, não teríamos outra escolha que não interromper a conversa, com a intenção de retomá-la mais tarde. Só que, uma vez terminada a sessão (e por mais curto que fosse o filme ele dificilmente tomaria menos de noventa minutos de nosso precioso tempo), provavelmente teríamos vontade de discutir o filme, levantar possíveis interpretações para determinada cena, tentar relembrar outros filmes realizados pelo mesmo diretor ou elenco, e o assunto original estaria irremediavelmente perdido. Quando subitamente nos sobreviesse a lembrança da conversa que estávamos a ter antes de as luzes se apagarem, aí seria hora de alguém – ela, provavelmente – ir embora, e seria preciso outro dia, outra conversa, outra sessão, para que os desdobramentos daquele assunto original saíssem da esfera da especulação e assumissem uma dimensão mais concreta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era só isso. O outro receio dizia respeito ao filme que escolheríamos assistir. Para contornar esse temor, fui obrigado a mentir no e-mail, e dizer que não fazia idéia dos filmes que estavam sendo exibidos no Espaço Unibanco naquela semana, ainda que soubesse não apenas o nome dos filmes exibidos como também os horários de cada sessão, e que na hora, diante da bilheteria, teríamos tempo de fazer a escolha mais adequada. Tudo isso era uma forma de contornar possíveis decepções. O fato de encontrá-la no Espaço Unibanco revelava mais sobre as certezas que eu tinha a respeito dos meus locais preferidos do que sobre a incerteza que me dominava quando o assunto eram os locais preferidos dela. O pub de Ipanema não pareceu agradá-la – menos um ponto pra mim. O bar da Orla também não – menos dois pontos – ainda que o prolongamento daquele encontro, na praia, tenha funcionado bastante, menos por iniciativa minha e mais por iniciativa dela, que parecia gostar de praia, já eu odiava praia, mas qualquer praia, até a praia de Ramos, se torna a Côte D’Azur se ela está por perto. Como não me opus à caminhada na areia, pode ter ficado subentendido que eu também gosto de praia, e isso reduz meu saldo negativo para menos um ponto, o que, apesar dos pesares, ainda é bastante ruim. Bom, ela não se opôs ao encontro no Espaço Unibanco de Cinema, mas ela também não havia se oposto ao encontro no bar da Orla, e deu no que deu... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que eu não sabia absolutamente nada sobre as preferências cinematográficas dela. O Espaço Unibanco surgiu como um local agradável, silencioso, propício a uma boa conversa, independente dos filmes em cartaz. Óbvio que eu explodiria de felicidade caso partisse dela o convite, e “hmmm, tem um filme, acho que é francês, em cartaz na sala 2, você tá a fim de ver?”, antes mesmo que eu sugerisse qualquer coisa, antes mesmo que declarasse minha paixão por cinema francês, isso bastaria para que meus sentimentos por ela crescessem de forma assustadora dentro de mim, diante de mais essa saudável afinidade revelada. Por outro lado, seria terrivelmente trágico se eu sugerisse “a gente bem que podia assistir ao relançamento do Eric Rohmer em cartaz na sala 2” e ela respondesse com um “eu não suporto filme com câmera parada e muito falatório” ou “porque a gente não passa no Cinemark e vê o que tá passando?”. Seria como se a imagem de perfeição que eu me dedicava a construir dentro da minha cabeça, no intervalo de tempo entre nossos encontros presenciais, subitamente se desfizesse, e no lugar da admiradora em potencial de cinema europeu que nascia nas engrenagens da minha memória, eu desse à luz uma fã do Vin Diesel devoradora de combos mega com manteiga e refrigerante grande. Que mais cedo ou mais tarde a gente acaba se decepcionando com a pessoa por quem a gente se apaixona tudo bem, é natural e certo como dois e dois são quatro, mas que isso aconteça antes mesmo que eu possa ter certeza do que sinto por ela, aí já me parecia um pouco demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, no final das contas, a maioria das pessoas inventa a paixão que julga sentir por alguém, e ao dizer isso não pretendo esfacelar o relacionamento de ninguém ou afirmar categoricamente que toda paixão é uma mentira. Não é isso. Vou tentar ser mais claro: suponhamos que a paixão possa ser representada por um gráfico em forma de queijo suíço, tridimensional, portanto, mas sem o odor característico do queijo suíço, ainda que algumas paixões cheirem tão mal quanto. Nosso gráfico possui, portanto, uma superfície cujo diâmetro mede aproximadamente vinte centímetros, é um queijo médio e uma paixão idem, nem indiferente e nem avassaladora. O gráfico também possui uma espessura, algo em torno de cinco centímetros, digamos. Imaginando que o gráfico represente a paixão, como julgamos demonstrar, posso afirmar que a superfície do queijo, digo, do gráfico, representa a paixão efetivamente vivida na presença da pessoa amada, e todo o resto, todas as camadas inferiores que conferem volume ao gráfico, representam a paixão tal e qual ela é recriada e imaginada na memória dos amantes. Não é preciso ser um gênio da matemática ou se perder em cálculos extensos para que se chegue à conclusão desejada: a maior parte da paixão que você sente por alguém é vivida dentro da sua cabeça, nos momentos em que você está distante da pessoa amada, nos instantes de solidão, nas horas de tédio, e é nessas horas em que você se põe a criar uma pessoa amada, na sua cabeça, diferente da pessoa amada que você tem nos braços durante a maior parte do tempo. A pessoa amada que você cria é capaz de reunir todas as características, as preferências, os gostos que você desejaria que a pessoa amada que você efetivamente ama tivesse mas não possui, ou possui e você não sabe, porque ninguém jamais terá acesso à totalidade de outro, muito menos à totalidade de si próprio, quanto mais à do outro, ouso afirmar, agora sim, categoricamente. E é essa paixão concebida pelas engrenagens da memória, capaz de reunir fragmentos de paixões passadas e futuras, vividas e não-vividas, reais e virtuais, sugeridas pelo relato de um amigo ou sentidas na própria carne, é essa paixão que dá sustento à paixão real, posto que pertence à lógica do sonho, onde tudo é possível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o que sinto por essa ilustre desconhecida que cruzou o meu caminho é paixão, ainda não posso afirmar com clareza, mas sei que, enquanto aguardo ansiosamente por sua chegada no hall do Espaço Unibanco de Cinema, tomando uma cerveja que me custou cinco reais e cinqüenta centavos, recorro à imagem do queijo suíço como forma de justificar a confusão em que me vejo mergulhado desde que a encontrei. Porque todas as paixões que vivi, concretizadas e não concretizadas, de certa forma começaram e terminaram como paixões inventadas. A diferença é que as paixões não-concretizadas jamais perdem seu status de ficção e, por mais que provoquem dor e desalento, permanecem na memória como um roteiro nunca filmado, o que me autoriza a revisitá-las ocasionalmente, à procura de alguma inspiração. Já as paixões concretizadas são ficções que tomam forma, dramas encenados no palco da vida, mas cuja constante reinvenção se mostra indispensável para que a paixão concreta sobreviva. Quando a paixão concretizada chega ao fim, você encontra uma maneira de reinventar o término, reinventar o segundo ato, reinventar a seqüência de abertura, e no final das contas você descobre que reinventou a paixão inteira, inclusive as motivações que levaram aquela paixão a se tornar concreta, a ponto de ter dúvidas se a paixão algum dia existiu de verdade ou foi, do princípio ao fim, uma ficção sordidamente bem construída.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chega. É estranho. Sinto como se ela tivesse me surpreendido trocando de roupa, ou algo assim. Começo a transpirar, principalmente nas mãos. Não estendo a mão para cumprimentá-la, nem sinto o impulso de abraçá-la, quer dizer, impulso de abraçá-la eu sinto sim, o que me falta é coragem, é a incerteza do que um abraço fora de hora e inoportuno pode provocar num encontro que mal começou. Tenho vontade de perguntar sobre a História do Cerco de Lisboa, se o que ela queria me dizer com aquele parágrafo era exatamente o que eu entendi que ela queria me dizer, e se o que eu queria que ela me dissesse ao propor aquele enigma demasiadamente erudito possuía alguma correspondência, ainda que mínima, com a minha vontade de beijá-la naquele dia. No final das contas, apenas nos sentamos em nossas respectivas cadeiras, a sorte é que a surpreendente proximidade daquele abraço de sábado ainda permanecia entranhada em mim, portanto a ausência de um contato físico maior, dois beijinhos que fossem, a título de saudação, não me provocou maiores incômodos. Então me ocorreu que talvez valesse a pena arriscar o filme do Eric Rohmer na sala 2, que começava em menos de uma hora:  alguém que prefere te sugerir uma mensagem cifrada no último parágrafo do nono capítulo de um livro do Saramago, ao invés de dizer com palavras que sente vontade de te beijar mas acha que ainda é cedo demais, não leva o menor jeito para ser fã do Sylvester Stallone, ou então a Contradição encarnou na Terra sob forma de mulher e esqueceram de me avisar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço um trato comigo mesmo e prometo não tocar no assunto do Enigma Saramago, a menos que ela faça alguma menção à história. Mas também tenho vontade de iniciar a conversa e não sei por onde começar. Dentro da lógica da minha cabeça perturbada, havíamos alcançado tamanho grau de envolvimento instantâneo, decorrente daquele abraço inesperado, que estaríamos condenados a padecer do mal da falta de assunto, até que as situações pendentes entre nós fossem devidamente resolvidas. Tento provocar alguma centelha que dê início à fogueira daquela conversa, mas tenho o azar de dizer algo potencialmente estúpido, porém indiscutivelmente relevante, na mesma hora em que ela resolve dizer algo que é, ao mesmo tempo, estúpido e irrelevante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senti sua falta.” / “Vamos tomar sorvete?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço uma pausa para ter certeza de que ela não ouviu o que eu disse. Começo a achá-la meio doida. Em seus melhores momentos, é como se eu estivesse diante de uma versão ainda mais encantadora, posto que real, da personagem de Diane Keaton em “Annie Hall”, mas nos piores momentos ela só conseguia ser irritante, com esse jeito semi-ingênuo de reverter o rumo da conversa e iniciar uma digressão que certamente não vai levar a lugar nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora?”&lt;br /&gt;“É, agora, por quê? Você tava pensando em sugerir algum filme pra gente assistir?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atenção, crianças, não façam isso em casa: agir de forma dissimulada é crime e, com o tempo, você pode acabar se acostumando e achando tudo muito natural. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hmm, nem sei o que tá passando... A gente pode ver, não sei...”&lt;br /&gt;“Então vamos tomar sorvete, anda, na saída a gente vê o que tá passando, se tiver algum filme bacana depois a gente volta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram aproximadamente 17h15 e o calor lá fora tornava o Espaço Unibanco de Cinema ainda mais convidativo e a proposta dela de sairmos para tomar sorvete ainda mais esdrúxula – até porque o quiosque do MacDonalds mais próximo que eu conheço fica a dois quarteirões, no shopping da Praia, e eu estava começando a apostar que, tão logo pisássemos no shopping, ela cismaria de subir até o oitavo andar “ só pra ver o que tá passando no Cinemark”, e dessa forma eu terminaria meu dia pagando sete reais e cinqüenta (arredondando pra oito reais, incluindo o sorvete) para assistir a algum blockbuster barulhento e comer pipoca com manteiga numa sessão lotada de adolescentes. Passamos em frente à bilheteria do Espaço Unibanco, vejo a francesa no cartaz do filme do Eric Rohmer em exibição na sala 2 acenando pra mim, mas os filmes das salas 1 e 3 também não são má escolha, desde que ela não tenha preconceito com cinema nacional e nem sinta urticárias só de ver a frase “prêmio de melhor direção no Festival de Sundance” funcionando como chamariz de determinado filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu veria o filme da sala 3, mas de uns tempos pra cá ganhar prêmio em Sundance não quer dizer absolutamente nada sobre a qualidade do filme...”&lt;br /&gt;“Verdade. O cara acha que basta balançar a câmera e sujar a imagem”, e na hora do “sujar” eu acho que fiz alguma careta ou coloquei “sujar” entre aspas, “pra parecer alternativo.”&lt;br /&gt;“Eu acabo preferindo ver um pipocão sincero do que um filme pseudo-alternativo. Você não acha?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não acho, quer dizer, depende do que você considera pipocão sincero. Um sujeito com idade mental de 5 anos pode achar “Rambo” um pipocão sincero. Eu precisava desbravar esse deserto incógnito o quanto antes, porque a possibilidade de estar diante de uma freqüentadora assídua do Cinemark começava a me assustar. Ao mesmo tempo, achei que estava sendo preconceituoso demais. Então resolvi obrigá-la a mostrar o jogo o quanto antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“De que tipo de filme você gosta?”&lt;br /&gt;“Filmes bons, na maioria das vezes.”, e ela riu, “Eu só não sugiro que a gente veja o filme que tá passando na sala 2 porque esse eu já assisti.”&lt;br /&gt;“Já?”&lt;br /&gt;“Já. Gostei mais ou menos. Já vi outros filmes desse diretor e achei esse um dos mais fraquinhos.”&lt;br /&gt;“Então você gosta do Eric Rohmer?”, e pela primeira vez em quinze minutos encarei com bons olhos uma caminhada sob o Sol até a Praia de Botafogo.&lt;br /&gt;“Não posso dizer que gosto de todos os filmes dele, porque vi poucos, mas dos poucos que eu vi, gostei mais ou menos da maioria deles e muito de um ou dois.”&lt;br /&gt;“Quais?”&lt;br /&gt;“Ah, eu sou péssima pra lembrar título de filme. E esse cara faz uns filmes com uns títulos muito parecidos, aí eu me confundo toda. Por exemplo, você sabe a diferença entre “Trópico de Câncer” e “Trópico de Capricórnio”, quer dizer, qual livro é qual, o que acontece em cada um deles?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa começava a me agradar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei, porque adoro Henry Miller.”&lt;br /&gt;“Ah, eu não gosto muito não. Acho ele pretensioso demais. Vai ver é por isso que eu faço confusão entre os dois livros.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sol parecia mais quente agora, e eu quase simulei uma queda de pressão capaz de nos levar de volta para o ar-condicionado. Ela prosseguiu, indiferente ao meu sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não me peça pra fazer listas de livros, filmes, discos, peças, comidas favoritas... Eu não tenho paciência pra isso. Quando você quiser saber se eu gosto de determinada coisa, então me pergunte diretamente. Não fica me dizendo pra dizer os cinco mais, os cinco menos, acho isso tudo muito chato.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto caminhávamos até o shopping, e a essa altura do campeonato estávamos quase lá, me ocorreram duas coisas: nossos encontros sempre começavam de forma estranha, e isso parecia obedecer a uma espécie de ritual. Parecia estar escrito em algum lugar que nós precisávamos de aproximadamente 15 minutos para nos acostumar com a presença um do outro, e nós fazíamos isso frustrando as expectativas um do outro, de forma sistemática (“Eu adoro Henry Miller”/ “Eu acho ele pretensioso demais”, “Eu gosto de rock”/ “Eu gostava na época em que era casada”, e por aí vai). Isso me incomodou até o terceiro encontro, e mais tarde vocês vão descobrir porquê. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra coisa que me ocorreu era bem mais agradável. Comecei a juntar frases isoladas proferidas por ela de forma displicente ao longo dos dois últimos encontros e reuni algumas evidências – “Você vai ter que me explicar a diferença entre hard rock e heavy metal”, “Quando você quiser saber se eu gosto de determinada coisa” – de que nosso relacionamento, fosse apenas amizade ou algo mais, nunca se sabe, não estaria limitado a meros três encontros, ou pelo menos parecia haver, da parte dela, um desejo sincero de que a gente se visse mais vezes. Ou eu estava pegando as frases dela, distorcendo o sentido original e atribuindo significados que eu gostaria que fossem autênticos, essa seria uma terceira coisa que poderia ter me ocorrido, mas infelizmente não me ocorreu, e nós chegamos ao shopping.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compramos duas casquinhas no Dunkin’ Donuts e acabamos decidindo subir até o oitavo andar para ver a paisagem. Os oito lances de escada rolante foram percorridos em silêncio total e absoluto. Observei de relance a programação do Cinemark, havia filmes grostecamente ruins sendo exibidos, e eu meio que apressei o passo até a varanda para que ela não se animasse a conferir os filmes que estavam em cartaz. Não sei se em virtude do calor ou da distância que mantínhamos em relação ao outro, não consegui sentir o perfume cítrico que ela usava no sábado, e fiquei com medo de ter inventado vários detalhes de nosso último encontro como forma de me convencer de que havia sido bom, e legitimar para mim mesmo a vontade de repetir a dose, ou ainda como recurso de estilo, para ter assunto na hora de colocar os eventos de sábado no papel, de maneira que eles parecessem melhores do que efetivamente foram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu odeio essa cidade, mas têm algumas coisas que fazem viver no Rio valer a pena.”&lt;br /&gt;“A vista, por exemplo?”&lt;br /&gt;“Não. Não, a vista é muito clichê. Sei lá, a casquinha, os filmes bacanas que passam no cinema, se você morasse em Cuiabá ia achar tudo muito tedioso.”&lt;br /&gt;“Então você já morou lá?”&lt;br /&gt;“Um tempo. Antes de passar pra Federal e ter que me mudar pro Rio.”&lt;br /&gt;“Seus pais?”&lt;br /&gt;“Ficaram por lá. Mas os dois já faleceram.”&lt;br /&gt;“Você não tem nenhum parente no Rio?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Você mora sozinha?”&lt;br /&gt;“E você, mora sozinho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendi a última pergunta como um eufemismo para “não quero falar sobre isso agora”. “Nem eu”, pensei, porque o fato de ainda morar com os meus pais pode levá-la a algumas conclusões equivocadas sobre a minha independência emocional, aquela bobagem freudiana padrão. Aí, nessas horas, a gente muda estrategicamente de assunto, e torce para que a outra pessoa não seja maquiavélica o suficiente para perceber sua fraqueza evidente e decidir explorá-la, antecipando-se à sua tentativa de falar sobre borboletas ou o calor e enfiando o dedo na ferida com gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você trabalha onde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegava mal repetir a estratégia dela e devolver a pergunta. Então resolvi ser sincero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tô terminando a minha dissertação de mestrado. Preferi me dedicar exclusivamente à pós-graduação e larguei o emprego...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parcialmente sincero, porque eu estava, sim, terminando a minha dissertação e me dedicando exclusivamente à pós, mas não havia abandonado nenhum emprego anterior, simplesmente porque passara os últimos anos às custas de uma bolsa de estudos, de serviços esparsos aqui e ali, e do financiamento paterno, como não podia deixar de ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E você trabalhava em quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custava mudar de assunto? Custava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu escrevia pra teatro.”&lt;br /&gt;“Que bacana.”&lt;br /&gt;“Ééééé...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas que não me conhecem podem estar começando a achar que eu sou algum tipo de mentiroso patológico, mas vejam bem, novamente, o que eu disse não era de todo invenção. Eu escrevia, sim, para teatro, cinema, só que ninguém encenava as minhas peças ou filmava meus roteiros, e quando eu mandava material pra algum concurso era sempre eliminado na segunda fase, mas teve uma vez, uma única e miserável vez, que um sujeito de São Paulo me escreveu pedindo um roteiro para teatro, de no máximo 15 páginas, que ele gostaria de encenar no Centro Comunitário que havia perto da casa dele. É aquele negócio, o cara nunca me pagou, nem deu nenhuma espécie de retorno (do tipo “Recebi o seu roteiro e vou limpar o rabo com ele”), e eu jamais soube se ele montou o tal texto, e, caso tenha montado, se me deu o devido crédito. Mas a história é verídica e, com um pouco de esforço, bem que pode ser incluída em um suposto currículo de êxitos imaginários onde até o momento a única coisa que havia eram fracassos concretos, ou não? Sei que fiz questão de passar a lenda adiante, e não se esqueçam que é apenas nosso terceiro encontro, e eu tenho o direito de ser 20% sincero com ela. Por via das dúvidas, antes que ela pudesse dar mostras de que não havia engolido a minha história, emendei a resposta com outra pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E você, trabalha onde?”&lt;br /&gt;“Produzindo conteúdo para um site.”&lt;br /&gt;“E o site é sobre...?”&lt;br /&gt;“Esoterismo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, estou no oitavo andar de um shopping na Praia de Botafogo, e ela me diz que escreve num site sobre anjos, cabala, tarô, i-ching, reiki, a lista é interminável, e ela começa a descrever o site, o design do site, que me parece medonho, e eu sinto vontade de me jogar da varanda para poder chegar mais rápido lá embaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como tem gente que leva essa bobagem a sério, é impressionante... Cada carta que a gente recebe... Sim, porque apesar de serem leitoras de um site, essas pessoas desconhecem o e-mail, e mandam cartas.”&lt;br /&gt;“Por uma fração de segundo, pensei que você acreditasse nessas coisas...”&lt;br /&gt;“Mas no fundo eu acredito. Não acredito nas pessoas que trabalham comigo no site, eles não passam de um bando de picaretas, picaretas espertíssimos, por sinal, espertíssimos e cheios da grana, porque eles me pagam bem. Quer dizer, bem em termos. Dá pra eu pagar o aluguel do apartamento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em menos de um minuto, ela: a) me fez achar que ela acreditava em coisas esotéricas; b) me convenceu do contrário; c) me obrigou a voltar para a); d) sinalizou que ganha um salário respeitável; e, finalmente, e) insinuou que mora sozinha, porque se dividisse o apartamento com amigos ou um namorado(a), ela diria algo do tipo “Dá pra eu ajudar no aluguel do apartamento” ou qualquer coisa parecida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não acredita, pelo visto.”&lt;br /&gt;“Não, não acredito.”&lt;br /&gt;“Nem em destino?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Reencarnação?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Metempsicose?”&lt;br /&gt;“Hein?”&lt;br /&gt;“Esquece. Deus?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dá pra responder a uma pergunta dessas assim, de bate-pronto. Gerações de filósofos se debateram em torno dessa questão, e agora ela me pede que eu emita uma opinião sobre Deus antes que ela possa repetir cinco vezes a palavra estranha começada por “met-alguma-coisa” que antecedeu a pergunta sobre Ele. Hora da digressão, de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente não vai voltar pro Espaço Unibanco não, né?”&lt;br /&gt;“Você tá a fim?”&lt;br /&gt;“Pode ser...”&lt;br /&gt;“Não é “pode ser”, reticências. Você tá a fim ou não?”&lt;br /&gt;“Você tem alguma idéia melhor?”&lt;br /&gt;“Você tá a fim ou não?”&lt;br /&gt;A última frase foi dita num tom especialmente agressivo. Acho que ela percebeu o exagero, porque suas bochechas ficaram vermelhas, e ela não tinha a pele tão clara assim a ponto de ficar vermelha por qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos embora.”, ela disse, e fez menção em sair. Adiantei-me para poder abrir-lhe a porta, talvez o último ato de gentileza que seria capaz de executar naquela tarde.&lt;br /&gt;“Pela escada?”&lt;br /&gt;“Não. Elevador.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Definitivamente, ela era louca. Mudava de opinião, de temperamento, juro que até mesmo sua expressão facial se modificava consideravelmente nesses momentos de explosão. Era o primeiro de muitos que eu ainda testemunharia, e posso lhes garantir que esse foi o mais suave. Tentei alcançá-la até o elevador, e não é que ela estivesse fugindo, tecnicamente ela estava apenas andando depressa, mas fosse ela uma corredora de marcha atlética, andava depressa o suficiente para ser desclassificada da prova, o que me permitia afirmar com toda certeza que ela estava tentando escapar de mim. Por sorte (ou azar, ainda não sei ao certo), a fila ainda estava parada quando consegui alcançá-la. Entramos no elevador em silêncio, o elevador lotou e, que diabo, eu sinceramente não achava que devia lhe pedir desculpas, o que eu havia dito de errado?, minhas observações sobre o esoterismo foram tão grosseiras assim?, eu não tenho culpa de ser um sujeito permanentemente indeciso e responder a 99% das perguntas que as pessoas me fazem com um “Pode ser...”, mas eu garanto que é um “pode ser” generoso, que deposita nas mãos da outra pessoa nada mais nada menos do que a responsabilidade integral por determinada decisão. É, ela tinha razão, o “pode ser” pode ser muito irritante, às vezes. Ela estava de costas pra mim no elevador, eu me aproximei e praticamente sussurrei em seu ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me desculpa.”&lt;br /&gt;“Não precisava.”, ela respondeu, sem virar a cabeça, e eu já não sabia se o “não precisava” se referia ao meu pedido de desculpas, ou se ela estava a dizer que a minha indecisão, lá em cima no terraço, havia sido desnecessária (no sentido de “não precisava ter feito isso ou aquilo”) e arruinado nosso encontro, e depois também não sabia porque o silêncio dela me machucava tanto, se éramos apenas dois desconhecidos, e eu faço questão de repetir isso quantas vezes for preciso, principalmente para que eu não comece a me sentir diretamente atingido por cada palavra (ou silêncio) vindo dela e depois atribua a ela a responsabilidade pelo meu desatino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando ela deu um semi-passo para trás e encostou o corpo no meu, inclinando levemente a cabeça para trás e apoiando-a no meu peito. Então senti sua mão esquerda tateando na minha perna à procura de algo, a ascensorista anunciou quarto andar, e meus dedos começaram a tatear também, cegos, indecisos, hesitantes, até que finalmente se entrecruzaram com os dedos dela, e pelo espelho do elevador percebi uma ligeira contração muscular em sua face, na altura da boca, o que me permitiu deduzir que ela estava sorrindo. Durou uma eternidade instantânea, aquele momento, como se o tempo que eu tentara dobrar, em vão, ao longo dos últimos dias, espontaneamente resolvesse curvar-se sobre si mesmo, multiplicando-se em infinitos intra-tempos que continuavam se multiplicando para além dos limites da compreensão humana, e isso parecia influenciar o funcionamento do meu organismo, que durante esse curto espaço de tempo infinito, não precisou de oxigênio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevador esvaziou e nós decidimos sair pela lateral do shopping, dedos devidamente desentrelaçados. Já estava escuro e o calor havia diminuído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu preciso te contar uma coisa”, ela disse, e meu coração, coitado, adivinhem só?&lt;br /&gt;“Eu também.”&lt;br /&gt;“Sabe por que eu insisti tanto pra gente vir tomar um sorvete aqui no shopping?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu silêncio ocupou o lugar de um “não” puramente retórico. Então ela prosseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque eu estacionei meu carro aqui no shopping.”, e ela disse isso tentando sustentar um semi-sorriso e falar ao mesmo tempo, o que seria bastante engraçado em outras circunstâncias, não fosse a minha vontade de beijá-la que retornava aos poucos e a impressão de que o que acontecera no elevador não passara, novamente, de uma ficção destinada a atormentar o meu sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora fala você.”&lt;br /&gt;“O quê?”&lt;br /&gt;“Nós dois tínhamos coisas pra dizer um pro outro. Eu já disse a minha. Agora é a sua vez.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O instante compreendido entre o início do silêncio que se estabeleceu entre nós e o beijo – sim, porque houve um beijo, um beijo como todos os outros, e ainda assim diferente de todos os demais, o que nos poupa de maiores descrições, já foi dito anteriormente que mais importante do que o beijo é o instante que o antecede, posto que concentra toda a expectativa do porvir que já se anuncia mas ainda não se concretizou – durou menos do que eu imaginava que fosse durar, e se vocês levarem em consideração que eu esperava por esse momento há cerca de uma semana, a ponto de ser capaz de afirmar, com toda certeza, que o instante entre o silêncio que se estabeleceu entre nós e o tão aguardado beijo não durou meros dois segundos, mas sim oito dias, prova cabal de que o tempo absoluto não existe, o tempo é uma questão de percepção, depende única a exclusivamente da maneira como cada indivíduo manipula o tempo que o rodeia, e naquele momento senti o tempo mais presente do que nunca, naquele momento senti algo entre a eternidade do instante e a fugacidade da História, um beijo em close-up mas filmado como plano-seqüência, ou algo assim, então pela primeira vez em três séculos de vida interior eu pude compreender o que ela quis me dizer ao sugerir, pela boca do personagem principal de “História do Cerco de Lisboa”, na última frase do último parágrafo do capítulo nove, que nosso tempo ainda não havia chegado. Ainda. Não mais. Ou pelo menos não agora. Não bastasse ter finalmente chegado, o tempo parecia estar, de forma irreversível, nas nossas mãos, e do nosso lado. Nos despedimos logo em seguida. Senti que chovia em algum lugar da Ásia Menor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110773055549052956?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110773055549052956/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110773055549052956' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110773055549052956'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110773055549052956'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-7.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #7'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110739344492740232</id><published>2005-02-02T21:16:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:25:13.736-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #6</title><content type='html'>“Quem é a moça com o vestido mais bonito?/ Quem é o moço que não sabe o que faz?/ Mexe o gelo no copo, move os braços sem jeito/ Leva a moça pra pista/ Pra dançar/ Olha um outro que chega com um jeito tranqüilo/ São dois olhos que cortam coisas que estão no ar/ Mexe o gelo no copo, move o corpo tão certo/ Tira a moça dos braços/ do outro moço na pista/ Na pista/ Irresponsável pelo que cativar/ Irresponsável pelo que cativar/ Mas quem vai levar/ essa moça pra casa?” (Casino)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O local que escolhi como cenário de nosso segundo encontro é a mistura de um típico pub de Nova Orleans com um típico boteco da Orla de Copacabana. Possui dois ambientes, um interno, escuro, todo em madeira, monasticamente silencioso até as nove da noite, e outro ocupando metade da calçada da Avenida Atlântica, coberto por um toldo branco e alvo fácil para vendedores de quinquilharias chinesas, grupos de pagode e meninos de rua. Chego no bar às três em ponto, porque não quero justificar a fama de sujeito-que-sempre-chega-antes-de-todo-mundo ou, pior, deixar que a antecedência excessiva denuncie alguma espécie de nervosismo ou ansiedade da minha parte. Não que eu esteja calmo e tranqüilo, pelo contrário, estou inexplicavelmente nervoso e ansioso, mas aprendi na escola que, quanto menos você demonstra sua vulnerabilidade, menor o risco de se decepcionar e maior a chance de parecer ordinariamente bem resolvido perante o resto do mundo, o que pode contar pontos ao seu favor, apesar de ser uma atitude eticamente questionável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entro no bar e me dirijo sem pestanejar até o espaço coberto, escuro e silencioso, vejo-a sentada numa das poltronas estofadas que ficam de costas para a rua, estrategicamente protegida por uma divisória de madeira. Pra dizer a verdade, só consigo ver o topo de sua cabeça, mas o corte de cabelo e um inexplicável perfume cítrico que me invade as narinas quando eu entro no bar me fazem acreditar que é ela quem está ali. Desacelero, tento respirar de forma mais pausada, e aproveito o intervalo de tempo entre a entrada do bar e a mesa para reconstruir, a partir daquele topo de cabeça, os olhos verdes, os ombros descobertos, a camiseta regata preta, a calça jeans desbotada, os sapatos sem salto, e, como nada me impede de atribuir movimento àquela imagem estática, começo a visualizá-la desfilando pelo bar, espalhando o perfume cítrico pelos quatro cantos daquele lugar, da cozinha ao balcão, e de repente a brisa que vem do mar começa a se confundir com o cheiro de uma folha de laranjeira, é quando finalmente alcanço a mesa e toco levemente em seu ombro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se vira de um jeito brusco, e depois fiquei pensando se o meu gesto não havia sido um tanto quanto despropositado, em se tratando apenas e tão somente da segunda vez em que nos víamos, mas – pensem comigo – uma pessoa que, voluntariamente, senta de costas para a rua, protegida por uma divisória de madeira, deixando apenas o topo da cabeça à mostra, parece pedir por uma aproximação desse tipo, e se, por algum acaso, não fosse ela sentada ali, mas sim outra pessoa, eu teria cometido uma gafe terrível. Sim, foi um gesto despropositado, e algo na maneira que ela encontrou para responder ao meu gesto pareceu denunciar um certo reconhecimento da confusão que me atormentava há dias. Era como se, ao tocá-la, as pontas dos meus dedos indicador e médio fossem capazes de transmitir algum impulso elétrico que fosse a tradução eletrostática do que eu estava sentindo. Podia jurar que a penugem do braço esquerdo dela ficou ligeiramente arrepiada. Aquele par de olhos verdes-amendoados me encarou por alguns instantes, instantes que eu digo são frações infinitesimais de segundo, e nesse curto intervalo de tempo, ela passou do choque para a surpresa, da surpresa para a neutralidade, perguntou se eu me incomodava de sentar lá fora, porque aquele espaço escuro e recoberto de madeira a incomodava um pouco, eu concordei e nós fomos buscar uma mesa perto da calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peço dois chopes ao garçom, claro para ela, escuro para mim. Ela põe a bolsa de palha trançada sobre a mesa, afasta o cabelo que, aparentemente duas vezes mais comprido em relação ao encontro de quarta-feira, ameaça cair-lhe sobre a testa e depois passa a mão pelo pescoço, inclinando levemente a cabeça para a frente, o que me obriga a abrir a pasta que trouxe comigo e retirar de lá de dentro um punhado de papéis com anotações estúpidas, porque se eu ficar mais trinta segundos olhando fixamente para ela com a mão no pescoço e a cabeça levemente inclinada para a frente, eu vou acabar me atrapalhando com as palavras e dizendo alguma besteira. Então fico folheando os papéis, procurando as supostas perguntas da suposta entrevista que eu supostamente planejei antes de sair de casa, mas tudo o que eu encontro é uma lista de músicas que gostaria que tocassem enquanto estivéssemos juntos – desejo parcialmente frustrado pela vontade dela em marcar nosso encontro num lugar que não fosse barulhento – e uma relação de frases engraçadas de pára-choque de caminhão que anotei enquanto vinha para Copacabana. Jesus, ela continua com a cabeça inclinada para a frente, então descubro que o perfume cítrico vem dos cabelos dela, e eu pego a primeira folha de papel que minhas mãos encontram, tiro uma caneta do bolso e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ergue a cabeça pela primeira vez em o quê, dois, três minutos, e me encara com aqueles olhos de farol esmeralda. Eu perco as palavras, de novo, e algo me diz que isso não vai terminar bem. Rabisco estrelinhas e pentagramas no papel, então percebo que ela rastreia todos os meus movimentos aleatórios, e sua expressão vai ficando cada vez mais séria. Ainda me resta contornar aquela situação constrangedora e deixar aquela mesa de bar com alguma dignidade, mesmo que pouca, então resolvo me adiantar a qualquer coisa que ela possa vir a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, desculpa se eu fiz você perder o seu tempo. A verdade é que eu não preparei entrevista nenhuma.”&lt;br /&gt;“A verdade é que eu já desconfiava disso.”&lt;br /&gt;“Pois é. Desculpa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginei que seria assim: duas rodadas de desculpas, uma de despedidas, pagaríamos a conta dos chopes não-bebidos e iríamos pra casa, ela pra casa dela e eu pra minha, lógico. Ela, mais uma vez, fez questão de me surpreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você quer de mim, afinal?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive vontade de dizer que ela tinha o direito de me perguntar qualquer coisa, menos aquilo, simplesmente porque de todas as perguntas possíveis e imagináveis, ela havia escolhido perguntar justo aquela cuja resposta eu desconhecia, ou conhecia muito bem mas não podia responder, então continuei rabiscando pentagramas no papel. Consegui até desenhar o símbolo místico dos quatro integrantes do Led Zeppelin, o que me deixou muito satisfeito, porque até então, toda vez que eu tentava desenhar os quatro símbolos, sempre parava naquele “ZoSo” ou algo assim, cujo traço me parecia muito complexo, e ali estava eu, diante de Page, Plant, Jones, Bonham e de uma pergunta impossível de ser respondida com franqueza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não sei”.&lt;br /&gt;“Você não sabe?”&lt;br /&gt;“Não”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adiantava entrar em detalhes? Adiantava dizer pra ela que, nos últimos três dias, a única coisa que ocupava meus pensamentos era a expectativa de vê-la de novo o quanto antes? E se ela me pedisse para ser mais preciso, tipo “Quais são suas intenções a meu respeito?”, o que eu deveria responder? Que ela tinha me impressionado muito? Que nossa última conversa havia sido muito agradável – nós mal trocamos uma dúzia de palavras verdadeiramente significativas? Que a presença dela me transmitia uma paz impossível de descrever em palavras – apesar de, ocasionalmente, ela disparar alguma sentença que fazia com que eu me sentisse um lixo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, eu não me incomodo de te encontrar pra gente conversar. Só conversar, entende. O que me incomoda é você ficar usando essa história de dissertação de mestrado como desculpa pra gente se encontrar. Olha a quantidade de livros que eu trouxe pra te emprestar... E ai você diz que não preparou nenhuma entrevista? Como é que você quer que eu me sinta a respeito disso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela passou da doçura ao descontrole em questão de segundos, e abriu a bolsa para me mostrar os livros em seu interior. Meu coração sentiu um aperto danado, porque devia haver uns cinco quilos de livros ali dentro, então compreendi que a cabeça reclinada para a frente e a mão sobre o pescoço eram um indicativo da dor absurda que ela devia estar sentindo. Dor física, que fique bem claro, nada de analogias metafísicas ou espirituais. Fiz menção em levantar e cair fora. E então, de súbito, me ocorreu que, se sair dali com alguma dignidade parecia virtualmente impossível, que pelo menos eu não me sentisse culpado pela luxação muscular dela ao deitar a cabeça no travesseiro de noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você podia ter me avisado pelo telefone que estaria trazendo livros”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu sou desprezível, meu Deus do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você tava com pressa quando me ligou, eu não quis te incomodar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Droga... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ok, eu estava com pressa, me esqueci, desculpa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no final das contas, lá estava eu, de volta às desculpas. Ela parecia extrair algum prazer mórbido daquela situação, o que me desagradava profundamente. Tive vontade de devolver a pergunta “O que você quer de mim, afinal?”, mas achei que seria o cúmulo da forçada de barra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não quero ficar aqui nesse bar. Vamos andar na praia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando dei por mim, havia guardado os papéis de volta na pasta, pago a conta e atravessado as duas pistas da Avenida Atlântica praticamente de olhos fechados, porque tinha os olhos abertos mas não via nada. Depois atravessamos a ciclovia, e percebi que por onde que quer ela passasse, ela tinha o dom – ou a maldição – de atrair a atenção das  pessoas ao redor. A simples presença dela naquele calçadão promovia uma espécie de ruptura no continuum espaço-temporal de Copacabana como um todo, de repente todas as coisas pareciam fora de lugar, e a desorientação que aquele fenômeno provocava obrigava as pessoas a buscar desesperadamente um ponto de referência, o que acabava convergindo os olhares de todos os passantes para aquela menina – impossível que ela tivesse 31 anos – tirando os sapatos, as meias, erguendo a barra das calças jeans desbotadas antes de pisar na areia. Ninguém precisava dizer absolutamente nada, nenhum gracejo, nenhum assobio, nenhum comentário mais grosseiro, ela continuava lá, indiferente a tudo e a todos, ela simplesmente sentia os olhares que as pessoas dirigiam a ela e, ocasionalmente, respondia aos olhares com um sorriso displicente. Então resolvi acompanhá-la. Tirei os sapatos, etc, e comecei a segui-la pela areia. Caminhamos praticamente até a linha d’água. Eram aproximadamente quatro da tarde, o sol ainda estava um pouco forte, mas eu me sentia fortalecido, imune a todo e qualquer perigo, bastava que ela sorrisse e nenhum mal seria capaz de me alcançar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava de um assunto, qualquer assunto, por mais banal que fosse, porque chegava a ser um crime desperdiçar aquele momento em silêncio. Em breve teríamos o pôr-do-sol, e eu queria estar ao lado dela quando isso acontecesse. Para tanto, seria necessário prolongar aquela situação por mais noventa minutos, torcendo para que o sol decidisse se pôr mais cedo excepcionalmente naquele dia. A água fria bateu nos meus pés e interrompeu meu devaneio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu pensei que você quisesse conversar... Naquele dia você me deu a impressão de ser uma pessoa falante.”&lt;br /&gt;“Eu costumo falar muito, mas tô tentando me controlar. Não quero te entediar.”&lt;br /&gt;“É impressão minha ou você não se sente à vontade na minha presença?”&lt;br /&gt;“Não é isso, é que...”&lt;br /&gt;“Eu te intimido?”&lt;br /&gt;“Não, você não me intimida.”&lt;br /&gt;“Já me disseram uma vez que eu intimido as pessoas. E que, por causa disso, as pessoas não conseguem ser sinceras comigo.”&lt;br /&gt;“Talvez eu não esteja sendo 100% sincero. É difícil ser 100% sincero. Principalmente com desconhecidos.”&lt;br /&gt;“E quando uma pessoa deixa de ser desconhecida? Quer dizer, chega uma hora em que você percebe que pode confiar minimamente numa pessoa. Aí você é 100% sincero?”&lt;br /&gt;“Acontece numa progressão, sei lá. Acho que, à medida que a confiança entre duas pessoas aumenta, elas vão se tornando mais sinceras uma com a outra.”&lt;br /&gt;“Então você nunca é sincero com desconhecidos?”&lt;br /&gt;“100%, não.”&lt;br /&gt;“Devo desconfiar de tudo o que você diz, então?”&lt;br /&gt;“De pelo menos 90% do que eu digo, sim.”&lt;br /&gt;“Então aquele nosso encontro de quarta-feira foi suficiente para que você pudesse ser 10% sincero comigo hoje?”&lt;br /&gt;“Talvez.”&lt;br /&gt;“Você vê a sinceridade como um problema, então?”&lt;br /&gt;“Não é que seja um problema. É que, quando você é sincero, você corre o risco de se expor demais pra outra pessoa. E depois, essa pessoa pode usar as coisas que você disse, sendo sincero, contra você.”&lt;br /&gt;“Isso não é meio radical da sua parte não? Achar que todas as pessoas em quem você confia não fazem outra coisa que não esperar uma oportunidade pra te ferrar?”&lt;br /&gt;“Não generalizo isso pra todas as pessoas que eu conheço, mas já aconteceu comigo algumas vezes e eu não quero repetir a dose.”&lt;br /&gt;“Algumas vezes? Qualquer coisa que aconteça “algumas vezes” basta para que você assuma uma postura tão defensiva em relação a todo o resto?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei em silêncio porque ela havia atingido um ponto fundamental da minha encruzilhada existencial, ponto do qual eu tentava escapar há anos, sem sucesso. Comecei a me debater ainda mais, tentando pelo menos contornar a encruzilhada, mas para onde quer que eu me movesse, o ponto continuava lá, me puxando para o centro, para dentro dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando eu tinha nove anos”, ela prosseguiu, “fui com uns amiguinhos de colégio passar as férias na casa de praia de um deles. Até aquele dia, meus pais nunca tinha me deixado passar as férias na praia, então era tipo uma grande novidade pra mim. Um dia a gente saiu pra dar um mergulho e era a primeira vez que eu mergulhava numa dessas praias desertas, onde o mar geralmente é meio bravo, eu sei que bastou eu botar os pés na água pra tomar um cachote daqueles, que me deixou com água nos ouvidos por uma semana.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação de que, pela primeira vez, eu estava sendo autorizado a conhecer algum aspecto da vida dela, ainda que fosse um aspecto particularmente irrelevante, sem graça, e ainda por cima imbuído de alguma lição de moral possivelmente desprezível, me encheu de alegria, e eu estourei um champanhe virtual na minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você acha que aquele cachote aos nove anos me impediu de voltar a entrar no mar outra vez?”&lt;br /&gt;“Hmmm... Não?”&lt;br /&gt;“Claro que sim. Depois daquele dia, eu nunca mais entrei no mar com medo de tomar outro cachote. Às vezes eu me arrependo profundamente disso, mas molhar os pés assim do jeito que a gente está fazendo é o máximo de proximidade que eu consigo estabelecer com o mar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fez uma pausa e depois continuou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tava esperando uma lição de moral sobre a importância de superar desafios e vencer os seus medos? Haha. Eu penso exatamente da mesma forma que você. O medo de que determinada situação se repita de forma constante e previsível me paralisa. Eu não preciso esperar que determinada coisa se repita “algumas vezes” para que eu queira tomar distância dela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até aquele momento, eu estava procurando razões consistentes para não me apaixonar por ela. Agora me vejo procurando desesperadamente por motivos que me façam desistir de querer vê-la de novo. Não sei se isso é uma boa ou uma má notícia, mas até o presente momento ainda não encontrei nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desculpa se eu te desapontei, mas tem uma coisa que eu quero te dizer de antemão: eu não sou uma fábula dos irmãos Grimm e nem um livro de pensamentos. Não espere que eu forneça as respostas que você procura. É mais provável que eu te deixe ainda mais confuso.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tem uma coisa que me apavora, é a possibilidade de encontrar alguém que veja o mundo da mesma forma que eu. Eu sei que existe uma certa mística em torno do encontro de duas pessoas que compartilham uma série de afinidades, como se isso fosse um indicativo de que tais pessoas foram feitas uma para a outra, mas existe um certo tipo de afinidade perigosa, que deve ser evitada a todo custo, que é justamente a afinidade entre duas pessoas de tendências auto-destrutivas que acreditam na hecatombe nuclear como a melhor saída para a Humanidade. Ainda não havíamos chegado tão longe, mas os rumos que aquela conversa estava tomando deixavam evidente que, mais cedo ou mais tarde, eu tomaria conhecimento desse lado da personalidade dela, e aí seria tarde demais para voltar atrás, porque eu estaria irremediavelmente conectado a ela para sequer cogitar a hipótese de me afastar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes eu vejo um casal de pessoas estúpidas passeando na rua e, de certa forma, me sinto feliz por eles, porque duas pessoas estúpidas, que vêem o mundo de forma estúpida, realmente se merecem. O problema é quando uma pessoa que vê o mundo de forma estúpida se envolve com outra que vê o mundo como uma estrutura um pouco mais complexa, ou vice-versa: a chance de dar errado, por total incompatibilidade entre as maneiras de ver o mundo de cada um, é enorme. Dentro dessa lógica, aparentemente não há problema quando duas pessoas que enxergam o mundo em toda a sua complexidade e contradição se encontram. Mas quando as duas pessoas que se encontram compreendem a complexidade e a contradição do mundo como um indicativo de que ele precisa ser destruído o quanto antes, aí a coisa começa a ficar perigosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvemos nos sentar na areia, usando os sapatos como banco. Ela fica durante um tempo olhando para o mar, talvez lembrando do episódio fatídico envolvendo o cachote que tomou aos nove anos, e a luz incide sob ela de tal forma que eu mal posso ver seu rosto, apenas o contorno de seu rosto, e pela primeira vez, sinto vontade de beijá-la, menos pelo desejo do beijo em si e mais pela perfeição do cenário, que parece conspirar para que eu tenha vontade de beijá-la, ainda que as coisas que ela disse antes tenham colaborado decisivamente nesse sentido. Cá estou eu tentando racionalizar um gesto que pertence à esfera do impulso, e seria tão mais simples se eu simplesmente tomasse ela pela mão, puxasse seu rosto para perto do meu e desse um beijo nela, quer dizer, essas coisas acontecem de uma forma eminentemente simples, e uma amiga minha disse certa vez que a melhor coisa do beijo é o momento que antecede o beijo, a expectativa de algo que está prestes a se concretizar mas ainda não se concretizou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu queria te dizer que o motivo que me levou a entrar em contato contigo foi mesmo a história da dissertação de mestrado.”&lt;br /&gt;“Eu não duvido que tenha sido isso mesmo.”&lt;br /&gt;“E, sim, eu pensei que você fosse uma daquelas roqueiras xiitas capaz de passar a tarde inteira discutindo com os sobreviventes de Woodstock sobre o show do Cream que passou na TV por assinatura na noite anterior.”&lt;br /&gt;“Eu te decepcionei nesse sentido?”&lt;br /&gt;“Digamos que parcialmente, sim.”&lt;br /&gt;“Eu já tive meus dias de rock’n’roll na veia. Na época em que eu era casada.”&lt;br /&gt;“Na época da tese de doutorado, então?”&lt;br /&gt;“É.”&lt;br /&gt;“Normal, isso. Há um tempo atrás, eu agia dessa forma. Se eu me apaixonasse por uma fã de Bossa Nova e desse tudo errado, eu tomava repulsa pela Bossa Nova. Se, ao contrário, eu me envolvesse profundamente por uma fã de Jazz e no final das contas acabasse sozinho, era com o Jazz que eu tomava implicância. Quando eu me apaixonei por uma fã de rock, comecei a rever minha estratégia. Já tinha me apaixonado por pessoas com os gostos musicais mais variados, então se desse errado com a fã de rock, eu ia acabar querendo me afastar do rock, e aí ou eu arranjava um jeito de me apaixonar por alguém que não gostasse de música, ou começava a ouvir pagode.”&lt;br /&gt;“Não entendo como alguém pode não gostar de música.”&lt;br /&gt;“Nem eu.”&lt;br /&gt;“Qual o problema com o pagode?”&lt;br /&gt;“Com o pagode romântico comercialmente bem sucedido, todos os problemas e preconceitos possíveis e imagináveis.”&lt;br /&gt;“Mas você sabe que o pagode não é só isso, não sabe?”&lt;br /&gt;“Sei, sei.”&lt;br /&gt;“Ah, bom. E você sabe a diferença entre pagode e samba, não sabe?”&lt;br /&gt;“E você sabe a diferença entre hard rock e heavy metal?”&lt;br /&gt;“Não. Você vai ter que me explicar.”&lt;br /&gt;“Mas eu sei a diferença entre samba e pagode. O pagode é uma derivação do samba, e surge nos fundos de quintal do subúrbio carioca. Tem uma diferença musical também, mas isso eu não sei.”&lt;br /&gt;“Eu adoro samba.”&lt;br /&gt;“E você sabe a semelhança entre o rock e o samba?”&lt;br /&gt;“A semelhança? Os dois surgem como movimentos musicais contra-hegemônicos?”&lt;br /&gt;“Também, mas não é só isso. Isso que você citou foi o quê, Antonio Gramsci?”, fiz uma pausa providencial, “Os dois têm raízes na música negra. O samba era, originalmente, o canto dos negros escravos. O rock deriva do blues e do gospel, que era a música que os escravos cantavam nas colheitas de algodão do sul dos Estados Unidos. Quer dizer, no final das contas, samba e rock tem a mesma origem.”&lt;br /&gt;“Os dois nascem do sofrimento.” &lt;br /&gt;“Toda a grande arte nasce do sofrimento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma frase de efeito desprezível e pretensiosa como essa, não nos restava outra alternativa que não o silêncio. Nós nos levantamos da areia, porque ela disse que precisava ir embora. Ela estava de carro, indo na direção do Flamengo. Bom, eu estava indo naquela direção também, de certa forma, porque ainda estava cedo e eu decidi passar no Estação Botafogo e matar o tempo vendo algum filme, então aceitei uma carona até o cinema. Fomos a viagem inteira sem trocar uma palavra. Ela insistiu para me deixar na frente do cinema, eu teimei que não era preciso, então no final das contas ela acabou estacionando o carro no primeiro ponto da Praia de Botafogo para que eu pudesse descer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passam-se os anos, passam-se as gerações, mudam as órbitas dos planetas e o momento da despedida continua sendo um instante de grande angústia, ainda mais entre duas pessoas praticamente desconhecidas, que não sabem exatamente como agir. Eu simplesmente não sabia o que dizer. Só que desejava vê-la de novo, nem que fosse para explicar a diferença entre hard rock e heavy metal, e beijá-la também, se as coisas conspirassem a nosso favor. Era sábado, quase não havia trânsito, então ninguém buzinou, ninguém xingou impropérios, ficamos estacionados durante uns dois minutos, em silêncio. Decidi pôr um fim àquela tensão latente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso te ligar qualquer dia desses? Pra gente se encontrar de novo. Têm alguns filmes muito bons passando no cinema.”&lt;br /&gt;“Eu até veria alguma coisa hoje, mas já tinha um compromisso marcado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sejam sinceros: na opinião de vocês, ela respondeu ou não à minha pergunta? E, em caso afirmativo, a resposta foi sim ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu te ligo, então.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À minha última frase, ela respondeu com um monossílabo gutural impossível de reproduzir verbalmente, mas que foi bonitinha a maneira como ela fechou os lábios, cerros os olhos, sorriu e fez o tal ruído, isso foi. Fiz menção em me aproximar para lhe dar os dois beijinhos protocolares, mas ela se adiantou e me abraçou, um abraço leve que mal deu pra sentir, mas ainda assim um abraço. Os dois beijinhos protocolares foram pro espaço, porque eu fiquei sem reação. Então ela se afastou, ligou o carro e me perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você gosta do José Saramago?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondi que sim, ainda bastante desnorteado. E não era mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Conhece aquele livro dele, “História do Cerco de Lisboa”?”&lt;br /&gt;“Conheço.”&lt;br /&gt;“Então. No último parágrafo do capítulo 9, ou 10, não lembro... Nove, capítulo nove, eu tenho certeza, é bem na metade do livro... Tem uma coisa lá... Não esquece. A gente se fala.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi-se embora. Acabei desistindo de ver o filme. Voltei pra casa correndo, procurei feito um louco o tal livro do Saramago. Não encontrei. Então liguei para todos os meus amigos que pudessem ter “História do Cerco de Lisboa”, e para a minha sorte, um deles tinha um exemplar em casa. Pra dificultar ainda mais as coisas, a edição que esse meu amigo tinha não possuía um índice de capítulos, e ele teve que folhear página por página até encontrar o trecho em questão. Eram 11 e meia da noite quando isso aconteceu, e eu praticamente obriguei o sujeito a ler, pelo telefone, o conteúdo do último parágrafo do capítulo nove três vezes. A primeira para ter uma noção do que se tratava. A segunda para que eu pudesse ter certeza de que era aquilo mesmo que havia escutado da primeira vez, e a terceira, lentamente, para que me fosse possível transcrevê-lo (devidamente editado, tendo sido suprimidas as partes que não nos interessam diretamente) logo abaixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um dia, talvez por efeito duma luz que fará recordar esta, límpida e fria tarde que vai esmorecendo, se dirá, Lembras-te, primeiro o silêncio dentro do carro, as palavras difíceis, o olhar tenso e expectante, os protestos e as insistências, Deixe-me na baixa, por favor, tomo aí um eléctrico, Ora essa, levo-o a casa, não me custa nada, Mas sai do seu caminho, Eu, não, o automóvel, Não é cómodo subir aos sítios onde vivo, Ao pé do Castelo, Sabe onde moro, Na rua do Milagre de Santo Antônio, vi na sua ficha, depois um certo e ainda hesitante desafogo, corpo e espírito meio distendidos, mas as palavras sempre acauteladas, até ao momento em que Maria Sara disse, Pensávamos nós que estamos onde foi a cidade moura, e Raimundo Silva a fingir que não percebera a intenção, Sim, estamos, e a tentar mudar de conversa, porém ela, Às vezes ponho-me a imaginar como terá sido tudo aquilo, (...) e ele calado, obstinadamente calado agora, sentindo que a detestava como se detesta um invasor, foi ao ponto de dizer, Saio aqui, que estou perto, mas ela não parou nem respondeu, o resto do caminho fizeram-no em silêncio. Quando o carro parou à porta, Raimundo Silva, embora ser ter a certeza de ser isto um acto de boa educação, achou que devia convidá-la a subir, e logo se arrependeu, É uma indelicadeza, pensou, (...) foi nessa altura que ela disse, Fica para outro dia, hoje é tarde. Sobre esta frase histórica se há-de fazer extenso debate, pois Raimundo Silva está capaz de jurar que as palavras então ditas foram outras, e não menos históricas, Ainda não é tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8092926-110739344492740232?l=majorthom.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://majorthom.blogspot.com/feeds/110739344492740232/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8092926&amp;postID=110739344492740232' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110739344492740232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8092926/posts/default/110739344492740232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://majorthom.blogspot.com/2005/02/this-is-not-love-song-6.html' title='THIS IS NOT A LOVE SONG #6'/><author><name>Napoleão Dinamite</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10600365065927512706</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8092926.post-110678195911406366</id><published>2005-01-26T19:24:00.000-04:00</published><updated>2005-02-27T19:26:47.813-04:00</updated><title type='text'>THIS IS NOT A LOVE SONG #5</title><content type='html'>“Agora/ que lembro/ as horas ao longo do tempo/ Desejo/ Voltar/ Voltar a ti/ desejo-te encontrar/ Esquecido/ a cada dia que passa/ nunca mais revi a graça/ dos teus olhos/ que eu amei/ Má sorte/ foi amor que não retive/ e se calhar distraí-me/ qualquer coisa que encontrei” (Madredeus)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É no mínimo engraçado que eu esteja escrevendo uma dissertação de mestrado sobre o rock como elemento articulador de um sentido de pertencimento a determinada comunidade  transcendente (ou algo assim) e minhas músicas preferidas falem justamente sobre solidão. Passei horas e horas quebrando a cabeça, atrás de cinco músicas que definissem a minha personalidade – o vício do raciocínio sistemático expresso através da elaboração de listinhas de cinco mais se tornou ainda mais flagrante depois de um certo filme/livro, como vocês podem ter percebido – e, no final das contas, o resultado não fugiu do óbvio, porque todas as cinco músicas, invariavelmente, apresentam personagens solitários às voltas com dilemas existenciais decorrentes da própria solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quem interessar possa, a minha lista de Cinco Músicas que Definem a Minha Personalidade é composta por: 1. “Home is anywhere you hang your head”, do Elvis Costello; 2. “Last night I dreamt that somebody loved me”, do The Smiths; 3. “The loner”, do Neil Young; 4. “A most peculiar man”, do Simon and Garfunkel (dependendo da direção do vento e das condições de temperatura e pressão, a música #4 pode ser substituída por “I am a rock”, também da dupla); 5. “A flor”, do Los Hermanos. Pode conferir: as cinco músicas falam rigorosamente sobre a mesma coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou deitado na minha cama, o quarto está às escuras, e enquanto tento ampliar a minha lista de cinco para uma lista de dez, ouço uma guitarra solitária avançando na minha direção. Achei a música #6, que não é exatamente uma música, é um disco, e, nesse caso, a solidão não precisa do suporte de um punhado de versos para cortar a minha carne. Estou me referindo à trilha que Ry Cooder compôs para o filme “Paris, Texas”, um dos meus filmes favoritos, um filme impregnado de solidão em cada plano, e antes que eu comece a ficar tedioso e repetitivo, mais do que o habitual, decido me levantar e trocar o disco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez exista, sim, uma coerência entre a minha opção acadêmica, por assim dizer, e a realidade que me circunda, idem: é na tensão entre o desejo de pertencer a alguma coisa e o estar solitário que eu junto as peças do quebra-cabeça da minha personalidade. Como quase tudo o que eu faço, passar dois anos às voltas com pilhas e pilhas de textos teóricos e redigir uma dissertação de quase duzentas páginas sobre o sentido de comunidade do rock nada mais é do que uma espécie de fuga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você jamais viu Deus, aliás, eu duvido que qualquer pessoa sobre a face da Terra já tenha visto Deus, e ainda assim muita gente acredita nEle. Muita gente acredita em Deus porque experimenta Deus através da experiência de outras pessoas. Isso se dá de tal forma que, no final das contas, as pessoas param de buscar a experiência original e passam a se contentar com a experiência mediada que, no final das contas, oferece recompensas semelhantes, e a promessa da experiência original – no caso, estar junto de Deus após a morte – nunca deixa de existir. A merda é que eu não conheço ninguém que tenha morrido e voltado pra me dizer como é Deus. Pra dizer a verdade, acho que se Deus existisse e fosse mesmo essa maravilha toda que os relatos bíblicos contam, muita gente tinha voltado pra passar adiante a Boa Nova. “Ei, relaxem vocês todos, aí embaixo estão todos fodidos mas depois que vocês morrerem,  as coisas vão ficar muito, muito melhores”. Mas ninguém nunca voltou. Então talvez não exista nada lá mesmo. Só que é preciso manter a esperança, porque se alguém resolve voltar e dizer que o pós-morte é um grande arquivo de repartição pública, vazio e empoeirado, e que no pós-morte não há nenhum consolo para as agruras da vida, vai ser difícil controlar a onda de suicídios em massa que vai começar aqui embaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma forma, a minha fuga não é uma fuga sem objetivo. É uma fuga ao final da qual eu espero atingir essa experiência de pertencimento, ainda que isso apenas se dê através da experiência de pertencimento de outras pessoas. Porque, se você parar pra pensar, a lógica do pertencimento é semelhante à lógica divina. A maioria das pessoas experimenta o sentido de pertencimento mediante a experiência alheia. A experiência de pertencimento de cada um é tomada em referência à experiência dos outros, porque ninguém, nunca, jamais, experimentou o pertencimento pleno. O pertencimento pleno é uma ficção, da mesma forma que “o amor da sua vida” e Deus. São ficções criadas com o objetivo de fornecer um sentido à experiência humana, algo a se perseguir, algo pelo qual vale a pena lutar, ainda que no final das contas você chegue à conclusão de que esteve a perseguir o vazio, ou a si próprio, única e exclusivamente a si próprio, e isso na melhor das hipóteses, quer dizer, feliz de você se no final do seu percurso você conseguir encontrar a si próprio, porque a maioria das pessoas não encontra absolutamente nada. Demora algum tempo até você descobrir que o sentido da sua vida está na busca que você faz, e não em determinada pessoa ou no que você encontra quando chega no final do caminho. A maior (talvez única) validade do discurso religioso acaba sendo, justamente, sua maior contradição: o que importa não é Deus, é o que você faz de bom pelo caminho tentando chegar até Ele. A merda é que você precisa da idéia de Deus para fazer alguma coisa boa, seria ótimo se as pessoas fizessem coisas boas independente da pressão exercida pela idéia de Deus, mas não é assim que acontece, infelizmente, de novo: reduza Deus a um discurso, a uma falácia, e todos vão começar a matar uns aos outros – o que, de certa forma, já acontece por aí, apesar da existência dessa idéia de Deus, e muitas vezes, justamente em nome dessa idéia, quer dizer, no final das contas, talvez o discurso religioso não possua nenhuma validade mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo se aplica à idéia de Amor, com A maiúsculo, posto que total e absoluto. Algumas pessoas passam boa parte de suas vidas perseguindo essa idéia de amor. Cada experiência isolada, cada relacionamento, cada lembrança, é tomada em referência a essa totalidade inexistente. Você fixa um ideal de Amor na sua cabeça, e tenta alcançá-lo, mas perseguir o Amor absoluto, infinito, é que nem tentar alcançar Deus, é simplesmente impossível. E isso frustra as pessoas, e como frustra, faz muita gente chegar ao final da vida achando que nada fez sentido. A idéia de Amor é nociva porque, ao estabelecer um referencial absoluto no qual se basear, ela meio que cega o indivíduo, impede que ele enxergue as possibilidades que ficaram pelo caminho. O que me permite concluir que não existe o Amor, existem amores. É a lembrança desse amores que deve permanecer com o tempo, na memória, e não a inadequação desses amores ao ideal de Amor que alguém, um dia, estabeleceu de forma arbitrária. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o conceito de Amor que muita gente entende como um ideal em si, cujo questionamento parece estar fora de qualquer cogitação, é um discurso tão recente... Ele surge em meados do século XIX, eu acho, com o Romantismo Europeu e toda aquela ladainha sobre o amor eterno, etc e tal. Mas o discurso do Romantismo Europeu, apesar de relativamente recente, foi tão eficaz em sua tentativa de disseminar ideais burgueses pelo mundo que ele se atreveu a rescrever a própria História e, adivinhem só, conseguiu! O Romantismo Europeu alega ter se baseado na Época Medieval para construir sua base de referências, mas o que aconteceu de verdade foi que o Romantismo Europeu recriou a Idade Média, e não contente em recriar a Idade Média, ousou espalhar seus tentáculos por sobre outros períodos da História da Humanidade, distorcendo tudo com suas lentes românticas. Você pensa que na Idade Média as pessoas se apaixonavam? Que os nobres cavaleiros se lançavam em perigosas jornadas com o objetivo de conquistar o amor de uma dama virginal? Haha, que engraçado, isso. Eu morro de rir quando vejo um filme ambientado na Era Pré-Moderna cujos personagens agem, falam e se apaixonam como indivíduos contemporâneos. A Guerra de Tróia aconteceu porque o sujeito lá era apaixonado pela Helena? Tudo não passava de uma questão de poder, poder e riqueza, ampliar os domínios territoriais e  fortalecer o império; é claro que, como nem só de política vive o homem, no final das contas, o sujeito ainda ganhava um belo pedaço de carne no qual descarregaria uma quantidade respeitável de sêmen, e só. Não tentem me convencer do contrário. Não venham me falar de amor burguês em plena Idade Antiga (que, em si, também é um conceito burguês), havia muito mais na disputa entre Arthur e Lancelot do que os belos olhos de Lady Guinevere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no entanto, por mais falacioso que seja esse discurso romântico, os estragos que ele provocou na mentalidade ocidental estão diante dos nossos olhos, para quem quiser ver: o discurso romântico, devidamente amparado pela literatura, pelo cinema e pela indústria da música pop, formatou de tal maneira o nosso imaginário que, por mais que você deseje pensar e agir de forma diferente, é impossível ignorar ou sequer contornar essa idéia arbitrária de Amor. Romeu e Julieta não é uma história romântica, por Deus, é o relato de uma disputa política, é a tensão experimentada por uma Inglaterra às portas da Modernidade, mas ainda presa à tradição medieval. Mas não é disso que as pessoas lembram quando se fala de “Romeu e Julieta”: a primeira coisa que vem à mente é o suicídio dos amantes, as juras de amor eterno, aquela baboseira sobre o rouxinol e a cotovia, e por aí vai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O discurso amoroso é nocivo porque introjeta subliminarmente na cabeça das pessoas que sozinho, você não é ninguém. Para que a sua vida possua algum sentido, você precisa ter alguém ao seu lado, você precisa efetuar uma longa busca ao final da qual você encontrará alguém disposto a passar o restante dos seus dias na sua companhia. O Amor se torna uma espécie de conquista. A pessoa amada se torna um troféu que você possui a honra de ostentar pelo resto da vida. E é o medo de ficar sozinho que impulsiona a grande maioria das pessoas a se meter em relacionamentos fadados ao fracasso ou, o que é muito pior, a desejar sustentar um relacionamento que já não faz mais o menor sentido para ambas as partes. Chamem isso de covardia, de egoísmo, mas, por Deus, não venham atribuir a esse sentimento mesquinho as características e, principalmente, o nome de algo essencialmente belo, que é o amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acredito que deve existir um sentido em cada um de nós que nos baste. Você não precisa buscar o sentido da sua vida fora de você. Quer dizer, você até pode querer fazer isso, mas antes é preciso que você se convença do caráter complementar dessa busca. As pessoas com quem esbarramos por aí podem nos acrescentar uma série de coisas, podem transformar nossas vidas, no sentido de nos fazer descobrir facetas desconhecidas da nossa personalidade, mas é injusto atribuir a uma única pessoa a responsabilidade de preencher nosso vazio interior, salvar nossas vidas, ou algo assim. Fazer isso é despejar em cima dos ombros de alguém uma carga enorme, um peso insustentável, e mais cedo ou mais tarde as pernas vão demonstrar sinal de cansaço e a pessoa vai te deixar cair. Se, após a queda, você não tiver nenhum ponto dentro de você onde se apoiar, um ponto a partir do qual você será capaz de tomar um impulso e começar do zero, então sua única alternativa será cortar os pulsos ou passar o resto da vida se lamentando, amaldiçoando Deus e o mundo e aguardando o apocalipse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vejo o mundo mais ou menos assim, como um barco à deriva. Nós somos os náufragos, condenados a vagar pelo oceano à procura de uma tábua de salvação que nos permita continuar flutuando. Quando dois náufragos se encontram, não seria mais correto que ambos continuassem agarrados às suas respectivas tábuas, e utilizassem a companhia um do outro como forma de transformar a viagem pelo oceano num passeio menos tortuoso? Acontece que a maioria dos náufragos, ao enxergar um semelhante nadando em sua direção, prefere abandonar a própria tábua e nadar freneticamente até a tábua do outro, que a partir daquele instante será a tábua não de um nem de outro, mas dos dois, e essa tábua, por mais resistente que seja, dificilmente conseguirá agüentar o peso duplo por muito tempo. Na maioria das vezes, a tábua se parte, e antes que um dos dois consiga nadar de volta até a tábua original, ambos afundam. Difícil dizer de quem é a culpa numa hora dessas: tanto o que abandonou a própria tábua de forma impulsiva quanto o que aceitou a companhia do outro náufrago sem pensar nas conseqüências a longo prazo têm sua parcela de responsabilidade. Não que isso possua alguma relevância depois da queda: no fundo do mar, todos são inocentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solidão é a lepra contemporânea. Se você está acostumado a andar por aí sozinho, ir ao cinema sozinho, sentar no banco de uma praça, debaixo de uma amendoeira, para ler um livro – sozinho – pode reparar que as pessoas ao redor te olham como se você tivesse alguma doença contagiosa. Esse é o mecanismo através do qual a solidão se multiplica, diferentemente da lepra, que pressupunha um contato entre a pessoa infectada e o recém-contaminado, no caso da solidão é justamente a falta de contato, a repulsa, que espalha ainda mais a doença. Ouse manifestar publicamente sua satisfação interior em fazer as coisas sozinho e esteja preparado para as recriminações, os sermões, os “conselhos”... “Você tem que parar com isso” é a sentença mais popular, e aí você se sente como se fosse um drogado, um bêbado, um delinqüente, um serial killer, uma criatura deformada, um aborto, uma criança vítima de talidomida, o homem elefante, tanto faz. Mas, que diabo, será que é tão difícil para as pessoas entenderem que a solidão tem suas vantagens? Que sozinho você pode fazer coisas que, estando acompanhado, seria praticamente impossível? Que é melhor fazer determinada coisa sozinho do que na companhia de alguém que não enxerga o menor sentido naquilo que você faz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Testemunhei uma cena engraçada outro dia – engraçada porque eu estava observando de fora, claro, porque os envolvidos deviam estar achando tudo muito trágico. Estava num sebo procurando o segundo volume de “Em busca do tempo perdido” e havia uma moça parada em frente à prateleira de Literatura Francesa. Não havia mais ninguém no sebo, além de mim, dela, do balconista e de um rapaz de bermuda florida sentado num sofá no meio da loja e encarando fixamente o teto. A moça segurava uns sete ou oito livros, alguns bastante volumosos, e eu juro que fiquei comovido ao perceber o brilho nos olhos dela quando ela encontrou o livro que tanto procurava. Se as pessoas não fossem tão desconfiadas em relação à gentileza de estranhos, propensas que estão a entender toda abordagem como uma cantada ou algo do gênero, eu teria puxado conversa com ela. Existem sentimentos que só os ratos de sebo conseguem manifestar, é o sorriso diante do exemplar encontrado (e o sorriso do rato de sebo é ligeiramente diferente do sorriso do cliente de livraria tradicional), o êxtase diante do “R$ 5” escrito a lápis na folha de rosto, e, depois, a satisfação em ver o livro sendo colocado numa sacola tosca e devidamente guardado na bolsa. Sei que, depois de alguns instantes, já que não havia encontrado “À sombra das raparigas em flor”, decidi levar pra casa um pocket book do John Fante, e quando cheguei no balcão para pagar o livro, esbarrei novamente com a moça. Aí o cara de bermuda florida se levanta do sofá, caminha até ela e, transpirando enfado por todos os poros, lhe pergunta, de forma seca: “Já acabou?”. Ela sorri, como quem diz “Não, amor, só mais um pouquinho”, e ele responde “Então vou voltar pro sofá”. Fui invadido por um punhado de pensamentos sórdidos, e no final das contas concluí que aquele relacionamento devia ter algum aspecto pontual extremamente relevante – sexo, talvez – que fizesse o esforço pela manutenção do todo valer a pena. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um descompasso evidente entre aquele casal, que eu carinhosamente apelidei de “Questão da Loja de CDs”. A Questão da Loja de CDs se aplica perfeitamente ao consumo de qualquer bem cultural, mas eu gosto de usar o exemplo da loja de CDs porque, pessoalmente, é dessa forma que eu a enxergo. A Questão da Loja de CDs acontece quando um casal entra numa loja de discos: uma das partes do casal entra na loja e se sente no céu, a outra no inferno. Um não vive sem música, o outro passaria muito bem sem ela. Um seria capaz de permanecer horas ali dentro, o outro não vê a hora de se mandar. Como não é de bom tom demonstrar explicitamente o desconforto diante de determinada situação, a metade descontente do casal encontra uma série de subterfúgios para expressar sua vontade de cair fora dali o quanto antes: enquanto a parte A passeia os dedos freneticamente por entre os CDs, a parte B se limita a observar o primeiro disco de cada prateleira; terminada a exploração de superfície, a parte B busca um canto da loja no qual possa se encostar, cruzar os braços, e ficar encarando o chão ou o teto enquanto a parte A prossegue a jornada; finalmente, quando o desconforto atinge o limite do suportável, a parte B se aproxima da parte A e, naquele tom de voz de quem sabe que vai conseguir o que quer, enuncia a tão temida sentença:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não vai procurar em todas as prateleiras, vai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí pra frente, as coisas ficam meio imprevisíveis. “Está tudo acabado entre a gente” pode ser a resposta da parte A, mas eu não conheço nenhum casal cujo término do relacionamento se deu por causa da Questão da Loja de CDs, ou, pelo menos, em que a Questão da Loja de CDs foi a razão principal do término (secundária talvez, primária jamais). A parte A pode, também, baixar a cabeça, tascar um bei
